blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A nova mpb por um tris

Flávio Tris desenvolve trabalho excelente, que disponibiliza grátis, em seu site.


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Trabalho excelente da safra atual é o do compositor e multi-instrumentista Flávio Tris, que, felizmente, abandonou a advocacia para se dedicar em tempo integral à música. Há uma década fazendo trilhas-sonoras e espetáculos, o paulistano lançou EP independente, em 2011. Cinco faixas compostas por Tris e executadas por ele, mais Tchelo Nunes, Maurício Maas e Gianni Dias, participando na guitarra da canção Pra Ver a Voz. As instrumentações são densas, com violino, harmônio (espécie de órgão), acordeão e percuteria.

A hibridez de subgêneros é um dos traços característicos da sigla MPB, criada pelos fins dos anos 1960 para dar conta, dentre outras coisas, da acelerada fusão de ritmos, estilos e influências na música popular feita por aqui, a partir da geleia geral tropicalista e da fusão bem mais subcutânea do pessoal do Clube da Esquina. Flávio funde estilos diversos, mas sem chegar à contemporaneidade hip-hop ou electro. Claro que não seria defeito se o fizesse. Alento Noturno abre só no violão, para se transformar em tango seresteiro valsificado. Asa de São Joao inicia com “quando olhei...”, como sua ancestral Asa Branca. E quem disse que fãs de Belle and Sebastian também não podem amar a pegada de violão bem semelhante à de If You’re Feeling Sinister? Escócia do baião! Em Pra Ver a Voz, a guitarra, que em sua maior parte segue acobertada pelo violão, rebela-se bem no finalzinho, quase ensaiando um noise básico.

A hipnótica Brisa Boa, Vento Leste é a única que não aparecerá no primeiro álbum de Flávio, mas o EP não é obrigatório só por isso. Mesmo as repetidas mais tarde, virão com arranjos diferentes. Em 2013, saiu a estreia em álbum homônimo, com nove inéditas, além de quatro constantes do EP. Nestas últimas, não dá para dizer que são melhores ou piores; estão diferentes: Pra Ver a Voz ficou mais djavaneada; Alento Noturno tem cantar um bocadinho menos enfático e por aí vai. Qualquer colecionador (e Flávio merece ser colecionado) quererá ambas versões.

Nas inéditas, só material bom, como a faixa de abertura, com seus violões de madrigal e flautas misteriosas. Selva sassarica maliciosamente num clima jazzy anos 1920. No bolero Sejas Tu, o sotaque de classe-média paulistana de Tris encontra o de Tulipa Ruiz. Este álbum tem uns balanços bons, tipo De Manhã com seu funk jazzificado e a marchinha final, Tudo, que acaba ligando Tris a seus coetâneos Pitanga em Pé de Amora. Os “efeitos sonoros” como pássaros cantando e macacos na xotosa Pandora e o clima épico de música de Festival sessentista suavizar-se-ão deveras no trabalho seguinte.

Entre 19 e 22 de dezembro, de 2016, Tris gravou Sol Velho Lua Nova, lançado em 2017, e que representou bombástica novidade silenciosa. Despindo os arranjos ao mínimo necessário, sua poesia por vezes rosiana e voz quente à Dori Caymmi sobressaem-se em nove faixas de calma e/ou mistério. O EP e o álbum primeiro são ótimos, mas faixas como a título, por exemplo, possuem aura de delicadeza até então inédita em sua carreira.

Não que seja álbum de, mas na pátria da bossa nova, Tris parece mais ligado a ela nesse trabalho, como mostra a primeira parte de Quinze Mil Eras, que também serve de exemplo para dizer que o fato de Sol Velho Lua Nova ser mais minimalista e centrado na voz e violão, não significa que seja “música de barzinho”, em sua acepção mais breguinha. Há outra instrumentação e efeitos sonoros, no caso, chuva em Quinze Mil. O que ocorre é que o violão toma o centro e em seguida algum outro instrumento o acompanha. Difícil ouvir o louvor Terra Terra e não catalogá-la como canção-irmã daquela de Caetano, mas sem ser cópia. Em In Silence, o cantor-compositor adentra terreno folk sessentista; soa como se a qualquer segundo a gaita de Bob Dylan vá entrar. As influências afoxentas nordestinas ainda informam Flávio, como em Okiri ou Uma Canção, mas é tudo mais minimalista; às vezes primeiramente sinalizado no cantar, antes do que na esparsa instrumentação.

Inacessibilidade para ouvir essa maravilha não é desculpa, porque a excelente discografia de Flávio Tris sai de graça em seu site.

http://flaviotris.com/


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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