blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

dura lex sed lex

Duas séries ficcionalizam casos judiciais distantes de nós, geográfica, cultural e/ou temporalmente.


justice-netflix-2-1000x620.jpg O mundo árabe é composto por mais de duas dezenas de países, populados por centenas de milhões, com vivências que vão do cosmopolitismo afluente e high-tech de Dubai, ao isolamento faminto do Sudão. São experiências radicalmente distintas e ainda assim, de forma geral, a percepção sobre os países muçulmanos é de celeiro de terroristas, cegados pelo fundamentalismo religioso e mergulhados numa sociedade tão rígida, que não deve poder acontecer nada, senão o sujeito toma chibatada. Não comparamos Paraguai com Dinamarca, mas cremos que “turco” é tudo a mesma coisa (africano também, “japonês” também....).

A adição dos dezoito episódios da primeira temporada de Justiça (2017) ao catálogo da Netflix é bem-vinda lufada de vento quente do deserto dos Emirados Árabes Unidos. Ambientada no privilegiado mundo da classe alta de Abu Dhabi, o show é drama de tribunal, que contou com a colaboração do departamento de justiça do emirado, que abriu seus arquivos de casos para os produtores basearem as histórias. Nomes importantes da TV norte-americana estão por trás da criação da série, cuja produção é suntuosa.

Há fio condutor e unificador que é a filha de um famoso advogado, que retorna dos EUA, após se formar em direito. Ao invés de se juntar à firma do pai, Farah segue seu caminho. Isso tem bem pouco impacto; o que se destacam em Justiça são os casos. Poder-se-ia alegar que a família de Farah é liberal e boazinha demais com os filhos, que fazem o que bem entendem. Mas, daí, teríamos que lembrar que se acreditarmos que a sociedade norte-americana é igual àquela que vemos em suas séries, então, tratar-se-ia de lócus ideal, integrado racial e sexualmente.

O fascínio de Justiça vem dos casos e do olhar que nos permite em cultura tão nossa desconhecida. Sem júri, os casos são decididos por um juiz e envolvem abuso de menores, tráfico de droga, bullying, malandragem da grossa, enfim, Abu Dhabi enfrenta muitos dos mesmos problemas que nós; Alá não cria um oásis tão rigidamente controlado e a ponto de não haver transgressão. Só que isso acontece numa sociedade poligâmica, por exemplo, então é muito diferente para nós ocidentais ouvirmos que o acusado X se divorciou da segunda esposa, mas essa é concomitante a uma primeira e não subsequente, como estamos acostumados.

Acostumados a representações de árabes cobertos até os olhos (as mulheres, especialmente), atiça a curiosidade de pesquisar, quando se vê jovens com camiseta do Batman ou mulheres sem cobrir a cabeça, mesmo em público. Não todas e nem em todas as situações, mas fica claro que há muito mais sutileza nos códigos do que se supõe.

Obviamente, não podemos tomar o apresentado como modo fiel de como vivem e pensam os cidadãos de Abu Dhabi, senão incorreríamos no erro de imaginar que os EUA são paraíso integracionista à Will and Grace. Mas, como exposição de fatias de vidas e casos de direito, Justiça é muito eficiente e absorvente.

No final do século XVIII, pouquíssima gente podia pagar advogado de defesa, quando seus casos iam para o Old Bailey, o Central Criminal Court. E mesmo quem podia, se via em maus lençóis, caso fosse o acusado. Não havia presunção de inocência, as testemunhas eram chamadas apenas para declarar sobre o caráter dos envolvidos e não havia todas as acrobacias discursivas, como as conhecemos hoje, através de tantos filmes e séries de tribunal.

Um dos genitores do moderno sistema legal anglo-norte-americano foi William Garrow (1760-1840), agressivo advogado, que ficou décadas esquecido, até ser resgatado no final do século passado. Entre 2009-11, a BBC produziu três curtas temporadas de Garrow’s Law, perfazendo dúzia de episódios.

A cada episódio, Garrow e seu mentor John Southouse defendem um oprimido, que não teria a menor chance de defesa, não fosse pelos dois advogados precursores e criadores de precedentes legais. A tarefa da defesa e das piruetas discursivas sempre recaía em Garrow, para achar soluções possíveis para os casos, retirados dos arquivos do Old Bailey da época. Não que de verdade ele tenha defendido todos os casos apresentados, mas isso não importa.

Garrow’s Law agrada em cheio quem aprecia dramas legais ou de tribunais, os court dramas, em inglês. Para o espectador contemporâneo, algumas situações são tão alienígenas, quanto para os ocidentais, alguns casos em Justiça. Por outro lado, a já multicultural e metropolitana Londres setecentista enfrentava crimes e transgressões do mesmo tipo que reclamamos hoje, mas que alguns idealizam inexistir antigamente. A fim de conferir aspecto de seriado, os roteiristas desenvolvem um arco representando o envolvimento de Garrow com Lady Sarah Hill, que foi sua parceira na vida real, mas cuja disputa pela guarda do filho não aconteceu. Resolvida de modo bem novelão, esse é o naco menos carnudo. Garrow’s Law vale pelos casos apresentados e seria até mais eficiente, se o formato fosse a de caso da semana.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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