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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Festival de cinema europeu em casa – parte III

A Netflix oferece excelentes opções para quem quer se aventurar fora das grandes produções norte-americanas.


15546731874andbreatstill.jpg Clique aqui para ler a parte I.

Clique aqui para ler a parte II.

Em 1942, Irène Némirovsky morreu no campo de concentração de Auschwitz, privando o planeta de escritora. Escritos sobreviventes deixados com as filhas continham duas partes de pretendida pentalogia, abortada pela torpeza nazista. No início deste milênio, as duas novelas foram publicadas sob o nome Suíte Francesa. O filme homônimo funde ambas histórias numa trama passada na França rural, ocupada pelos alemães.

A coprodução Inglaterra/França/Bélgica mostra como Lucille, que mora com sua sogra cúpida e dominadora, se envolve com o tenente alemão designado a viver sob seu teto, quando a aldeia é ocupada pelos invasores. A primeira parte de Suíte Francesa dá a impressão que seguirá certo relativismo pós-moderno, ao apresentar alemães e franceses como defeituosos de caráter. Os alemães podiam estar invadindo, mas os invadidos franceses não se furtavam em escrever-lhes cartas incentivando caça às bruxas. Madame Angellier dominava Lucille como os germânicos a França, e o tenente Bruno era tão sensível e diferente do estereótipo nazista, compondo sua suíte romântica.

Uma injustiça coloca as coisas nos trilhos, mostrando que, a despeito de falhas humanas, os bastardos inglórios eram os invasores, com sua ideologia de extermínio étnico, ideológico, de orientação sexual e religiosa. Defeitos todo ser humano tem e relativismo pode acabar pondo culpa em vítima. Isso não ocorre no filme de Saul Dibb. A segunda parte é bem menos ambígua, e mostra que havia mal muito mais amplo a ser combatido, maior até que o amor individual.

A produção tem tom de comercial de TV e às vezes esbarra em formulismos. Não que isso estrague Suíte Francesa, perfeitamente desfrutável para discussões, para quem curte drama, bela fotografia, clima “de época”, música melosa, cine “europeu” e todo o combo.

Um Contratempo (2017) é daqueles thrillers espanhóis bem inverossímeis, elegantemente montados e cheios de reviravoltas. É o segundo longa do diretor Oriol Paulo, d’El Cuerpo, que já integrou o catálogo da Netflix.

“Após acordar ao lado de sua amante assassinada em um quarto de hotel, um empresário contrata advogada para descobrir como acabou sendo suspeito de um homicídio”, diz a sinopse oficial. Saber apenas isso é mais do que suficiente. Suspense tem disso: quanto menos se sabe, melhor.

O foco narrativo central é o embate entre o jovem empresário e a advogada, durante três ou quatro horas noturnas. Como a promotoria traria testemunha surpresa, a doutora Goodman compromete-se a criar com Doria uma narrativa para livrá-lo da cadeia. Narrado em distintos planos temporais não cronologicamente ordenados, Um Contratempo pega todos os elementos típicos de thriller e recombina-os de duas ou três maneiras, porque a cada possibilidade de história, o espectador as vê como se tivessem acontecido.

Se tal estratagema às vezes nos desorienta – quem quer segurança e certeza não deve escolher thrillers – também justifica determinadas alterações na construção de personagens, especialmente da amante morta. Em sentido metalinguístico, Um Contratempo é a escrita de um roteiro, perante nossos olhos.

Tem final surpresa, ambientação noir noturna e/ou florestal, na fronteira sul entre França e Espanha e até participação de Francesc Orella, o Merlí, conhecido dos assinantes brasucas da Netflix. Que mais você quer para uma noite divertida?

Uma das grandes crises globais é a dos refugiados, que precisam escapar de seus países em guerra ou intolerantes, para algum mais seguro e rico. A princípio, parece que não há nada a ver entre uma mulher branca da pacífica e próspera Islândia e uma refugiada da Guiné-Bissau. Além das diferenças climáticas e étnicas, à primeira vista, os problemas de ambas devem ser diametralmente distintos, até mesmo pela condição socioeconômica e de direitos de seus respectivos lugares de origem.

A diretora Ísold Uggadóttir mostra que há mais em comum entre elas do que se poderia supor em seu Inspire, Expire (2018), premiado no festival de Sundance.

Lára está perdida em seu próprio país: desempregada, prestes a ser despejada e com filho para criar. Adja está perdida no mundo: em perigo no país africano, tenta emigrar para o Canadá, para poder viver em segurança com a filha e a irmã. Os caminhos dessas duas personagens se cruzarão, quando Lára consegue emprego como fiscal no aeroporto internacional de Keflavik, porta de entrada da Islândia. Ansiosa em mostrar serviço, a islandesa nota que seu colega não percebeu a falsificação no passaporte de Adja, que é enviada para a prisão a espera de decisão governamental.

Quando Adja sai do cárcere e vai para um centro de refugiados, os percursos das duas voltarão a se cruzar, geralmente em cenários escuros, frios e desoladores, para espelhar seus estados de espírito. Quieto e dando suas explicações de forma discreta e a conta-gotas, Inspire, Expire revela o núcleo comum que une as duas mulheres. E também nos mostra a solidariedade possível entre elas.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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