blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

deliciosos folhetins abreviados

A Espanha vem roubando a cena na Netflix, com suas séries que capricham no drama, como essas quatro.


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O estouro mundial de Downton Abbey redobrou o interesse por séries ambientadas no passado, conhecidas como “de época” (como se todas não pertencessem a alguma). Em 2011, a Antena 3 lançou seu equivalente à produção britânica. As três temporadas de Gran Hotel (2011-13) não são cópia, mas apresentam certa similaridade na dinâmica de intercruzamento das relações entre patrões e empregados, embora a produção espanhola não se interesse além daqueles três ou quatro funcionários diretamente ligados ao clã Alarcón. Como Downton, a trama se passa nos anos iniciais do século XX, quando a mão-de-obra doméstica podia ser comprada a preços módicos. Por isso, serviçais não faltavam e submetiam-se a condições pesadas de trabalho.

Gran Hotel, entretanto, não está interessada em denúncias sociais: sua chave é declaradamente folhetinesca. E é novelão às antigas, com coisas acontecendo o tempo todo. Nesse quesito, inclusive, sai-se melhor que Downton, que tem momentos sonolentos, devido à pretensão de ascender do modo novela.

Tudo começa, quando Júlio Olmedo chega ao luxuoso hotel para desvendar o sumiço de sua irmã Cristina, que lá trabalhava como criada. A partir daí, o motor do drama acelera e inicia-se sucessão de acontecimentos, que precisam ser aceitos dentro das convenções rocambolescas, porque Gran Hotel é puro escapismo sem compromisso com realismo. Tem assassino em série; muitas bofetadas; visita de Harry Houdini; de jovem inglesa aspirante a escritora policial, chamada Agatha; duelo; vingança; vilões (para quem amou La Casa de Papel, o psicótico Berlim é malévolo aqui também) e romance.

O hotel é vasto, mas sempre quem necessita determinada informação está próximo para ouvir a conversa adequada para isso. Por outro lado, Júlio e Alicia conseguem esconder seu romance por duas temporadas e meia, esgueirando-se por corredores, convenientemente desertos. Há um quarto secreto, que tem janela para o lado frontal da construção. A lista de absurdos é vasta, mas a produção é tão caprichada e a sucessão de eventos tão bem engendrada, que fãs de folhetim não terão do que reclamar.

No mais de meio século que demorou a construção da Igreja de Santa Maria do Mar, em Barcelona, a ascendente burguesia catalã desempenhou papel importante como financiadora e incentivadora. Como a catedral foi erigida no século 14, dá para usá-la como símbolo da subida de uma classe social e começo do ocaso de outra, a nobreza. Os oito episódios de A Catedral do Mar (2018) ainda fazem o trabalho iniciado há séculos: pintar os nobres como vilões sem coração, prontos a exercer seus privilégios nos inocentes campesinos ou pobres urbanos.

Ser no século XIV também assegura tragédia à mancheia, porque tem Peste Negra e Inquisição, mas também exemplos de ascensão trabalhadora. Tudo começa, quando os pais de Arnau Estanyol têm que fugir do campo, devido às perseguições de seu senhor feudal. Instalado na então independente Barcelona, assistimos à atormentada trajetória de Arnau, da lama ao lamê, quase de volta à lama e com final feliz (para ele). Ou vocês acham que numa série-novelão seria diferente? O lance d’A Catedral do Mar é assistir, ciente de que o contexto é pano de fundo para dramalhão, que sempre beira o exagero.

Se você curte novela mexicana, sofrimento, regeneração, redenção, exagero, gostará. Cheia de arbitrariedades no roteiro e de comportamentos anacrônicos para o século XIV, A Catedral do Mar é para passar o tempo, vendo gente pobre e maltrapilha, com cabelos lindos e dentes perfeitos; supostamente desnutridos com corpão e submetidos a trabalhos desgastantes, com cútis de propaganda de leite d’aveia.

