blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Mal-estar no estado do bem-estar social

Algumas produções suecas têm esborrifado sal em feridas do bem-estar social nórdico. Racismo, ascensão da extrema-direita, falhas no propalado programa de integração étnica, isso e mais têm sido tematizado em ótimos shows.


6eb53ade92cfe799be577766d40f927a.png A meia dúzia de capítulos de Areia Movediça (2019) adota perspectiva psicologicamente perscrutadora. Das três minisséries mencionadas neste artigo é a mais acessível, porque pertence ao catálogo da Netfliix, inclusive com dublagem em português.

Meio na estrutura da temporada primeira de The Sinner, Störst av allt, desvenda através de flashbacks, um massacre ocorrido em escola de bairro elitista de Estocolmo. De início, ouvimos tiros por detrás de porta cerrada, que, logo percebemos tratar-se de sala de aula. A jovem Maja parece ser a única sobrevivente, mas o estatuto de vítima passa ao de perpetradora em um átimo. Em Areia Movediça ninguém é apenas culpado ou inocente.

Maja é privilegiada, ótima aluna, irmã dedicada, filhota de ouro, mas, começa a namorar o algo careca Sebastian. Sonho de consumo para quaisquer pais, o jovem leva Maja para passear no iate do pai, no Mediterrâneo, onde o abastado Claes diz à adolescente, que agora ele tinha esperança de que Sebastian tomasse juízo. Aos poucos, nos damos conta da toxicidade do bad boy-magia Sebastian, que engole Maja em seu redemoinho de drogas, autopiedade e ódio.

Como Maja não se recorda direito dos momentos preliminares ao tiroteio, os capítulos intercalam cenas do presente – interrogatórios, reconstituição do atentado, julgamento – com o desenvolvimento do relacionamento Maja-Sebastian e sua imbricação com algumas outras personagens, especialmente Amanda e Samir, o filho de imigrantes, que vive num apartamento bem distinto à opulência de seus colegas de classe média-alta/alta, cheios de problemas. Claro que o foco é Maja e Sebastian, mas uma explosão fascista deste, indica a barra que Samir também enfrenta (mas nosso dó é direcionado mais aos suecos branquinhos...).

Insegura pela idade, pressionada pelos pares, com dó de Sebastian, Maja não consegue escapar da letalidade do relacionamento. Areia Movediça alerta que bondade demais não compensa: se afeta sua vida, deixa o outro se estrepar sozinho, afinal, você tentou. Mas, escrever isso da distância fria de uma telinha de notebook, sem estar vivendo a situação, é bem fácil. E é isso que pede a minissérie: empatia.

Em meados de 2017, pesquisa revelou que o Partido Democrata sueco alcançara cerca de 24% das intenções de voto numa possível eleição. Conservadora anti-imigração, a agremiação obtivera bom desempenho no pleito de 2014, o que serviu de inspiração para a minissérie Blå ögon, traduzida para o inglês como Blue Eyes, quando exibida na Inglaterra pelo More 4, subdivisão do Channel 4.

Os dez capítulos desse thriller político apresentam o mal-estar do Estado do Bem-Estar sueco, com sua escalada de xenofobia, antissemitismo e homofobia, à medida que a política multicultural do reino aprova a entrada de mais e mais imigrantes e refugiados. Em 2016, o dinamarquês Kim Bodnia afirmou a um site israelense que um dos motivos pelos quais largou Bron/Broen foi o antissemitismo que enfrentava, quando tinha que gravar na sueca Malmo.

Blå ögon começa com duas tramas paralelas, que no final se cruzam em desfecho desanimador, que não deixa espaço para surpresa pelo crescimento dos Democratas, representados pelo ficcional Security Party, que, com sua ideologia nacionalista, atrai gente muito mais extremista, que quer “purificar” a Suécia através de porrada e bomba. E a isso que aludem os Olhos Azuis do título.

Elin Hammar é jovem burocrata que retorna a seu posto de chefe de gabinete do ministro Gunnar Elvestad, mas logo percebe que sua antecessora havia se dado muito mal por alguma tramoia de alto escalão. Durante boa parte do tempo, essa é a trama menos interessante, porque a transformação da desencantada e furiosa jovem Sofia Nilsson em extremista de direita é bem mais movimentada e fascinante.

