blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Festival de cinema europeu em casa – parte II

A Netflix oferece excelentes opções para quem quer se aventurar fora das grandes produções norte-americanas.


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Clique aqui para ler a parte I

A Polônia dos anos 1970 estava sujeita à pesada censura imposta pelo regime comunista. A Igreja Católica contestava o totalitarismo, mas impunha sua própria censura, a moral. Nesse ambiente, publicar livro sobre sexualidade feminina, que falasse de direito ao orgasmo e técnicas de controle da natalidade, era transgressor política e religiosamente. Pois, a ginecologista Michalina Wislocka escreveu a necessária e revolucionária obra. Essa história é contada no competente A Arte de Amar (2017), dirigido por Maria Sadowska.

Ziguezagueando temporalmente, mas sempre entendível, A Arte de Amar apresenta preciso painel de como a história pessoal de Michalina importou para que o livro A Arte de Amar fosse escrito. Tem desde a tentativa de relacionamento à romance de Simone de Beauvoir até o capitão que descobre seu ponto G e a faz sentir que gozar é vital. O roteiro não deixa de lado a condescendência enfrentada pela médica no mundo acadêmico, apenas por ser mulher. E quando trata da censura a seu livro, de quebra, revela delicioso caso de pura desobediência civil da católica e oprimida população polaca, que, pelo menos, queria aprender a ter prazer na cama.

A Arte de Amar é feminista e especialmente necessário numa época quando até mesmo mulheres dizem não precisar do feminismo, sem se lembrar que se podem votar, dirigir ou gozar hoje, é por causa de gente como Wislocka.

E, além de todas as qualidades intelectuais, é bonito e gostoso de ver.

Preste atenção à sequência inicial de Thelma (2017), perturbadora e prenhe de promessas de reviravolta e estranheza. Dirigido por Joachim Trier e escrito por ele e Eskil Vogt, Thelma discretamente assombra em diversos níveis. Logo após a inquietante abertura de pai e filha caçando (geralmente é pai e filho) no gelado interior norueguês, há salto temporal e a guria já está na universidade, em Oslo. De família cristã tradicional, que não bebe ou fuma e sequer gosta que se insinue crítica a outrem, a jovem vive controlada pelos pais, mesmo distantes.

Quando a futura bióloga (imagine, numa família que provavelmente leva a Bíblia ao pé da letra), conhece a linda Anja e desejos inconfessáveis afloram, Thelma começa a experimentar convulsões parecidas com a de epiléticos. Também começamos a ver cenas de flashback e a supervisão asfixiante dos pais toma outro sentido. Thelma, a moça, tem tanta repressão, que seu cérebro materializa coisas. Mas, não convém falar demais sobre o enredo.

De modo redutor, Thelma, o filme, é uma espécie de Carrie, a Estranha, versão lésbica. Brian De Palma e seu mestre Hitchcock certamente inspiraram cenas, como a do primeiro avanço erótico de Anja sobre Thelma, na linda ópera de Oslo, enquanto viam um balé muito corpóreo.

Com imagens clean, o filme está em constante convulsão formal, totalmente disfarçada de calma e contenção narrativas, como no enredo que é fogo sobre gelo. Repare como o ponto de vista da câmera se desloca o tempo todo, entre visões micro de caras e coisas, para, de repente, virar macro, numa fachada de edifício ou panorâmica, onde transeuntes parecem insetos. É como se inconscientemente, toda a narrativa apresentasse os flashes de claro-escuro, que o psiquiatra a certa altura usa para induzir um surto em Thelma (epiléticos, cuidado). E quem viu O Exorcista não desperceberá a semelhança das cenas.

Não confundir essa convulsão formal com velocidade de edição. Thelma parecerá lento demais aos viciados em ação. Na verdade, o roteiro é um pouco reprimido como a repressão que quer criticar.

O País Basco fica no frio norte espanhol e parte de sua nacionalista população usa o idioma basco. É nele em que é falado Flores (2014), um daqueles muitos filmes escondidinhos nos recônditos da Netflix e que merecia muito mais divulgação.

Numa cinzenta e chuvosa cidade não identificada, Ana recebe diagnóstico de menopausa precoce. Em um casamento gélido e emprego discreto, a quieta mulher não tem muito a comemorar. Até que começa a receber flores religiosamente, em certo dia da semana.

Essa nova rotina que começa a iluminar a vida de Ana e enfurecer seu marido sofre abrupto corte na narrativa para nos apresentar outro núcleo familiar. Beñat é casado com Lourdes, que trabalha num pedágio. O discreto operador de guindaste vive no fogo cruzado entre esposa e mãe, Tere.

É só ter paciência que essas duas tramas se intercruzarão numa melancólica meditação sobre o esquecimento e sobre suas perdas e ganhos.

O diretor/roteirista Jon Garaño usa as flores como ícones que assumem distintos papeis de acordo com cada situação, etapa da história (que transcorre em cinco anos) e personagem. Flores é maduro, sentimental, lento, quieto. Não há fanfarras ou edulcorantes: a vida é fluxo, memórias esmaecem, lembranças e convicções são convenientes pelo tempo que nos servem para viver. Flores é essencialmente feminino, posto o impacto de diferentes relações com esses vegetais ser sentido nas vidas de três delas, interpretadas com certidão.

Estritamente em nível pessoal, Flores ferroa o passado ignoto da ditadura franquista, através de um comentário pela TV, que justamente questiona se convém deixar para trás as agruras de então, ou seguir lembrando das barbáries do Coiso espanhol, através dos julgamentos e punições ainda em curso.

Óbvio que qualquer um poderá se empatizar, mas quem já sofreu perda e consegue avaliar os malabarismos emocionais que faz para manter certa sanidade, se emocionará.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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