blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Meninas eletrônicas

Três grupos que combinam doces vocais femininos com sons sintetizados de inspiração anos 80.


chvrches-2018-exclusive-please-credit-danny-clinch.jpg_4950x3300.jpg

Adrian Flanagan, Dean Hone e a vocalista Leonore Wheatley não são novatos na cena inglesa, sendo responsáveis por bandas como Moonlandingz e The Soundcarriers. Os três morrem de amores pelos sintetizadores analógicos soviéticos e norte-americanos dos anos 1970, bem como pelas baterias eletrônicas oitentistas. São gamados pelos ritmos robóticos, que caracterizaram a geração do OMD, Cabaret Voltaire, The Human League e tantos outros synth-poppers, New Romantics e quejandos. Ressignificando o antigo em algo que chamam de “nerd disco”, o trio batizou-se como International Teachers of Pop (ITP) e lançou álbum homônimo de estreia, dia 8 de fevereiro.

As dez faixas são o sétimo-céu para amantes de sons vintage totalmente sintetizados. Quem cresceu nos anos 80 ou no auge do revival eletro vai amar desde a primeira canção, After Dark, com clima Giorgio Moroder sem ser cópia e cheia de ruídos de electronica de videojogo antigo. Os vocais de Wheatley estão em simbiose com o denso recheio sintetizado, mas não é a regra do álbum, tornando o cantar um dos atrativos do ITP. Em Ballad Of Remedy Nilsson, a voz está em proeminência, aguda e dramática, para dar mais energia à eletro-locomotiva dançante. Em Love Girl, Wheatley está tão docemente cool para combinar com o arranjo Pet Shop Boys, que fica difícil não imaginar dueto com Neil Tennant. On Repeat remete à gelidez de algumas faixas do Ladytron; a voz mais um elemento na electronica de estalactites de gelo.

Kraftwerk informa quase tudo no ITP, como não poderia deixar de ser. E com os mestres alemães, os britânicos vez mais aprenderam a lição de contrabalançar o frio dos teclados, com a quentura da percussão afro. Time For The Seasons é uma espécie de Tour de France. Note como a dualidade frio x quente está não apenas nos arranjos, mas nos vocais. E como ouvir a lenta hipnose de She Walks sem lembrar de Hall Of Mirrors?

Esses professores de pop têm doutorado. Confie em sua docência e aproveite a aula.

DIANA foi formado em Toronto, em 2010, por Joseph Shabason e Kieran Adams, que logo adicionaram a vocalista Carmen Elle ao projeto, que era para ser só de estúdio. Interesse pelo material disponibilizado no Soundcloud estimulou apresentações ao vivo e desde então o grupo vem excursionando pelo hemisfério norte. Seu álbum mais recente é Familiar Touch, lançado dia 18 de novembro, de 2016.

O toque familiar do título será sentido por qualquer (sobre)vivente/amante dos 80’s: a voz de fadinha falsamente gélida de Carmen flutua por cima de arranjos synthpop. Confession abre com percussão sintetizada de linha de produção à Depeche Mode, fase People Are People, mas cedo arrefece numa linda melodia para Elle flanar, com muito acontecendo nos teclados. Essa ocupação tecladística é um dos charmes de Familiar Touch: quem leva a batida de Moment Of Silence é a percussão, deixando o teclado livre para criar. Recomenda-se ouvir esse álbum com fones de ouvido, para perceber isso em várias faixas, além das influências talvez até nem intencionais de grupos hoje esquecidos pela maioria.

Momentos de Moment Of Silence lembram The Promisse, do Arcadia. Aliás, este está presente também em Miharu, que igualmente evoca Clouds Across The Moon, da Rah Band. Pura arqueologia oitentista. Os backing vocals e a percussão estereotipadamente “negros” de Miharu retomam a velha contradição do synthpop: vocais gélidos em cima de instrumentação suingante e orgânica. Sinta-a também em Slipping Away, gostosura dançável com voz de cristal gelado, mas guitarra afogueada à Chic e teclado oriental.

Fãs de The Bird And The Bee e Chvrches podem tentar DIANA sem receio.

Chvrches (pronunciado como "churches") é uma banda escocesa, formada em 2011, por Lauren Mayberry (vocais, sintetizadores adicionais e samplers), Iain Cook (sintetizadores, guitarra, baixo e vocais) e Martin Doherty (sintetizadores, samplers e vocal). Seu álbum de estreia foi The Bones of What You Believe (2013), que trouxe chuva de teclados gelados em canções deliciosamente pop, espécie de dia de inverno ensolarado. De dar orgulho a Vince Clark, Chris Lowe e Gillian Gilbert pelo legado.

A produção cristalina apenas aumenta a vontade de dançar e ser feliz ao som das pipocantes Gun e Strong Hand. Ao contrário de grupos oitentistas como Propaganda que tinham duas ou três canções contagiantes, o Chvrches é mina de delícias tecnopop. Às vezes lembrando a gelidez do Visage, como não se encantar com a rigorosa muralha de teclados glaciais ao fim de Tether? Science/Visions une techno às lambadas de teclados sci fi B à Giorgio Moroder. Em, 2015, saiu Every Open Eye, mais dançável ainda e com sonoridade que mostra uma banda que sabe que tem potencial para estourar maciçamente e aparaa gelidez dos teclados, mas mantém nível de qualidade invejável. Keep You On My Side e Empty Threat foram feitas para saltitar; esta última lembra certo synthpop da Europa continental, mormente escandinavo, como o do dinamarquês Alphabeat. Talvez seja a voz de anjo agitado de Lauren. Talvez a felicidade induzida pela canção intoxicante.

Iain assume o vocal em High Enough to Carry You Over e leva o ouvinte para 1985, com o synth levemente funkeado e as pesadinhas repetições de Playing Dead, com Lauren de volta aos vocais, fará os oitentistas recordarem Rock Me Amadeus, do finado Falco. Esse álbum tem espaço até para uma balada: a melodia de Afterglow é construída basicamente por Lauren, que canta sobre fino carpete de teclados.

O DNA do Depeche Mode, presente desde a estreia, produz filho impossível de negar a paternidade em Clearest Blue, com citação musical de Just Can’t Get Enough numa letra que repete “it’s not enough” adoidado. Nem que quisesse o Chvrches conseguiria esconder a ascendência 80’s: a capa de Every Open Eye referencia a de Power, Corruption and Lies, ponto de virada synth da New Order.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberto Bíscaro