blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Nem só de nordic noir vive a Dinamarca

Antes de a TV dinamarquesa tornar-se influente por seus dramas policiais, duas ótimas séries misturaram drama com aspectos da história contemporânea do país


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Matador é o nome dinamarquês do jogo Banco Imobiliário. A palavra também se refere a empresários. Esses dois significados explicam boa parte do que acontece nos 24 episódios de Matador, originalmente exibidos na Dinamarca entre 1978/82. Orgulho nacional e detentora do índice de audiência mais elevado do pequeno país, a série chega a ser usada em aulas de História para ilustrar como era a vida nas décadas de 1930/40.

Com humor e drama, Matador mostra como funciona a História socioeconômica através de cidadezinha fictícia, onde um forasteiro esnobado fixa residência, abre loja e por entender o valor do dinheiro na nova fase do capitalismo iniciada pela crise de 29 (e depois concluída pela Segunda Guerra), que limpa os atrelados à tradição, mas incompetentes na gerência de seus negócios e os preocupados com nome de família. A nova ordem capitalista bonifica quem trabalha duro sem se importar com origens (mas, que, quando se estabelece passa a se importar).

Mads Andersen-Skjern é protestante, não bebe, não pragueja, não fuma, é o sonho weberiano da moral protestante, que passa por privações para prosperar. Empresta dinheiro no fundo de sua loja, aproveita-se da ruina dos fazendeiros, tudo sob o pretexto de que trabalha duro e reconhece que tem que fazê-lo porque os herdeiros do banco e da loja de roupa locais – desadaptados aos novos tempos – jamais precisaram ser assertivos ou ousados, porque já ganharam as propriedades, ao passo que Mads tinha que construir suas posses.

Englobando o período de 1929 a 1947, a série também mostra como o capitalismo é maleável o bastante em seus acertos para que uma nova leva de negociantes e burgueses se junte aos sobreviventes adaptados às condições mutantes do modo de produção, que muda para permanecer inalterado.

Não desanime ou fuja quem desaprecia didatismo ou acha que arte não deve se misturar com o “meramente” político. Matador é muito bem roteirizado e planejado, por isso, essas e outras interpretações são obtidas mediante as ações/reações das personagens e não através de discursos em capítulos-aula.

A série apresenta personagens de distintas classes sociais e como lidam com preconceito, problemas conjugais, velhos costumes feudais se diluindo, conflito de gerações, escassez de produtos durante a guerra, a Resistência ao nazismo e muito humor dinamarquês.

Realmente nos interessamos e importamos com o amor Romeu e Julieta de Elizabeth Friis, do clã dos tradicionais Varnæs, e Kristen Andersen-Skjern, gerente do banco fundado pelo rival Mads; nos divertimos com os comentários da viúva de Fernando Mohge; torcemos pela e damos boas-vindas à transformação de Vicki; nos comovemos e desejamos que Herr Stein não seja capturado pelos antissemitas alemães durante a ocupação e nos emocionamos quando a até então frívola, neurótica e insuportável Maude torna-se um dos agentes que pode levar à salvação do contador.

O Tr(i)unfo de Matador reside na credibilidade das personagens; na perícia de manter uma história interessante por 24 capítulos; pelo elenco excelente que, aliado aos componentes técnicos, tornou todas as personagens quase como nossos velhos conhecidos; pela introdução de ideias, comportamentos e conceitos hoje totalmente introjetados quando pensamos em Dinamarca, mas que descobrimos recentes. Maior tolerância ao aborto, emancipação feminina e à homossexualidade são quase clichês quando se fala na pequena península. Matador explora as reações, motivações e posicionamentos sobre esses e outros temas.

Decepcionar-se-á quem achar que por tematizar a ascensão de voraz empreendedor Matador terá falcatruas à Revenge ou concentrar-se-á quase todo o tempo em Mads. A arrumadeira Agnes tem sua história tão detalhada quanto Maude, Hans Cristian ou Mads, até porque ela se torna uma espécie de paralelo deste.

Krøniken (2004-7) pegou o fio da história da Dinamarca contemporânea de onde Matador largara. A última termina em 1947 e os 22 episódios de Krøniken vão de 1949 a 1974. Isto posto, também é inegável a superioridade de Matador: Krøniken está longe de ser ruim, mas, o roteiro é menos sutil.

Em 1949, a provinciana Ida Nørregaard chega a Copenhague para estudar. Ela faria o tradicional curso de Economia Doméstica para agradar o pai, mas no fundo queria a escola noturna de nível secundário, então pensava em cursar ambos. Diante da regra de poder apenas escolher um, Ida segue sua vontade e passa a frequentar a escola de noite, sem apoio do conservador papai. Arruma emprego como secretária e grande fábrica de rádios e moradia com a comunista Karen, vizinha do social-democrata Børge e seu filho Palle.

Nos próximos 25 anos, assistiremos às interações desses núcleos – incluindo a família do proprietário da empresa, temperadas com suas conflitantes posições políticas, ao passo que de modo mais geral, temos um panorama da instalação da TV no pequeno país europeu e da experiência do estado do bem-estar social, uma vez que uma das personagens é o primeiro-ministro Jens Otto Krag.

Um dos dados que inibem Krøniken de atingir as alturas de Matador é que não disfarça muito bem seu caráter de loa ao partido social-democrata. Outro é que o caráter de folhetim permeia mais do que em sua antecessora. Ao final de Krøniken, a personagem “malvada” é punida com a solidão empedrada de um AVC num ato bem de “pagar pelo mal cometido à mocinha da trama”. Ainda que se goste de traços noveleiros, também há que se reconhecer a falta de sutileza.

O apontado não deveria, entretanto, impedir que se buscasse ver essa série. A produção é puro capricho e temos esboço de como essa Dinamarca idealizada como fosso de liberalidade veio se formando mentalmente. As mulheres reclamam do machismo o tempo todo, aprendemos como a coroação da inglesa Elizabeth alavancou a instalação da televisão na Escandinávia. Certo que os conflitos pessoais são prevalentes, mas a crescente americanização de uma cultura não passa batida.

Oxalá a TV dinamarquesa estatal faça outro passeio por décadas, começando dos 70’s e vindo até hoje. Afinal, nem só de Nordic Noir vive a Dinamarca.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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