Agredida pelo ex-marido e sentindo-se injustiçada por trabalhar tanto, Sofia só precisava de empurrão para radicalizar. Isso acontece, quando sua mãe – membro menor do Security Party (em sueco, Trygghetspartiet) – e assassinada, no mesmo dia em que profere discurso conservador. A partir de então, Sofia e o irmão Simon envolvem-se com turma da pesada, que começa com o discursinho típico: eliminar os desonestos, aproveitadores e corruptores do sistema, como pedófilos ou quem lucra com a queda na qualidade no serviço de proteção aos idosos. Mas, como sempre, os alvos passam a ser qualquer um de que não gostem, inclusive suecos, também de olhos azuis.

Sem proferir palestra, Blå ögon coloca na construção das personagens e em dados da trama, algumas das contradições de membros do grupo. Filhinho de papai que diz odiar o capitalismo; membro de partido supremacista soft que é filho de imigrante e tem pele bem menos alva que seus companheiros loiros.

Preocupada em elaborar porque ideologias eugenistas podem se tornar atraentes numa sociedade que se percebe em decadência devido ao influxo de muita diferença, Blå ögon não se dedica a nem pelo menos tocar de leve nos motivos que levam tantos a quererem se refugiar na afluente Suécia. Será que os países desenvolvidos são apenas “vítimas indefesas” do processo?

A percepção do cidadão comum, incapaz de entender a complexidade de um mundo globalizado, está competentemente representada e a culminação da trama de Elin, que descobre grande trapaça governamental, enevoa ainda mais alguma possibilidade de compreensão.

Blå ögon nem de longe é otimista ou redentora, mas seu clima não é o sombrio do Nordic Noir. É uma história bem contada, com suspense, que mostra uma Suécia ainda limpa e lindíssima, mas confusa pelo medo, com mulher que leva porrada do ex. Há algo de podre nesse reino de cartão postal. Em 2011, a fenomenal Bron/Broen apresentou trabalho conjunto de policiais da Suécia e Dinamarca. Sem contar as diversas releituras, a série deflagrou séries de trabalhos colaborativos, como The Team e a aguada Crossing Lines (disponível na Netflix).

Em 2016, TVs da Suécia e França uniram forças para os oito amalucados capítulos de Midnattssol, internacionalmente conhecida como Midnight Sun, por se passar no extremo norte sueco, fronteira com a Finlândia, onde, no verão, o sol não se põe durante semanas. Não é só no deserto que se consegue enjoar de tanta luminosidade; mesmo sobre gente encapotada, a perene luz castiga em alguns momentos.

Se Blue Eyes apresentou Suécia fascistoide, com mulher levando bofetada do macho, Midnight Sun (MS) nos leva à Lapônia sueca, onde a idealizada política de integração social não abranda o preconceito do sueco viking pelos nativos samis, os “índios” da Escandinávia, chamados de ratos lapões mais de uma vez. Os samis, por sua vez, guardam rancor histórico do invasor loiro, que tomou suas terras e sequer o considera como cidadão sueco. Sobrepostos ao cenário deslumbrante da natureza nórdica, gente da Suécia sem dente e vivendo em muquifos.

Midnight Sun abre com assassinato espetacularmente criativo. Como o defunto é francês, a detetive Kahina Zadi vem da cosmopolita Paris para a insular e nanica Kiruna, onde trabalhará com o simpático Anders Harnesk. Ambos estão em regiões étnicas fronteiriças: Kahina tem ascendência argelina e Anders é parte sami.

Embora muito viciante, inverossímil e tresloucada – o último capítulo termina com um massacre – Midnight Sun só é consumo e diversão, não espere a alta qualidade “artística” do Nordic Noir; é roteiro de quem descobriu que marca dá dinheiro e foi atraproveitar.

Estetizando a violência no último – repare a beleza das gotas de sangue caindo em câmera lente sobre superfícies aquosas prateadas – MS não se envergonha de usar clichês surrados, como atribuir sabedoria mística aos nativos samis. Alguns falam com aquele jeito cifrado de quem sabe tudo e possuem certos poderes místicos (então, por que perderam tudo e vivem na miséria?). Como todo policial contemporâneo que se preze tem que ter demônios pessoais que fazem o espectador imaginar como o Recursos Humanos da polícia deixou passar, o par de MS também os tem. Acontece que nada servem à trama, na verdade, só a atrasam, Dava para ser meia dúzia de capítulos tranquilamente.

Em resumo, Midnight Sun acerta no atacado, mas no varejo tem muitas imperfeições.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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