blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A Islândia é logo aqui

A TV islandesa ainda é muito desconhecida no Brasil, mas a Netflix possui duas séries de investigação criminal, que servem como ótima introdução.


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A dezena de capítulos da primeira temporada de Trapped (2015) marcou a entrada em grande estilo da Islândia na liga de geradoras de densas tramas Nordic Noir. E jogaram pesado: o idealizador é ninguém menos que o diretor de cinema mais famoso da ilha, Baltasar Kormákur, que tanto dirige filmes locais, como O Sobrevivente, mas também blockbusters, tipo Evereste. Ele não dirigiu a maioria dos episódios, mas seu prestigioso nome ajudou deveras.

No rigoroso inverno do norte islandês, numa aldeia no meio de lugar nenhum (para usar termos do roteiro), um ferry chega da Dinamarca e simultaneamente um torso esfaqueado é encontrado. Como o assassino pode estar no navio, todo mundo é confinado no vilarejo pesqueiro. Para piorar, uma tempestade de neve bloqueia as estradas, daí o título, algo como, Encurralado. Os passageiros, tripulação e locais estão isolados e com um assassino a solta. Mas, será que todo o mal veio de alhures ou a pasmaceira aldeã esconde rede de ruindade nervosa? Nem precisa ser experto em thriller psicológico para saber a resposta.

Trapped tem avalanche, incêndio, ganância, tráfico de mulheres, violência doméstica, vingança e efeitos da bancarrota do final da década passada, quando a Islândia faliu. O encurralamento não é apenas geográfico, mas também psicológico: é muita gente que não consegue escapar do passado, de relacionamentos viciados. O tom reservado dos escandinavos e a ambientação fazem de Trapped hipnótica bola de neve que cresce aos poucos e te acerta em cheio em sua incessante depressão. Dá frio psicológico em pleno calor tropical.

Encabeçando o elenco, Ólafur Darri Ólafsson, favorito de Kormákur, como o policial tristonho transferido da capital para o interior, por haver cometido erro. A cara do casmurro grandão, encapotado pelo cortante frio, conquista a simpatia logo.

A cidadezinha gelada que quer se inserir no mundo global, mas esconde neuroses mil fatalmente remete a Fortitude, tentativa britânica de Nordic Noir, também de 2015. Enquanto a aldeia polar planejava um hotel de/no gelo, em Trapped, há um porto que serviria para rota comercial China-EUA. O que Fortitude forçou a barra pra ser, Trapped é, sem esforço aparente. A série inglesa quis ser maluquete à Lynch/Cronemberg, mas jamais causa empatia, ao passo que em Trapped há muita doideira subjacente, mas sem tentativa de ostentar.

Em dezembro, a Netflix disponibilizou a terceira temporada de Réttur, série islandesa rebatizada como Case. Os nove episódios tratam de um caso apenas, ao contrário das duas temporadas iniciais, que eram mais dramas de tribunal e traziam casos distintos semanalmente, estas não disponíveis.

Elogiada pela imprensa e sites descolados do antigo primeiro mundo, Case foi dirigida por Baldvin Z, um dos codiretores da excelente e mais endinheirada Trapped, também presente na nossa crescente Netflix não-falada em inglês.

A modéstia orçamentária de Case torna-a predominantemente filmada em interiores e os crimes são fora de nossa visão. A produção adota tom semidocumental, com imagens e representações mais cruas, menos estilizadas/fetichizadas. A detetive está longe de ter o cabelão de estrela nórdica de Saga Norén ou o notável marcador de personalidade que é o suéter nacionalista de Sara Lund. Gabriela é totalmente cotidiana, pedestre. Nem seus dilemas pessoais tornam-na pesada; até aprendemos que tem problemas com a irmã, mas qual de nós não os possui? Em momento algum, interferem na investigação ou em sua personalidade. Pelo contrário.

Tudo começa, quando promissora bailarina adolescente é encontrada pendurada numa viga do palco do teatro nacional na capital islandesa. Suicídio, por certo, mas logo Gabriela e seu parceiro percebem que há algo sinistro ocorrendo com muitas garotas em Reykjavík. Como a polícia não encontra nada que justifique investigação, um advogado muito problemático, beberrão e sem moral acima dos que investiga, sai buscando informações. Isso abrirá o fosso do submundo das drogas, prostituição e violência contra a mulher da “pacata” Islândia. Para quem idealiza a Escandinávia, uma informação: os níveis de violência de parceiros contra mulheres é desproporcional à quantidade de direitos à disposição delas. Esse fenômeno tem até nome, The Nordic Paradox, porque cerca de 30% das norueguesas com parceiro, por exemplo, já foram agredidas.

Chama a atenção em Case, o modo como a exposição das personagens e fatos não é tão pesada, explícita e forçada como em seus congêneres atuais, que fazem coisas quase tipo “oi, sou João da Silva, amigo íntimo do pai da vítima e tenho um grande segredo”, a ser reafirmado, se possível, mais de uma vez no episódio inicial. Sendo série lenta, apoiada em diálogos e sem mirabolâncias orçamentárias, Case pode afastar espectadores mais desatentos ou que querem a facilitação das ligações/implicações, para poderem mexer no celular, enquanto ouvem. Isso não quer dizer perfeição formal ou inovação, há momentos em que as transições simplesmente acontecem do nada e é curioso aceitar que alguém com culpa no cartório respondesse ás perguntas do advogado Logi, se nem autoridade policial ele tinha.

Pode incomodar também a desinibição escandinava de mostrar adolescentes em situação de abuso de drogas ou sexo. Não que haja orgias explícitas, mas uma teen drogada cavalgando um tiozão não é comum em produções anglo-americanas.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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