blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Unindo Gerações

Duas séries de animação, na Netflix, capazes de prender crianças e adultos.


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A cena de abertura d’O Vazio (2018) - que a Netflix anexou discretamente a seu catálogo, no começo de junho – é familiar a qualquer fã de cine de terror: três jovens acordam em local exótico, sem a menor noção do porquê estarem lá. Ademais, sequer se recordam de seu passado ou de seus próprios nomes.

Não se trata de série de horror, mas, de aventura em dez capítulos, capaz de prender a atenção até de adultos e totalmente maratonável, porque cada episódio dura pouco mais de vinte minutos.

O Vazio acerta em cheio na necessidade de aguçar a curiosidade, para raptar sua atenção e interesse, logo no primeiro capítulo. O trio é gostável, quase de imediato: Adam é o galã assertivo; Mira, a menina empoderada e de tiradas mordazes e Kai, o alívio cômico, medroso e desastrado, naquela tradição que mais maduros amam desde o Salsicha, de Scooby Doo ou Alex, de Josie e as Gatinhas.

Assim que saem do cubículo de pedra, os meninos descobrem que estão em um mundo perigoso e aloprado, com regras próprias e distintas mitologias. Mesmo sem se lembrarem de onde é, Adam, Mira e Kai querem voltar para casa, e como numa Caverna do Dragão do século XXI, iniciam perigosa perambulação por cenários bem variados, como naves espaciais, desertos, região polar, cidade dominada por aranhas mutantes e muito mais.

A produção canadense não deixa a bola cair em nenhum momento; sempre há novidade. Os guris vão descobrindo superpoderes que desconheciam possuir e encontram exótica galeria de personagens. Tem até o Weird Guy, que, como o Mestre dos Magos, atrapalha mais do que ajuda.

Como n’A Caverna do Dragão, há a dúvida: será que estão mortos e vagam por uma espécie de purgatório? Ou seria outra coisa? O defeito d’O Vazio é apontar para resposta uns três ou quatro episódios antes do final, aguando a revelação.

Aos adultos mais familiarizados com mundos de ficção-científica e horror trash, ainda sobra a diversão de detectar de onde os criadores da Slap Happy Cartoons tiraram suas referências, como o monstro verde babante, totalmente Alien, O Oitavo Passageiro.

O Vazio apresenta final fechado, embora haja espaço para temporada sequente.

O Príncipe-Dragão (2018), criado por Aaron Ehasz e Justin Richmond, soa como versão animada de Game Of Thrones. No episódio um, até se comenta que o inverno está chegando...numa hora dessas.

Que isso não desmotive fãs do sucesso da HBO, irados por plágio ou quem não vê graça em Daenerys Targaryen. Apesar das muitas semelhanças (inclusive uma platinada protegendo um ovo de dragão), O Príncipe-Dragão tem sua mitologia e não é cópia escarrada. Acontece que na cultura tudo se transcria: o autor de Game também não gerou a partir do nada.

Em um mundo profundamente dividido entre humanos e elfos, crianças e uma elfa com características albinas têm que preservar ovo de dragão, esperança de paz para aquele mundo cindido pelo ódio racial.

Com potencial para agradar tanto adultos mais lúdicos quanto piás mais graúdos, O Príncipe Dragão tem boa história, situações aderentes e cliffhangers que fisgam para o próximo episódio. Os vilões não se mostram imediatamente e são tão gostáveis quanto os mocinhos, no sentido de fazerem piadas, comentários irônicos. E, se você viu O Vazio e amou Kai, O Príncipe Dragão tem Callum, metralhadora de chistes infames.

Além de descolado, o roteiro ainda é inclusivo e multiétnico. Tem gente de tudo quanto é cor sem fazer diferença e uma general se comunica através da língua de sinais. Sem alarde, é o natural dela, então já basta.

Aaron Ehasz tem credenciais respeitadas pelo sucesso de público e crítica de Airbender e O Príncipe Dragão tem potencial para se transformar no novo Avatar, mas a Netflix é empresa e vive de lucro. Por isso, a primeira temporada é teste de apenas nove episódios. Frustra, porque dá muita vontade de mais. É torcer para que tenha audiência e gere outra, mais longa.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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