blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Mórbida e Maluca Marcella

O lema desta série policial da Netflix poderia ser “quanto mais miséria, melhor”


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Forbrydelsen (The Killing, na Netflix) abriu o caminho para a popularização do Nordic Noir na TV inglesa, mas foi A Ponte que eletrizou o subgênero. Desde 2007, Inglaterra, EUA, França, Espanha, Nova Zelândia têm produzido thrillers com forte gosto escandinavo. O Reino Unido é o que tem se inspirado mais e melhor nos suecos e dinamarqueses. Shetland, Broadchurch, Y Gwill (Hinterland, na Netflix) são policiais imperdíveis para apreciadores de histórias e ambientação deprês. Fortitude trouxe até Sofie Gråbøl para o elenco, além de se passar em fictícia base polar norueguesa.

O amor britânico por tudo Scandi não arrefecera, em 2016. A ITV contratou Hans Rosenfeldt — o criador de BronIBroen — para conceber e escrever os oito capítulos da temporada um de Marcella, exibidos a partir de abril daquele ano e disponíveis na Netflix.

Marcella Backland é ex-policial atordoada, porque seu marido acaba de abandoná-la. Justamente então, um colega a procura para se informar sobre assassinatos em série que a detetive-sargento investigara. Suspeita-se que o maníaco esteja atuando novamente. Ainda obcecada pelo caso não-resolvido e desesperada para preencher seu tempo e cabeça, Marcella pede seu emprego de volta e mergulha num mundo de prostituição online, falcatruas corporativas, traição extraconjugal e psicopatia.

Há agravante, porém: ela vem experimentando episódios de amnésia, então, às vezes fica a dúvida de se alguns dos malfeitos não foram cometidos por ela mesma. Isso a liga com a já clássica Saga Norén, de The Bridge, e seu possível Asperger jamais mencionado. Mas, física e indumentariamente, Marcella é parente de Sarah Lund, de Forbrydelsen. A atriz Anna Friel está meio caracterizada como sua colega dinamarquesa, até mesmo num casaco que sempre veste.

Como no caso dos problemáticos Norén e John River (da ótima minissérie River, também na Netflix), a tarefa primeira é acreditar que a polícia inglesa aceite a DS Backland de volta, sem recapacitação ou avaliação físico-psicológica, só porque ela pede. Numa cena ela diz que quer retornar; na próxima, está com os novos colegas, uns quinze minutos primeiro capítulo adentro. Mas, sem suspensão da descrença praticamente não assistiríamos a nada.

Em Marcella, Rosenfeldt usa a mesma técnica de apresentar subtramas aparentemente do nada, como em BronIBroen. Desorienta, mas logo se entende/supõe a conexão. No caso desta série, isso liga-se à própria desintegração da personalidade da detetive, então o embaralhamento é bastante interessante. Não se trata de nada muito complexo; o show é bem acessível. Só há que ter paciência, porque os procedimentos são meio lentos.

Fãs de The Bridge não deixarão de comparar as duas, então é bom avisar que aquele padrão de excelência não é alcançado e algumas das subtramas não são resolvidas a contento. Marcella nunca atinge as alturas da produção sueco-dinamarquesa, mas também é importante lembrar que o mundo de Saga Norén é ponto fora da curva.

Em fevereiro de 2018, a ITV exibiu os oito capítulos da temporada segunda, não muito depois agregada à Netflix brasileira.

Hans Rosenfeldt tornou Marcella (pronúncia italiana, aliás) ainda mais Scandi Noir em termos temáticos e o resultado superou a da temporada de estreia, ainda que possa ofender corações e mentes mais frágeis/moralistas. Desta vez, a trama envolve sequestro, tortura e lobotomia de/em crianças. Avisado considere-se quem não curte morbidez: há cenas meio perturbadoras de moleques sendo operados e/ou prestes a serem sexualmente molestados.

Tudo é bem doentio, e a policial psicologicamente despreparada para sua posição, ainda mais. Os apagões na mente de Marcella são resolvidos no último episódio, com revelação aterradora, que a conduzirá a abismo emocional ainda mais escuro e profundo, mas que dá a deixa para prometida terceira temporada.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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