blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Adrenalina israelense

A Netflix tem duas séries que farão fãs de suspense roer as unhas.


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Em 2016, o articulista Brian Boyd, do The Irish Times, escreveu que Israel era a nova Dinamarca, quando se tratava de séries excitantes. O país escandinavo fora a locomotiva da invasão de shows estrangeiras na TV britânica, depois do sucesso da legendada Forbrydelsen. Suécia, Itália, Noruega, Islândia, Bélgica já tiveram produções cultuadas por uma geração, que meio ironicamente, Boyd diz passar as noites de sábado em frente à TV, com seu Chardonnay, sentindo-se especial, porque lê legenda.

Sem entrar no mérito da gratuidade da farpa, o jornalista escrevia sobre Hostages, série israelense, então exibida pela BBC4. É certo que o pequenino país asiático tem oferecido excelentes produtos, que os norte-americanos não param de adaptar, como In Treatment, Homeland e a própria Hostages. Esse encanto novo da nuvem cultural gafanhota pela nação judia é que levou Boyd a sugerir a troca da Dinamarca por Israel.

As duas temporadas de Hostages – disponíveis até dubladas na Netflix brasileira – perfazem vinte e dois episódios e aconselha-lhe que sejam vistas em período possível para maratonas.

A competente, competitiva e linda Dra. Yael Danon está prestes a atingir o cume da carreira: no dia seguinte operará ninguém menos que o amado Primeiro-Ministro Shmuel Netzer, mas na véspera, encapuzados invadem sua casa e mantém a família refém (hostage, em inglês). A exigência é que a médica mate o político na mesa de cirurgia. Como ela precisa de liberdade para ir e vir, a fim de não levantar suspeita e, óbvio, poder operar, Hostages não é de longe um drama estático. Além disso, segredos emergem; relacionamentos entre os sequestradores e entre estes e os reféns se desenrolam, tornando a série muito dinâmica. A segunda temporada é outra situação de cerco entre polícia e reféns, decorrente das ações da primeira, mas não com todas as personagens.

Hostages é como um longo longa-metragem de horas e horas, porque realmente entendemos algumas das motivações apenas no decorrer da segunda temporada. Ao contrário de tantos filmes e séries, como Fauda, Hostages não aborda a problemática relação entre árabes e judeus; tudo se passa em Jerusalém, mas as motivações são mais pessoais do que políticas. É ótimo ver abordagens do conflito étnico entre árabes e judeus, mas também é salutar termos noção de que a cultura israelense não apenas vive e respira isso. Hostages é problema intrajudeus.

A dimensão pessoal preponderando foi escolha sábia do roteiro, porque Hostages é thriller para diversão e não elucubração. São revelações e reviravoltas mirabolantes para quem está atrás de emoções, sem se importar se a trama é plausível. Viciante, há repetidas corridas contra o relógio, especialmente na eletrizante segunda temporada.

Infelizmente, Israel é mais afamado pela perene e sangrenta luta contra palestinos. De 2015, a dúzia de capítulos da primeira temporada de Fauda acresce material ficcional de qualidade às narrativas sobre o conflito.

Doron é ex-agente de um grupo da elite antiterrorista israelense convidado a se desaposentar para eliminar de vez Abu Ahmed, líder do Hamas que se acreditava morto por Doron, só que não. Típico de série, Doron faz doce no começo, mas assim que aceita, tudo e todos a seu redor e de Ahmed envolvem-se, numa espiral de violência e caos (fauda em árabe). Tem mulher-bomba, criança como mercadoria de troca em sequestro, traição; infidelidade conjugal, em suspense crescente a cada episódio, atingindo clímax de roer unha no derradeiro, que deixa uma deixa perversa, perigosa e fanática para a confirmada segunda temporada.

Fauda usa os elementos convencionais de thriller político/de espionagem em um ambiente propício para ambivalências. Árabes e judeus estão grudados – para nós estrangeiros nem dá para distinguir – e mesmo dentre os grupos há rachaduras. Claro que sendo israelense, vemos mais as cisões no lado árabe, mas estes não são representados como animais selvagens sem motivação ou “amor”. Nem os judeus são ungidos sem defeitos. Em Israel houve quem reclamasse disso. No caso do Brasil, há quem reclamará que a dublagem da Netflix apenas do hebraico sub-repticiamente traz o espectador para o lado judeu, afinal o árabe falando sua língua com legenda soa como “o outro”.

Conhecendo melhor Doron, difícil mesmo negar que a empatia fique com ele, até porque algumas atitudes do lado árabe não são nossas escolhas primeiras como ocidentais. Temos mais a ver com o lado israelense na informalidade das relações, na postura perante a mulher, até na tolerância com um baseadinho. Mas a série é sob o ponto de vista israelense, isso nunca pode ser olvidado. Com um elencaço em ambos os lados – que ingrato fazer os papéis de Abu Ahmed e Walid, mas os atores conseguem projetar mais do que máquinas de vingança e fanatismo – Fauda prende a atenção não apenas pela trama eficiente, mas pela locação tão distinta das séries anglo-americanas/europeias. Também é muito legal perceber diferenças culturais tipo, como aqueles homens se tocam/beijam ao passo que as mulheres, não! Tão diferente da distância masculina nas séries ianques ou nórdicas. É bom sair do circuito das séries norte-americanas de quando em vez para olhar o distinto. Aprender que quando alguém morre por Alá é chamado de shahid (mártir). Infelizmente, vivemos num mundo onde isso existe, por que não saber? Se essas informações e olhares sobre o diferente vêm numa série absorvente, melhor.

A dúzia de capítulos da temporada dois repete a estrutura de seus antecessores: Doron está sossegado em seu canto, quando é impelido a intervir com o serviço secreto, para caçar perigosos terroristas árabes, que ameaçam Israel e sua família. Começa meio lento, mas quando engata, pega fogo.

A Netflix repetiu o tratamento dado à temporada primeira: falas dos israelenses dubladas, mas não a dos árabes, contribuindo pra que nos identifiquemos mais com os primeiros, porque os “entendemos”.

O problema com essa vinda de Fauda é que qualquer verniz de entendimento de ambos os lados foi definitivamente solapado. Árabes estão divididos em facções rivais que se odeiam; são inflexíveis fundamentalistas religiosos e suas mortes (abundantes) não recebem quase qualquer tipo de consternação diegética, como acontece se um israelense simplesmente leva um tropeção.

Destarte, recomenda-se cautela redobrada ao definir como “realismo” o que se vê. Na verdade, vemos a história contada pelo ponto de vista do país produtor de Fauda. Atentando-se para isso, continua entretendo.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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