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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Três filmes franceses para se sentir bem

Que tal esquecer os problemas e alimentar a esperança, com essas produções presentes na Netflix?


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Bem-Vindo a Marly Gomont (2016), filme de Julien Rambaldi, é daquelas comédias dramáticas que tratam da superação de um obstáculo para que ao final nos sintamos dispostos a seguir adiante nesse mundo tão injusto. Os protagonistas se dão bem e temos a esperança de que no fundo a alma humana é generosa, basta nos conhecermos.

Baseado num fato já musicado por um de seus protagonistas, o rapper Kamini, Bem-Vindo a Marly Gomont narra a história de integração racial do médico zairense Seyolo Zantoko e sua família em vilarejo da Picardia, no norte francês. Em 1975, depois de se formar em medicina e não-desejoso de trabalhar para o corrupto presidente de seu país, o Dr. Zantoko aceita emprego desafiador: ser médico numa aldeia que jamais vira um negro, quanto mais, doutor. Um dos trunfos de Bem-Vindo a Marly Gomont é apresentar uma França que nada tem a ver com o glamour fabricado de Paris. Em meados dos 70’s, mentalidade e higiene daquela gente nada tinham que ver com a urbanidade da capital (como se toda a Paris fosse chique...).

A narrativa traz os desafios da família acostumada a clima quente e ensolarado, onde as relações sociais são mais vivazes, para adaptar-se à frialdade não apenas climática do norte. Questões como realçar ou sublimar traços identitários étnico-culturais e a dificuldade de um eurocentrado branco para aceitar que um diferente possa saber mais são tangencialmente abordadas. Mas, tudo bem emotivamente, em chave dramática ou cômica, afinal, a vibe de Bem-Vindo a Marly Gomont é nos fazer sentir bem com uma história de sucesso. Tipo, se eles puderam, por que não você?

Poderíamos começar contra-argumentando que nem todo zairense tem dinheiro para estudar medicina na França, mas, para que estragar o espírito natalino? É nessa data que um acontecimento liga os imigrantes aos autóctones, adquirindo valor simbólico de comunhão entre nações, entre etnias, que podem ser distintas em termos de geografia e cor de pele, mas apresentam denominador comum. E quando o diferente é percebido como não-totalmente alienígena, a integração se faz possível, mesmo que alguns radicais idiotas não aceitem. Road Movies (ou filmes de estrada, na pouco usada tradução) é um subgênero em que a história se desenrola durante viagem. Na maioria das vezes, o filme não é regido por uma única situação-problema como convencional, mas por várias que surgem e são resolvidas conforme e história transcorre. Em termos simbólicos é um dos tipos mais explícitos de metaforizar as mudanças passadas por indivíduo ou grupo. O deslocamento geográfico, a mudança de um espaço a outro, com seus contratempos equivalem à alteração no arco comportamental da(s) personagem(ns).

Um exemplo natalino francês é 10 Jours En Or (2012), dramédia escrita e dirigida por Nicolas Brossette. Bajau Marc é caixeiro-viajante bon-vivant, superfaturador de notas de despesas e que vive apenas para si, porque não possui laço familiar. Depois de acobertar e dormir com uma imigrante ilegal, o elegante senhor de meia-idade se descobre cuidador de um garoto de seis anos, que tem que levar para um endereço no sul do país.

Nessa jornada pseudo-dickensiana, à medida que Marc vai se despojando de seus confortos e comportamentos egoístas, aparecem acompanhantes que cumprem papeis similares aos fantasmas natalinos do escritor inglês. Pierre é o ancião que mostra a Marc como é horrível ser solitário na velhice e a jovem Julie vê nos dois homens que ainda é tempo de consertar seu futuro e ter uma família.

Com personagens improváveis e essa ênfase quase patológica na valorização da família (há incontáveis idosos sozinhos, apesar de terem constituído família), 10 Jours En Or é facilmente detonável, mas escolho perceber e anotar isso e ainda assim curtir esse passatempo simpático. Num planeta superlotado de notícias horrendas de garotinhos afogados em praias, o destino do pequeno Lucas amorna o coração.

Sabe quando um caso de superação tem efeito espelho, ou seja, reflete em outras pessoas? En Équilibre (2015) traz uma história assim.

Livremente inspirado em fato, o roteiro centra na superação de Marc e no efeito desencadeado em Florence. Ele é adestrador de cavalos e dublê; ela, analista de uma companhia de seguros. Quando Marc fica irreversivelmente paraplégico, a seguradora põe Florence para cuidar do caso e pagar o menos possível ao acidentado. Mas, Marc não é bobo e faz corpo duro, o que impressiona Florence. A tenacidade do cavaleiro – que quer voltar a montar, mesmo com as pernas paralisadas – impressiona a durona e aparentemente realista Florence. Devido a reprova em um exame, a mulher abandonara promissora carreira de pianista para se dedicar ao que era “seguro” e “possível”. Mas, será que vale a pena abdicar tão facilmente de seus sonhos, daquilo que te comove?

En Équilibre é um desse filmes que fazem questionar escolhas, além de apresentar personagem com deficiência, que não se rende ao coitadismo de jeito nenhum.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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