blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

nós também queremos

Duas séries deliciosas, ausentes do catálogo da Netflix brasileira, mas presentes no argentino e outros.


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A Espanha é associada a sol, cores fortes, luminosidade, esportes e atividades vibrantes. A primeira temporada de Bajo Sospecha (2015), todavia, apresenta um país nublado, opaco e frio.

Os oito capítulos abrem no dia da primeira comunhão da pequena Alicia Veja, que desaparece. Como doze dias depois, persistia o sumiço, o Comissário Casas e um casal de agentes infiltrados na comunidade chega à pequena Cienfuegos para desvelar a teia de mentiras emaranhada pela família Vega para se autoproteger ou a algum querido.

Provavelmente no norte espanhol, a região florestal onde se localiza a aldeia é ideal para a influência Nordic Noir que Bajo Sospecha usa sem exagero e sem deixar de lado nossa dramática latinidad. Céus nublados, personagens de manga comprida, tomadas na mata, ausência de revólveres e perseguições ou explosões, além de bastante foco e atenção em diálogos são indícios da escandinatividade da produção, mas nada é exageradamente nórdico, então, não se trata de cópia. Apenas que Nordic Noir era a bola da vez em produções policiais, quando Bajo Sospecha foi idealizada.

A trama é boa e o desfecho surpreende em sua crueldade melodramática. Acostumados à duração aproximada dos 50 minutos por episódio, os quase 70 de Bajo Sospecha às vezes parecem exagerados; e olha que dez capítulos foram gravados! Os oito exibidos foram resultantes de edição de cenas. Talvez isso explique porque uma morte no segundo episódio fique tão solta e inconsequente. Não compromete a série, mas a duração excessiva dos capítulos de várias séries espanholas poderia ser repensada para fins de de competitividade internacional. Até porque, a reviravolta final insólita torna-a prato cheio pra refilmagem em língua inglesa.

A segunda temporada (2016) transfere a ação para a claustrofobia de um grande hospital madrilenho. Uma médica francesa desaparece e em seguida uma enfermeira é assassinada e outra sequestrada. Hora de infiltrar policiais no enorme edifício para descobrir as inúmeras tramas paralelas, que às vezes podem ter relação com a central. Lá dentro, grande teia de mentiras será descoberta, como de praxe nos thrillers espanhóis, que a imprensa local critica por serem inverossímeis, precisamente seu encanta.

Novamente, Victor Reyes, com sua cabeleira esculpida, será o policial disfarçado, desta feita de enfermeiro. À parte dele, apenas seu pai, o Comissário Casas e o sarcasticamente humorado Inspetor Vidal remanescem da temporada inicial. Vidal foi tão amigavelmente escroto, que deve ter cativado o público: apenas isso justifica sua presença longe de sua Cienfuegos. A policial Laura Cortés – cuja atriz fora massacrada pela crítica – desapareceu da equação. Mas, como o caso envolve francesa de pais graúdos, uma comissária à Saga Norén vai codirigir a investigação com o espanhol Casas. Sob suas ordens, um detetive francês, infiltrado no corpo clínico como médico.

É na relação e nas trocas verbais entre os policiais franceses e espanhóis que reside um dos aspectos mais antropologicamente curiosos de Bajo Sospecha. A afirmação de que a Europa começa depois dos Pirineus está escancarada ali, escrita por roteiristas espanhóis.

Outra graciosidade – provavelmente involuntária – é que a relação erótico-amorosa entra Victor e a Dra. Belén não tem um terço da voluptuosidade das trocas de olhares e toques do investigador Vitor e do francês, Alain, no começo inamistosos, mas, que, com o tempo viram camaradas.

Com relação à trama, Bajo Sospecha prende o interesse com seus vários suspeitos e reviravoltas ao som de insistente trilha tensa. Pena que o fecho careça de força dramática. e os produtores mantiveram os capítulos de 70 minutos e dessa vez sequer editaram para oito episódios. São dez e às vezes a peteca cai.

The Sniffer vem da Ucrânia e é um Sherlock Holmes misturado com House. The Sniffer traduz-se como O Farejador e isso se explica porque o protagonista é estiloso e arrogante detetive-consultor dotado de extraordinário olfato, sendo capaz de deduzir, à Holmes, detalhes de suspeitos e vítimas apenas aspirando profundamente o ar circundante. Apenas gatos são seu ponto fraco.

Apesar de alguns ambientes minimalistas demais, a cinematografia é linda, contando até com profissional de Downton Abbey, na segunda temporada, quando os produtores perceberam que tinham sucesso nas mãos. Os episódios são casos independentes, embora como de praxe nas séries atuais, existam tramas perpassando as temporadas, envolvendo a vida pessoal do Farejador. Essas são as partes menos interessantes, porque a ex-mulher dele é uma idiota chata e o filho rebelde não acrescenta nada, ao contrário, desvia o foco de casos que poderiam ganhar um bocadinho mais de tempo.

A qualidade dramática das histórias melhora progressivamente nessa série totalmente falocêntrica. As mulheres são vítimas ou insuportáveis. O centro é o Sniffer e seu amigo superior hierárquico, mas não intelectual, Major Victor Lebedev, espécie de Dr. Watson, com menos função dramática. Glutão e paquerador, é a personagem para a gente se identificar, porque com o Sniffer é difícil. Ele é liso e distanciado demais para facilitar nossa empatia, mas isso não significa que seja antipático.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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