blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Guia para novas invasões belgas

A Netflix já incorporou quatro séries belgas a seu catálogo: La Trêve, Tabula Rasa, Unidade 42 e Operação Ecstasy. Atualmente, com uma das televisões mais respeitadas pela crítica, o pequenino reino europeu tem muito mais a oferecer, confira.


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Clan (2012) é colorida farsa de humor-negro, falada em flamengo. A trama das quatros irmãs que planejam e desastradamente executam a morte do cunhado é sensacional, ainda que mais experientes consigam prever quem conseguirá realizar o feito. Não estraguei o prazer com a revelação do óbito: Jean-Claude aparece mortinho já na deliciosa abertura, ao som de balada cinquentista em inglês. Influenciada pela estética de Desperate Housewives, Clan apresenta cinco mulheres muito bem construídas e desenvolvidas, em tresloucada trama, que ao mesmo tempo, não deixa de apresentar situações até críveis.

Jean-Claude Delcorps é um tipo desprezível, por isso suas cunhadas planejam sua eliminação. Em inglês, isso proporcionou o delicioso título-trocadilho The Out-Laws, brincando com o termo “in-laws”, usado para designar os parentes não de sangue. Outlaw significa fora da lei, então o foco recai nas cunhadas fora da lei.

O sórdido Jean-Claude coleciona desafetos, então a quantidade de suspeitos aumenta, assim como as tentativas de eliminação, que resultam sempre na morte de outrem. A história se desenrola em pingue-pongue temporal entre o presente, imediatamente após a morte do desprezível, e os meses precedentes. O roteiro é dinâmico, saltitando com confiança entre muitas personagens, não intercambiáveis: todos têm personalidade e traços distintivos, sejam físicos, sejam emocionais/comportamentais. Prazer perverso do início ao fim, não deixe de prestar atenção no ratinho de estimação: ele aparecerá nos derradeiros créditos.

Seven (1995) potencializou onda de filmes e séries a respeito de assassinos seriais religiosamente temáticos, investigados por detetives capazes de decifrar pistas requintadas, envolvendo citações em latim e a Divina Comédia.

A trezena de capítulos de 13 Geboden, catapultada no mercado internacional televisivo pela visibilidade conferida por sua aquisição pelo Channel 4. 13 Commandments, como batizada em inglês, começa pura fórmula. Dupla composta por cansado detetive prestes a se aposentar e sua recém-chegada parceira inexperiente começa a investigar crimes emulando as leis ditadas a Moisés, que, inclusive, vira o apelido do doidivanas. De praxe, os policiais são atormentados por grandes problemas familiares e demoram um pouco para perceber o leitmotiv bíblico.

13 Commandments, porém, logo prova não ser simulacro de Seven. O orçamento do filme hollywoodiano era maior do que o da série. Assim, o investimento não está em mortes espetaculares - embora haja um par delas -, mas recai bastante na repercussão das ações justiceiras de Moisés, e de como muita gente se aproveita e até as aprova. No desenvolvido norte europeu, o discurso do cidadão de bem que mata em nome da não violência também pode virar onda.

Matar... outra questão que possibilitou minissérie muito bem bolada, mas sem grande verba. Um dos mandamentos diz para não matar, por isso, várias das ações de Moisés envolvem “sustos”, como língua cortada e apedrejamento (a cena é criativa, original, econômica e ótima), o que significou a desnecessidade de investir em mortes mirabolantes.

13 Commandments não servirá para viciados em ação veloz. Há bastante conversa e dramas pessoais. Parece enrolação, mas quando se revela a identidade de Moisés, percebe-se quanto o roteiro é bem feito. Poderia até ter menos capítulos, mas note que o título é os Treze Mandamentos. Moisés conseguirá ficar mesmo sem matar?

Medo de pestes devastadoras incomoda há milênios e volta e meia compraz a fome incessante da mídia por drama e pavor. A gripe aviária d’alguns anos atrás ensejou cenários extintores fartamente explorados.

Cordon (2014) imagina um desses cenários, provocado por vírus mortalmente contagioso, propagável por contato com mucosas e secreções.

