blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A discípula de prince cresce

Os dois álbuns de Judith Hill demonstram seu amadurecimento como compositora e, principalmente, vocalista


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Judith Hill excursionara com astros do porte de Michael Jackson, Elton John e Steve Wonder antes de cair nas graças de Prince e gravar com ele seu álbum de estreia, Back In Time (2015). Se o título já não deixasse claro o saudosismo, bastaria constatar que a faixa de abertura, As Trains Go By, abre chiada como pré-diluvianos discos de vinil. E olha que esse funk midtempo é a canção que mais elementos modernos tem! A faixa-título, que fecha o álbum, é meio 90’s e isso também é uma das épocas menos saudosistas da coleção. O restante é amálgama de funks anos 70, que podem ser midtempo, como My People ou Turn Up, ou de descadeirar, como Jammin In The Basement ou de incendiar a genitália como Wild Tonight.

Há o jazz sexy de Love Trip, que os fãs de Gal Costa perceberão pertencer à dinastia d’A História de Lili Braun, do Grande Circo Místico. Há blues com guitarra rebolante (Cry, Cry, Cry), retro-soul (Cure) e baladas: mais pesadas e trip-hoppadas, como Angel In The Dark ou leves com delicadeza de cordas e teclas, como Beautiful Life.

Tudo muito bem feito, com voz forte, participação de Prince em diversas canções, Back In Time não se aventura, mas entrega o que mais importa: boa música.

Embora a norte-americana não tenha parado de se apresentar/excursionar, não lançou nada durante três anos. Em entrevista, contou que a morte de seu mentor e amigo ainda lhe dói e foi um dos motivos pela ausência de lançamentos.

Dia 13 de novembro, de 2018, finalmente, saiu seu segundo álbum, Golden Child, que intercala canções de cunho pessoal com letras sobre a necessidade de união, nesse planeta tão cindido. Demonstrando amadurecimento como compositora, o que chama mais a atenção, porém, em termos técnicos, é a extrema elasticidade do vocal, que pode ir do cristalino gorjeio etéreo à Minnie Riperton, no urban soul de Chasing Rainbows à voz raspada à Janis Joplin, no blues-rock de I Can Only Love You By Fire. De uma faixa a outra, parece que há intérpretes distintas.

Sua Majestade Púrpura informa o funk de You Can’t Blame Me, desde os arranjos aos vocais e ao infeccioso riff. Não que seja cópia, é que Prince influencia meio mundo há décadas; não tem muita escapatória. A porção funk é deliciosa e conta ainda com grandes faixas como The Pepper Club e a setentista Gipsy Lover. Queen Of The Hill também é funkeada e é a produção mais contemporânea do álbum, com vocais altamente processados. Interessante será ver se/como a contemporaneidade finalmente atingirá seus próximos álbuns, posto que Golden Child é mais moderno que Back In Time.

Os tributos ao R’n’B são prestados com Hey Stranger e a balada-bluesy Irreplaceable Love. É com uma espécie de power-ballad oitentista, empoderada com coro gospel, que Hill fecha Golden Child: sonicamente, We Are One não tem a ver com o resto, mas o clamor por unidade resume tematicamente um trabalho que demonstra bem o crescimento de Judith Hill como compositora e intérprete.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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