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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Festival de cinema europeu em casa - parte I

A Netflix oferece excelentes opções para quem quer se aventurar fora das grandes produções norte-americanas.


hero_My-Happy-FAmily-2017.jpg Imigração e tráfico de mulheres têm sido temas recorrentes em filmes e séries europeus a ponto de já se poder elaborar compêndio a respeito. Correlata a esses fenômenos globalizantes, está a questão da adoção de crianças de países periféricos por pais de nações abastadas. Isso envolve temas polêmicos como a transformação do corpo em mercadoria e a rapinagem de centros afluentes sobre seus congêneres pobres (afinal, por que franceses normalmente não compram crianças de orfanatos dinamarqueses?), além de pontos, tipo, como negar que bons pais ingleses proporcionarão futuro com mais chances do que a maioria dos pais em Uganda?

La Adopción (2015), baseado em experiências da diretora Daniela Féjerman, na Ucrânia, não se propõe a abordar macroquestões. Apenas numa discussão, a intermediária lituana (provavelmente) joga na cara do casal espanhol, que estes se aproveitam da pobreza do país para comprar suas crianças. Ao invés disso, a película oferece em tom quase documental, uma visão da agonia que o processo de adoção pode se tornar para pais de classe média europeus ocidentais que vão para o empobrecido leste e caem na teia de burocracia e corrupção.

Daniel e Natália (Francesc Garrido e Nora Navas, ótimos, especialmente ela) vão a um país do leste europeu ou ex-república soviética para adotar um bebê. Há breve menção à Lituânia, então pode ser lá. Sob o intenso frio e neve das festas de fim de ano, intuímos que a jornada será odisseia hercúlea (porque sem direção), quando ainda no aeroporto, as malas do casal são extraviadas propositalmente. Quando começam as intermináveis e frustrantes audiências com autoridades locais, o casal se dá conta de que terá que desembolsar mais euros do que imaginava, além de enfrentar o estresse de estar longe de casa, num local onde não fala o idioma.

Problemático pela generalização do que não é ocidental e pelo tempo todo se referir ao local como corrupto, ao mesmo tempo em que mostra Dani e Natália molhando mãos de locais com euros, La Adopción tem seu ponto positivo especialmente na força e realismo com que nos faz compartilhar com o casal a sensação de impotência e de estar isolado, perdido. A chapante e chapada brancura da neve, a desorientação de diversos idiomas misturados [espanhol, inglês, italiano e lituano (?)], o frio intenso e a dubiedade dos autóctones nos deixam tão desorientados quanto os simpáticos Natália e Dani. Como a película é narrada sob o ponto de vista deles, a questão da percepção do meio como corrupto até se entende.

Tópicos como o relacionamento difícil com o pai médico, que não levam a lugar algum, poderiam ter sido trocados em favor de nuançar um bocado mais a situação, afinal, se a população local é tão propensa a aceitar propina, pode ter motivos tão válidos quanto o dos estrangeiros comprando as crianças feito bonecos, mesmo que para lhes proporcionar amor e vida melhor.

My Happy Family (2017) sutilmente ironiza como boas (será?) intenções familiares sufocam, especialmente as mulheres. O filme que a Netflix mantém em seu catálogo com título em inglês é feminista. E excelente. Vem da Geórgia, uma das ex-repúblicas soviéticas, vizinha da Armênia, Turquia e Rússia, com a qual vive às turras. Bastante desconhecida da maioria de nós, isso já serviria para checá-lo, mas o filme encanta por méritos próprios, jamais por “cota de exotismo”.

Manana é professora de meia-idade, que vive em apartamento abarrotado. Além dela e do marido, seus pais e filhos, com [email protected] cônjuges. Um dia, se enche e dá o fora. Ela não explica; não há nenhuma DR ou diálogo-cabeça explorando e explicitando cenas de um casamento em seus gritos e sussurros woody-allenianos.

My Happy Family é cinema com letras maiúsculas, porque mostra e sugere o porquê da liberação de Manana. As cenas de confusão e superpopulação no apartamento atordoam, e inúmeros dados no relacionamento familiar dão conta da opressão benévola enfrentada pela exausta mãe-esposa-filha que não podia ter vontade própria. Então, quando se senta sozinha, em silêncio, comendo bolo e ouvindo Mozart em seu pequenino apartamento, vendo a chuva, palavras seriam desnecessárias.

My Happy Family é típico filme de festival, vagaroso, paciente, quieto, não estruturado para ter fim fechado, solucionador. Embora haja alguns paralelismos típicos de roteiro, para reforçar/contrastar a situação de Manana, a película parece com aqueles recortes de alguns dias na vida das personagens – que na nossa América, a Argentina já fez tão bem.

O cotidiano vai acontecendo e através de diálogos simples, os diretores/roteiristas Nana Ekvtimishvili e Simon Gross demonstram a exaustão emocional causada pela repressão de nãos durante anos; a chantagem emocional que mal esconde o desejo de tirania; a toxicidade camuflada das interações sociais. Sem fluxos de consciência, sem imagens metafóricas ou “alegorias”. Não que houvesse algo de errado se os tivesse. O filme depende muito que o expectador perceba a opressão de Manana. Nesse sentido, é muito mais inteligente do que as produções que gastam horas explanando. My Happy Family as apresenta e deixa para nós a compreensão e a empatia. Ou não.

Lázaro é o personagem bíblico ressuscitado por Jesus, mesmo depois de estar fedendo. Essa é apenas uma das inúmeras referências que dão profundidade e multiplicidade de interpretações a Lazzaro Felice (2018), escrito e dirigido por Alice Rohrwacher.

A italiana produziu um longa que nada deve a qualquer filme de arte europeu, especialmente os de seu país. Alice caminha com segurança por sendas pedregosas, que indicam sua familiaridade com o Neo-Realismo e o Cinéma Vérité e, típico de sua geração, não teme misturar Realismo Mágico a essas formas mais engajadas de mostrar realidades nuas e cruas. Há até quê de Forrest Gump.

O angelical Lazzaro vive feliz, fazendo o bem sem olhar a quem, em uma comunidade rural isolada, que, apesar de situar-se temporalmente em algo que se assemelha aos anos 90, vive sob o jugo de uma marquesa, que vê a vida como Hobbes. Os lobos mencionados são metaforizações do filósofo inglês. Para ela é conveniente essa visão de relação humana, visto ser quem explora mais. Mas, os campesinos não são anjos de candura, explorados. Replicam o comportamento, quando podem, especialmente com Lazzaro. Apesar de provar conhecer bem a tradição marxista de cineastas conterrâneos, a italiana não idealiza a classe trabalhadora e sequer aponta visão otimista, de vitória do proletariado. No meio da narrativa, há mágico salto temporal e o grupo, agora na Europa eurada e emigrada, aparece na mesma pindaíba e sucateamento de antes, só que agora têm TV e comem salgadinhos (roubados).

Ligando esses dois mundos aparentemente tão distintos, mas no fundo tão iguais, está Lazzaro, cujo nome significa Deus ajudou. Mas, será que o Criador ajuda mesmo nesses dias de economia dominada por banqueiros e ruas cheias de gente de bem civilizada?

Lazzaro Felice poderá ser lido como fábula, como denúncia de exploração, como mistério, só não poderá ser acusado de imparcial. Merecidamente premiado, o filme de Rohrwacher não tem vergonha de ser didático.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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