Tudo começa quando uma professora leva seus aluninhos ao Instituto Nacional de Doenças Infecciosas. Realmente, excelente escolha: um bando de crianças curiosamente inquietas e vivendo fase obsessivamente tátil num viveiro de infecções em potencial. Cordon exige bastante desarmamento da descrença.

O problema com a visita e com toda uma seção de Antuérpia é que um container chegara carregando vírus 100% letal, que começa a se alastrar, daí as autoridades instituem o cordão sanitário aludido no título. As crianças não podem sair do Instituto e ninguém pode deixar a parte isolada da cidade. Não pergunte pelos petizes lá pelo capítulo cinco: sua função dramática desaparecera, então não precisam mais ser vistas.

Cordon tem todos os elementos padrão de uma representação de catástrofe bacteriológica/ viral: em poucos dias, o tecido social se dilacera e a barbárie se espalha feito praga na área isolada, indicando que o ser-humano não é tão diferente de irracionais unicelulares. Há também mistério que aponta a possibilidade de tudo ser esquema muito maior, deflagrado e camuflado por esse Lobo Mau chamado Governo (que no caso europeu ajuda no financiamento dessas séries), que, claro, tenta se esquivar da culpa culpando os afegãos por bioterrorismo.

Orçamento contado resultou numa narrativa quieta, intimista, mas que prende, por isso chamou a atenção dos norte-americanos, que compraram os direitos e fizeram sua própria versão, Containment, exibido pela The CW.

Sede da União Europeia e de outros imãs para terroristas, como a OTAN, o que a Bélgica tem de importante, tem de complexa. Os governos sempre são de coalizão, porque num espaço de 30 mil km2 convivem duas etnias (flamengos e valões) com línguas (flamengo e francês) e culturas distintas, nem sempre simpáticas uma à outra. E olha que há falantes de alemão também.

Num ambiente que parece sempre prestes a se esfacelar, narrativas de organizações para-governamentais que querem usurpar a monarquia parlamentar e assumir o poder não devem ser tão irrealistas. Essa é a premissa de Salamander, falada em francês e flamengo.

Tudo começa com minuciosa cena mostrando o roubo de 66 cofres particulares num banco em Bruxelas. A instituição não é grande, mas seus clientes sim, e o material roubado pertence à parte da elite belga e constitui-se de muitos segredos e informações que seus donos prefeririam não verem divulgadas. A polícia recebe instruções para abafar o caso, mas o inspetor Paul Girardi é honesto demais e começa a investigar uma rede que lhe custará caro e levará o espectador a uma história de vingança que remontará à II Guerra Mundial.

A premissa de Salamander é mais de thriller de espionagem do que policial. Os doze capítulos da temporada um são demais para uma história que não tem fôlego nem orçamento para tanto.

Além disso, há coincidências coincidentes demais. Aceita-se forçada de barra aqui e ali, mas é demais a filha ir para um internato, onde fará amizade com a neta do iniciador da confusão; o único amigo que sabe da conspiração passar por uma estrada bem na hora que a equipe de resgate está colocando um morto na maca e o pano levantar para ele poder ser identificado de longe. Sem contar, o jovem monge hacker que vive num monastério com apenas um terminal de computador. Salamander – espécie de maçonaria illuminati - é uma organização tão poderosa, mas passa o tempo todo quase só na defensiva.

Os defeitos não impediram que Salamander ganhasse segunda temporada. Não era para menos: primeira série belga importada pela BBC4; anexada a alguns catálogos da Netflix e até cogita-se refilmagem em inglês. O grisalho inspetor Paul Gerardi foi cabeça de lança da pequena invasão de TV belga que se seguiu e está em pleno curso.

Como Salamander não é o nome do protagonista, mas de organização secreta desmantelada na temporada um, o roteiro precisou criar elo entre as duas temporadas, mas manter sua independência para não alienar os que não viram a aventura inicial.

A segunda temporada tem como subtítulo Blood Diamonds, ou diamantes de sangue. O termo se refere às pedras extraídas em zonas de guerra, geralmente na África, donde atualmente cerca de dois terços dos diamantes do mundo são extraídos e vendidos para financiar grupos insurgentes, um exército invasor ou, um senhor da guerra. Diamantes assim obtidos são geralmente extraídos por mão de obra escrava ou trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Na pobre e sempre em guerra Kitangi, general malvado quer o poder, sem medir esforços e balas. Quando um vídeo comprometedor chega à Bélgica, o inspetor Gerardi é arrastado para o olho do furacão, que envolve empresários, bancos e o próprio governo belga. Para justificar tamanha rede conspiratória e ligá-la à temporada um, pode haver resquícios da Salamander envolvidos.

