blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

abrindo fronteiras televisivas

A Península Balcânica é colcha de retalhos, que de vez em quando pega fogo. A televisão de seus vários pequenos países não é muito conhecida por aqui, por isso é animador e salutar voltar os olhos para duas produções presentes em serviços de streaming, no Brasil.


pod_prikritie-001-157205-810x0.png A Bulgária é um dos degraus mais baixos da UE. Com altas taxas de emigração e corrupção, o ex-país comunista é cenário mais que adequado para uma boa série de gangsteres. A Televisão Nacional da Bulgária produziu cinco temporadas de dúzia de episódios cada, de Undercover (2011-16), ora no catálogo brasileiro da Amazon, em versão dublada.

Em seus sessenta episódios, Undercover mostra um policial infiltrado na quadrilha mafiosa mais importante de Sofia, liderada pelo fã de ópera Petar Tudzharov, o Dzaro. Aos poucos descobrimos que seu perseguidor implacável, o Comissário Emil Popov, tem razões muito pessoais para odiá-lo. Essa porosidade da fronteira entre o pessoal e o professional perpassa parte da trama em todas as temporadas. Empregos na polícia viram obsessões pessoais. Há horas que parece que os bandidos são mais profissionais, porque seguem seu objetivo empreendedor que é basicamente, lucrar, como o de qualquer empresa.

Declaradamente inspirada pelo filme Os Infiltrados (2006), de Martin Scorcese, Undercover deve muito também à obra de Quentin Tarantino (aquela musiquinha com guitarra surf-rock é pura tarantinice) e a séries como Sopranos (o Gancho é totalmente Frank Tagliano). Isso não desmerece a produção, cujos roteiros supostamente baseados em casos policiais reais da Bulgária, são absorventes, cheios de ação e só cansam um pouco na derradeira temporada, devido a um par de escolhas questionáveis. Por que fazer aquilo por tantos episódios com a personagem tão importante de Popov?

Undercover existe num universo eminentemente masculino, que para padrões anglo-europeus e até de outros países, chega a ser chauvinista. Mulheres são estúpidas dondocas, objetos para prazer e violência e intercambiáveis até na aparência. Na quinta temporada, há desastrada tentativa de regeneração. A policial-psicóloga é ridicularizada e hostilizada por seus colegas da polícia, de modo inacreditável até para nós latinos, tão machistas. Ou, talvez, porque estejamos mais acostumados a ver produções de países onde fazer esse tipo de representação despertaria fúrias tempestivas.

Quem teme por produção empobrecida por ser de país sem tradição televisiva para nós, engana-se. Ao longo das temporadas, há explosões, perseguições, tudo muito bem feito. Undercover prende e tem final que você não espera

O Jornal é primeira série da Croácia comprada pela Netflix. A temporada inicial consiste em dúzia de capítulos, numa trama que mostra a encruzilhada em que se encontra o fictício jornal Novine (nome original da série), quando é adquirido por inescrupuloso capo da construção civil. Mario Kardum nada entende e nem se importa com ética jornalística, e só quer usar o diário para atacar seus desafetos, dentre os quais o prefeito Ludvig Tomasevic, moralista sem moral presidenciável. The Paper vai na toada “político nenhum presta” e concorda com Frank Underwood, que na temporada inicial de House Of Cards, afirmou que poder é mais importante que dinheiro.

Os onze episódios da segunda temporada são exemplares perfeitos de como podemos perceber similitudes com locais que cremos, por vezes, tão distintos do nosso. Situada temporalmente nos quinze dias anteriores à eleição presidencial, Novine 2 mostra a luta aguerrida entre o extremista de direita Tomasevic e a presidenta de esquerda tentando reeleição. Em meio à campanha recheada de atentados e golpes baixos, não se distingue diferença real entre os dois.

O Jornal poderia ser mais enxuta e ágil. Em seu passo detalhista e reiterativo, espantará espectadores menos pacientes. Não precisava ser alucinada feito Scandal, mas daria para contar cada temporada em meia dúzia de capítulos, caso dispensasse cenas supérfluas e longas, como cruzamento de túneis, estendidas miradas para o nada e um sem número de cenas que não acrescentam à história. O roteiro preocupou-se tanto em dar destinos, backgrounds e explicações sobre todos, que há muitas desnecessidades. A personagem Dijana Mitrovic é exemplo típico da falha de Novine: no começo da temporada inicial, assume-se que terá muita importância, mas, quase nada faz.

Outro defeito d’O Jornal é que ficamos confusos com personagens demais, meio indistintos, vários sem função ou que poderiam aparecer bem menos, que mais falam do que fazem. O vilão Mario Kardum é exemplar: além de esbravejar, não vemos mostra de seu tão decantado poder, talvez no fundo porque o roteiro insista que dinheiro e poder não são o mesmo. Mas, mesmo assim, Mario só esbraveja e fala grosso com sua editora-fantoche no jornal. Também fica claro que é dominado pela mãe, mas toda vez em que contracenam, ele a contradiz e faz o que quer.

Defeito toda série possui. O Jornal é bem assistível, para espectadores pacientes. Há que celebrar acesso a obras de países menos centrais. A possibilidade de conhecer atores, ruas de cidades que jamais visitaremos e outros modos e ritmos de contar histórias são apenas alguns dos fatores a serem comemorados, além de reconhecer similaridades e diferenças entre a nossa cultura e a de nações que não conhecemos direito, devido à ênfase em produções norte-americanas.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 8/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberto Bíscaro