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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A História feito novela

Duas séries documentais da Netflix, que mostram a História como sucessão de fatos e decisões novelísticas, que, se discutíveis em termos historiográficos, resultam em entretenimento digno de maratona.


Netflix-videoevent.jpg Não falta quem ache documentários entediantes, especialmente aqueles com as talking heads, cabecinhas falantes depondo. Documentários sobre nazismo então, que deprimentes, e, além do mais, que ângulo novo poderia ser abordado? O que dizer de um de dez episódios sobre o tema? Deve ser pileque propício para levar ao suicídio, certo?

Não, se for a dezena de capítulos de Hitler's Circle of Evil (2018), produção britânica, constante da Netflix. Desde a ascensão da sociedade urbana industrial, hibridizações não são novidade (embora os nazis não gostassem disso racialmente). Destarte, talvez seja correto afirmar que Hitler's Circle of Evil (HCOE) é uma docusoap, mescla de documentário com novelão anglicano (soap opera). Isso porque a história da ascensão e queda do 3º Reich é contada sob a ótica das intrigas de bastidores de seus seguidores-comparsas mais diretos, como Göring, Himmler, Hess, Goebbels e outros

Com o ponto de vista focado nas motivações, ambições, fraquezas, recalques, invejas, bajulações e autopromoções individuais para conseguir poder ou ficar perto de Hitler, HCOE consegue unir História com histórias de vida, criando um todo viciante como uma soap, porque há drogas, traições, homossexualidade, falsidade e pura demência paranoica, como quando Hess pilota um avião até a Escócia para apresentar um plano de paz para um lorde, com quem se encontrara apenas um vez.

A perspectiva de HCOE é que os nazistas não passavam de facínoras enganadores do povo alemão; então o programa morde e assopra. Conveniente, para boa parte da população alemã, que incendiava e linchava judeus e mais. Nos termos do programa, fazia isso ludibriada, e não porque estivesse predisposta pelas mesmas razões que elevaram à intimidade hitleriana seus compatriotas melhor conectados.

HCOE usa música incidental dramática e encenações, mas não dispensa o narrador, imagens de época e as talking heads. Essa combinação, aliada à novelização das histórias de vida, tornam HCOE totalmente maratonável, porque desperta curiosidade para saber o que vem.

Sabemos que a Alemanha perderá a guerra e que alguns deles se darão mal (há muito nazista jamais pego), mas como não sabemos dos lances privados do vaidoso Göring ou do fanático Goebbels (que tinha pernoca deficiente, mas perseguia outros deficientes), a narrativa fica muito interessante.

Nero e Calígula são personagens históricas infames devido às crueldades cometidas. Menos conhecido era Cômodo, filho do imperador-filósofo Marco Aurélio. Pode ser que o perturbado imperador tenha recebido mais destaque no filme Gladiador, onde erroneamente aparece como assassino de seu pai. Cômodo era sociopata, mas não chegou a matar Marco Aurélio, que morreu em Viena, num acampamento de guerra romano.

Mesmo sem ter parricídio em seu CV, Cômodo gritava por telebiografia, porque era totalmente paranoico, megalomaníaco e chegou a lutar como gladiador, função exercida por escravos. Cômodo era tão ególatra, que rebatizou Roma e os meses do ano com seus nomes. Além do mais, seu reinado – no fim do século II da era cristã – foi marcado por pestilência, desabastecimento de grãos e um grande incêndio em Roma, que na época possuía milhão de habitantes. Sem contar as tramoias para se apoderar do trono; num desses complôs, uma das irmãs de Cômodo se envolveu diretamente.

A Netflix percebeu o potencial de soap opera do reinado que vários apontam como o começo da queda do império romano e montou a docussérie Roma: Império de Sangue. Meia dúzia de capítulos que cruzam o formato de documentário com série, ou melhor, novelão mesmo, é tudo bem dramático. Atores representam momentos cruciais da vida do imperador e a ação é interrompida a todo momento com historiadores comentando. Algo como um Gladiador produzido pela ABC/NBC/CBS encontra o Discovery Channel. E com narração do machão Sean Bean (The Frankenstein Chronicles, Game Of Thrones).

Embora assistível, Roma: Império de Sangue tem diversos defeitos. Deixo para historiadores discutirem que o foco no individuo como centro da História, apague a própria noção de passagem de tempo e evite esmiuçar fatos importantes: Cômodo é creditado como pacificador das tribos germânicas mediante tratado de paz. Isso é citado tão de passagem e sem comentário, que pareceu a coisa mais fácil do mundo, considerando-se que a Germânia era um bocado de localidades autônomas, não um Estado. Além disso, um dos argumentos é que Cômodo não era maduro o bastante para assumir o trono. Mas, então, como conseguiu acertar um trado que nem seu experiente pai fora capaz? Dá para entender esses “esquecimentos”, porque Roma: Império de Sangue interessa-se pela História como novela, como reality show.

Embora a seleção dos fatos mais novelísticos tenha sido priorizada, o ritmo não é ágil quanto o pretendido. É tanto Cômodo na cama, se embebedando ou olhando pela janela do palácio, que, se editado, cortaria meio capítulo, no mínimo. Essa temporada poderia ter tido três, quatro episódios, sem perder nada. Pelo contrário, ficaria mais no ritmo Gladiator-Revenge que tanto quis alcançar.

Outro ponto discutível é a narração reiterativa, posto a maioria das informações serem repetidas pelas personagens ou historiadores.

Tirando isso, a docussérie mostra muito bem porque era facílimo ficar paranoico nas esferas do alto poder romano e não mostra Cômodo como demônio apenas cruel. Ele era um cara que queria mais curtir luta, álcool e sexo e fez isso com abandono, por vários anos, até perceber estar cercado por um bando de traidores. Daí, sim, o inferno abriu as portas.

A segunda temporada de Roma: Império de Sangue recebeu nome distinto, quando adicionado ao catálogo, mas se procurar pelo título citado, o assinante terá acesso igualmente.

Seus cinco capítulos resumem a trajetória de Júlio Cesar, um dos indivíduos mais influentes da história. Considerar herói o responsável por dezenas de milhares de mortes fica a critério de cada um, mas não dá para ignorar a história do sujeito que nomeou um mês.

Sanados os problemas de ritmo da temporada um, Júlio César tem menos historiadores interrompendo para dizer o que já estava sendo mostrado e menos cenas inúteis. Cheio de gente bonita e recriações de ruas romanas e sangrentos campos de batalha, Júlio César é muito agradável e atraente de se ver.

A terceira temporada é a mais sucinta: quatro episódios. Também a mais problemática, mesmo para historiadores não profissionais, como a maioria de nós.

Calígula: O Imperador Louco tem sido acusado de coisas terríveis, desde dormir com as três irmãs, nomear cavalo para alto cargo a comer testículos de inimigos derrotados. Que o imperador era desequilibrado e propenso a barbaridades, há consenso, mas, dá para crer em tudo?

O documentário acerta em resistir a mostrar todas as crueldades e sandices a ele atribuídas, mas, por outro lado, também não reitera com veemência que muito pode ter sido fabricado a posteriori.

Filho de importante general, Calígula teria experimentado infância de perseguição e injustiça, que lhe deixariam marcas indeléveis na personalidade. Seu reinado começa bem e promete ser de ouro empreendedor, mas, após síncope que o deixa em coma durante semanas, o imperador ressurge desequilibrado, paranoico, megalomaníaco. Assim, sua enfermidade é explicada como catalisadora de sua loucura, em gestão desde sua meninice. Isso explica, mas não simpatiza o monarca.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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