blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A pedagogia de Doolitle

Completando trinta anos, o segundo álbum do Pixies continua influente e fundamental.


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Alguns (poucos) álbuns atingem status de cartilha, servindo de guias de aprendizagem para repetidas gerações. Em abril, de 1989, os norte-americanos Pixies lançaram Doolitle, parte do beabá grunge e outros movimentos rock até hoje. Dá para imaginar a sonoridade do Nirvana sem Doolitle? Ouça Gouge Away.

Em dezembro, de 2014, para comemorar o jubileu de prata do álbum, a 4AD lançou edição comemorativa intitulada Doolitle 25, constante de três CDs: um com o álbum original e os outros com demos, lados B, sessões de rádio.

As quinze faixas originais ainda são tão excitantes como quando surgiram. Doolitle tem a capacidade de ir do fofo ao grotesco, do sussurro ao urro (um contém o outro, como nos ensina a palavra), às vezes, na mesma faixa, como em Tame.

Punk, funk, reggae, surf rock, pop e mais tantas referências presentes num trabalho que só pode ser surrealista; Black Francis cita Cão Andaluz de Luis Buñuel na letra de Debaser, que abre o álbum com baixo gordo gótico e guitarras que seriam marca-registrada daquelas bandas inglesas do começo dos anos 90, tipo Ride e Lush. Isso posto, não adianta muito tentar decodificar as letras, vejam o caso de Wave of Mutilation, onde o sujeito parece se afogar após dirigir para dentro do oceano, mas ressurge numa onda de mutilação.

Para os que nunca ouviram, tantas referências sônicas e obscuridade nas letras podem dar ideia de hermetismo. Não. Tente Crackity Jones, que parece trilha para filme de Quentin Tarantino, antes desse diretor efetivamente começar a fazer cine.

Doolitle é instrutivo, porque tem esse caráter de combinar inúmeros elementos e sintetizá-los em aparente simplicidade e fluência rock.

O CD 2 vem com extrações das Peel Sessions, programa do influente radialista inglês John Peel. treze faixas provam que os Pixies mantinham boa qualidade fora do estúdio. There Goes My Gun dá vontade que a versão de estúdio também tivesse guitarras um pouco mais alucinadas. Manta Ray vem em duas versões, que trazem diferenças perceptíveis para não-especialistas e mostra que Black Francis tem pulmões do diabo para gritar, embora em Tame, só no estúdio mesmoa para aquela descarga de urros. As duas versões de Into the White com os vocais mortiços de Kim Deal são grandes dicas para a moçada grunge e shoegazer.

O disco terceiro traz demos (às vezes, mais de uma) de todas as canções, mais alguns lados B. Embora nenhuma demo mereça tomar o lugar das faixas do Doolitle oficial, vale ouvi-las para conhecer os rascunhos da Caminho Suave dos Pixies e perceber como tinham muito boa noção do que queriam sonicamente e também como um bom produtor faz diferença numa gravação.

No quesito lado B, a criatividade pixiana estava tão em alta que se deram ao luxo de deixar algo tão bom quanto My Manta Ray Is All Right fora da tracklist oficial. Ou seria o caso de perguntar, por que a faixa não tomou o lugar de inferiores, tipo La La Love You ou No. 13, Baby?

Que as futuras gerações continuem sua educação musical com esse grande material didático.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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