É muito legal, porque tem música bem dramática, com interpretações idem. Adultério, traições e cenas de louvor à Virgem Maria numa produção muito bem feita, exceto por derrapadas na iluminação.

Maria Dueñas conseguiu êxito literário ao misturar personagens fictícias com reais em seu alentado livro Tempo Entre Costuras (2009). Gente de verdade, como Rosalinda Fox e Juan Luis Beigbeder, servem de trampolim, justificativa e muleta para uma personagem fictícia brilhar. O canal Antena 3 adaptou a obra, em 2013, e os dezessete episódios estão na Netflix.

No final da década de 1930/início dos ‘40’s, Sira Quiroga, madrilenha humilde, enfrenta dificuldades, se muda para o Marrocos com bofe aproveitador e, depois de (sub)traída, se reinventa como modista de luxo e vira espiã, auxiliando os britânicos contra os sinistros alemães, que queriam forçar a Espanha franquista a entrar em guerra.

A Netflix deve ter feito reengenharia nos capítulos, porque lembro de um resenhista espanhol reclamando dos usuais setenta minutos médios de cada episódio, como é o costume lá. Aqui, felizmente estão com duração de quarenta e poucos.

Tempo Entre Costuras funcionará muito bem para amantes de novelões europeus, lentos e convencionais. Tem encontro com pai desconhecido e a clássica trama folhetinesca da gata borralheira, que vai da lama ao lamê.

O roteiro carecia de um bocadinho mais de interesse nos primeiros capítulos, antes da fase glam, com personagens que nada contribuem, como aquela gente chata da pensão marroquina e a biba que só existe para justificar Sira.

Quando Quiroga vira costureira de sucesso entre grã-finas, tudo melhora. Entra muita piteira, turbante e modelões, que a atriz Adriana Ugarte sabe manejar com maestria caruda. Ela é um sonho glam de idealizados anos dourados. Se você acha que Sira Quiroga já é meio chique, que tal Arish Agoriuq, nome adotado quando espiã? Puro exotismo.

A Guerra do Rife, também chamada de Segunda Guerra Marroquina, ocorreu de 1920 a 26 entre a Espanha e forças marroquinas das tribos rifenhas e Jebala. Esse é o pano de fundo para a simpática bondade das damas-enfermeiras protagonistas de Tempos de Guerra. A Rainha em pessoa encarrega uma duquesa de montar corpo de enfermeiras entre moças privilegiadas de Madri para servirem em um hospital em Melilha, cidade marroquina, que ainda hoje pertence à Espanha. Enfrentando realidade tão dura e adversa como a guerra, essas mulheres tornar-se-ão pró-ativas, ficarão mais experientes e bem menos frescas; terão preconceitos derrubados e quererão ser felizes, acima de tudo, independentemente da opinião e pressão alheias. A trezena de episódios de Tempos de Guerra é pura novela global de época, das 18:00, com uma ou outra ceninha mais sangrenta, porque, afinal, há uma guerra rolando. Mas, prevalecem os dramas individuais de algumas das enfermeiras, não de todas que embarcam. Isso por questões de tempo diegético, mas também, porque quando precisa matar alguma, que não seja nenhuma daquelas com as quais nos importamos. A noção geral é de que a guerra é ruim a todos e um dia terminará e a escolha de Melilha nos anos 20 é mais para dar aspecto de “época” e cor local a essa fantasia.

Nada disso desmerece Tempos de Guerra. Para quem curte um bom novelão para esquecer dos problemas do dia-a-dia, é ótima pedida. Tem tudo que um folhetim requer: amores (aparentemente impossíveis); irmã malvada; alívios cômicos; mãe megera e até penhasco que aparece volta e meia para nos lembrarmos dele e alguma resolução não parecer arbitrária demais, quando for usado para despencar alguém. Como há uma guerra, pode ser que uma hora ou outra o cenário seja destruído por uma bomba para ficarmos roendo as unhas por quem morreu. Pena que o fim seja aquém das expectativas, precipitado, reticente até. Como não se anunciou segunda temporada, faltaram destinos mais explicativos para cada personagem.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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