blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Morte e glamour em Melbourne

Uma série de detetive elegante, leve e divertida, para toda a família, na Netflix.


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Séries policiais parecem estar se tornando cada vez mais mórbidas, vide The Sinner ou a segunda temporada de Marcella, ambas na Netflix. Nada contra, afinal, o mundo não é conto de fadas, mas que tal tentar uma charmosa série de época, daquelas que trazem investigadores amadores resolvendo casos mirabolantes?

Miss Fisher’s Murder Mysteries (MFMM) estreou em 2013 e teve três temporadas, resultando em trinta e quatro episódios, disponíveis na Netflix. Ambientada em uma Austrália não necessariamente cozinhando em calor, há muito casacão, luva, carão e céu nublado.

Protagonizada por Phryne Fisher, personagem criada pela escritora australiana Kerry Greenwood, MFMM se passa na Melbourne de 1929, onde a ricaça, sexualmente liberada e multitalentosa Miss Fisher deixa o inspetor Jack Robinson maluco com suas intromissões sempre certeiras em casos de assassinatos, que envolvem aranhas em sapatos e coisas divertidas do gênero.

Miss Fisher’s Murder Mysteries é o tipo de série policial na qual a morte é pura diversão familiar. Nada de investigadores mais atormentados do que os criminosos. Também é utopia liberal, onde comunistas convivem com ricaças e moçoilas católicas ficam mais liberadas após contato com a descolada Miss Fisher.

Lembra séries clássicas de detetives amadores como, Casal 20 ou Murder, She Wrote, dentre tantos exemplos. O mundo anglófono ama essas séries até hoje, vide o sucesso das britânicas Father Brown e Grandchester. A própria Austrália possui The Dr. Blake Mysteries (como essa delícia não está em nossa Netflix?).

Uma diferença entre o cardápio contemporâneo de diletantes detetives e tantos outros do passado, é que muitos assassinatos vem embalados por situações históricas ou sociais, seja a Revolução Russa, a Primeira Guerra, seja a liberação feminina ou dissensões religiosas. Jessica Fletcher e o casal Hart viviam em um mundo onde não necessitavam conhecer História, Miss Fisher, sim. Mas, é ilusão, porque no fim, tudo é sempre reduzido a alguma questão pessoal primal, como ciúme ou vingança. Essa pseudoadição de conteúdo histórico fica mais evidente, quando se leva em conta que apesar de estar congelada em 1929, durante as três temporadas MFMM jamais é afetada pela grave crise que abalou o capitalismo naquele ano.

Nada disso importa, porém, porque MFMM é pra entreter após o jantar. Como Phryne é podre de rica e a década de 1920 ligada à opulência — 1929 é simbolicamente o fim da festa — o show é um encanto retrô na trilha-sonora jazzística espevitada; nos vestuários glamurosos, naquele jeito de série antiga, que não mostra muita nojeira e até o final tem formato de cine mudo, quando a filme terminava com a imagem sendo tragada pela negro, em forma de círculo. Tem episódio que é até em forma de coração.

Ao final do primeiro episódio já estamos apaixonados pelo Constable Collins e por Dot e mesmo Tia Prudence não demora a ficar um amor. E o que dizer de uma série onde o mordomo se chama Mr. Butler?

Essie Davis, de The Babadook (tem na Netflix) e Game Of Thrones, é um deslumbre como a feminista Phryne Fisher, que mesmo atuando como detetive particular há noventa anos, quase não se deparava com comentários machistas. O problema era sempre com e dos outros: Miss Fisher podia tudo, a não ser com o pai malandro. Mas, isso também não conta, porque MFMM é diversão charmosa, que tomara realmente ganhe o(s) longa-metragem(ns) prometido(s).


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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