Salamander: Blood Diamonds é a temporada um em cenário ligeiramente alterado. Embora agora viva numa bela mansão no campo, o inspetor Gerardi segue incorruptível e viciado em trabalho ético. Uma vez enredado na nova trama, seus superiores duvidam da magnitude de suas suspeitas, ele é afastado do caso, mas segue investigando por conta própria, até resolver tudo e restituir a paz ao pequeno país europeu.

Se mantivesse apenas a estrutura não haveria o menor problema, afinal, quantas tramas policiais não se encaixam no descrito? O problema é que Blood Diamonds repete os erros de sua antecessora: mesmo com menos episódios, há cenas longas demais e certa enrolação; daria para contar a história em meia dúzia de capítulos.

Ennemi Public (2016) foi produzida pelo canal La Une e comparada por operadoras anglo-americanas, onde recebeu o nome Public Enemy. À dezena de capítulos falta foco. Há umas três histórias lutando por atenção – uma delas, um thriller policial ótimo – mas o resultado é apenas bom, porque nada é desenvolvido a pleno contento.

O pedófilo assassino Guy Béranger é solto em liberdade condicional para iniciar seu noviciado numa abadia de aldeia incrustada na floresta. A presença do serial killler provoca ira dentro e fora da abadia e cidadãos de bem provam não serem assim tão de bem. Especialmente, quando crianças começam a ser mortas na comunidade. Chega uma policial de Bruxelas, que, de tão perturbada, vê e fala com a irmãzinha desaparecida. Também há uma família tradicional local que tem projeto para uma cervejaria, um irmão marginal e outro monge.

Como em toda série policial, esses fios se encontram, de modo até algo surpreendente, mas Bérarger começa muito enigmático, para, no meio, perder todo o destaque. O irmão religioso nem sabemos porque está ali, posto a personagem não influir em nada.

A conclusão é que Ennemi Public satisfaria muito mais se tivesse metade dos capítulos, mas fosse o thriller policial competente sufocado pelo roteiro entulhado. Não seria história original, mas do jeito que está além de também não o ser, não deixa impressão duradoura.

O tema das prostitutas estrangeiras na Europa dá o mote das duas temporadas de Matrioshki (2005-7), que mostra que Bélgica e Holanda são teteias apenas dependendo do lado em que se vive. O título alude às bonecas russas. De madeira, há uma série de bonecas idênticas dentro da outra, até a última ser maciça. A metáfora da quantidade e anonimato de massa do vagalhão de moças pobres oriundas da Europa Oriental, que vem à rica parte ocidental e são brutalmente exploradas é oportuna, esperta e triste.

São vinte capítulos, sendo que os dez da segunda temporada expandem a geografia e mostram como a Tailândia também exporta prostitutas e esposas para europeus, que as veem e tratam como objetos.

A organização retratada em Matrioshki, embora estruturada e tentacular, não é tão eficiente, porque os membros desperdiçam muitas oportunidades e deixam muitas brechas, devido a rusgas internas. Por se tratar de programa de TV e não documentário, para haver conflito talvez o roteiro tenha preferido deixar os vilões menos eficientes.

Embora não seja sensacional, Matrioshki vale por exibir realidade bem distinta daquela dos noticiários que exalam sentimento de inferioridade perante o suposto fechamento de presídios holandeses ou o elevado IDH belga. Pode até ser birra Bélgica-Holanda, mas a pátria de Van Gogh é temida até pelas prostitutas escravizadas na Bélgica, que não querem ir para lá, para servirem vinte homens de uma vez. Além disso, há intimidação de jornalistas, corrupção policial e um bando de europeus jecas, nada merecedores do título de “desenvolvidos”. E também o triste retrato do leste europeu com locais tão desconhecidos quanto a África, porque afinal, o ex-bloco comunista é a África europeia, onde leilões humanos são realizados e os preços das moças varia de acordo com sua etnia.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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