blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Dançabilidade a toda prova

Os três álbuns do Escort são pura alegria, cheios de referências a clássicos da dance music.


61899693_DATEBOOK_Escort1115-1024x722.jpg Dan Balis e Eugene Cho se conheceram numa universidade e desde o início do milênio lançavam singles no mercado underground de house, ou seja, começo de carreira/parceria bastante comum no mundo da dance music. Incomum foi reunirem um coletivo de mais de quinze pessoas para tocar ao vivo, como na época áurea das discotecas, na segunda metade dos 70’s. Numa época, quando qualquer som pode ser baixado da internet, o Escort cuidadosamente recria cada virada, cada barulhinho, cada sequência, cada maneirismo da era Studio 54, templo disco nova-iorquino, não por acaso, cidade onde o grupo está sediado. O Escort pode ser retrô, mas faz parte deuma cena eletrônica/dançável que deu ao mundo muito do que de mais moderno existe em beats & bites.

Já com sólida reputação de ser mortífera ao vivo, a banda estreou em LP com o autoproduzido, autolançado e homônimo álbum de 2011. Onze faixas muito funkeadas, mas, que provavelmente soarão longas demais aos não iniciados, pelas repetições, como na final Karawane, fatal com suas referências a Soul Makossa, mas meio cansativa se você não estiver dançando.

Chameleon, Chameleon tem teclado da época em que Afrika Bambaataa imperava influenciado por Tour de France, do Kraftwerk; Starlight tem teclado superelectrofunk, daqueles que Jocelyn Brown usaria no início dos 80’s; All Through the Night tem aquela guitarrinha apimentada que o INXS popularizaria nalgum de seus sucessos. Escort funciona assim: é o tipo de música consumida por público muito específico nos fins dos 70’s/começo dos 80’s e depois popularizada/diluída por grandes astros mainstream antenados no underground, tipo Madonna. Até a escolha das drogas é vintage: cocaína era a droga da moda na “década do eu”, então o que dizer de Cocaine Blues com sua vibe Andrea True Connection e os versos “cocaine running around my brain”. Perfeito para saudosistas de Odissey e similares.

Em novembro, de 2015, saiu o segundo álbum, que mantém o caráter retrô de disco setentista/eletrofunk oitentista, com Adeline Michèle divando nos vocais, mas a produção é mais polida e acessível, como se o combo quisesse fazer mais gente dançar. E que benvinda essa mainstreanização do som; Animal Nature é absolutamente delicioso e 100% aproveitável, pelo menos, a dezena de inéditas. Os nove remixes acrescentados são indicados para clubbers mais radicais.

A abertura Body Talk parece que foi gravada no auge da acid house em fins dos 80’s, mas tentando emular a sonoridade do começo da década; preste atenção ao piano e aos vocais. Parece que cada instrumento foi tirado de uma canção/convenção. Na pós-modernidade recriar significa literalmente criar com precisão cirúrgica; realidade virtual?

Como ficar quieto em If You Say So, com aquela batida Doobie Brothers, vocal Love Unlimited/Sister Sledge e teclado esparsamente frio? Animal Nature é funk sintetizado só possível após Giorgio Moroder, a quem paga tributo. My Life é puro Chic trabalhando com Diana Ross. Actor Out Of Work usa elementos de Japanese Boy (1981), sucesso trash da escocesa Aneka, que misturava Kate Bush com Blondie. Mas, não precisa caçar influências ou ser arqueólogo pop para curtir o Escort. Basta se jogar na impiedosa batida estroboscópico de Cabaret ou constatar como ao vivo o combo arrasa quarteirões, em Dancer.

A única mudança notável no Escort, de 2016 para cá, foi a adição da voz cristalina da fervida Nicki B, para alternar com a imperial Adeline Michéle, que embarcou em carreira-solo também. De resto, os produtores Eugene Cho e JKriv continuam fazendo Nu Disco impiedosamente dançante, juntando elementos de países como EUA, Brasil e Jamaica em colagens de tiques sônicos que vêm desde a disco setentista até à genérica “house music” atual.

Dia 12 de abril, saiu City Life, oito faixas puláveis e pulantes, além da razoavelmente longa introdução, que, com seus sons de comunicação via rádio sobre base bem percussiva, realmente prepara para a festa. A partir daí não há um segundo de refresco; é puro quebra-espinha.

A faixa-título é eletrofunk com baixo neurótico e a participação de Fonda Rae, diva das pistas alternativas de R’n’B dos anos 80. Outta My Head, além da referência até titular à Kylie Minogue, parece cavalgada dance com Blondie, Duran Duran e La Bouche (parte dos vocais é meio 90’s). O funk sapeca de Josephine é provavelmente o ponto alto para dançarinos compulsivos. Impossível ficar quieto. One Draw é reggaton sobre ficar chapadão.

Na trinca final de canções, as letras rareiam até desparecer, mas o clima pipocante não arrefece. Ride erige muralha sonora, que jamais soa pesada, devido às cordas, timbre dos teclados e vocais, além da flauta. Impressionante.

A derradeira canção, justamente por sê-lo, apontaria futuros caminhos ao Escort? O influxo de house e electronica caberia direitinho como bônus track de algum álbum do Orbital.

A despeito de tantas referências a antanho, o Escort está longe de ser revivalista sonhando com os “bons velhos tempos”. Seu inebriante coquetel de alegria contagiante é servido de forma muito contemporânea.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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