blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Novos talentos negros

Três álbuns mostram que a safra de cantoras negras continua fértil.


quiana.jpg Quiana Lynell cresceu em uma família onde música secular não era permitida. Educada com coros de igreja e aulas de música desde o pré-primário, Lynell sabia que queria se dedicar à música e foi a primeira de sua família a fazer faculdade: estudou canto.

Com filhos para manter, a texana passou anos trabalhando em telemarketing até ter coragem e se dedicar a shows. Quando conseguiu emprego como professora adjunta em uma faculdade de música, a sorte de Quiana mudou. Contatos a levaram para o mundo dos grandes do jazz, culminando com shows na Europa, com nomes como Terence Blanchard, Herbie Hancock e Nona Hendrix.

Em 2017, Lynell venceu o Sarah Vaughan International Jazz Vocal Competition Award, permitindo-lhe gravar seu álbum de estreia, A Little Love, lançado dia 5 de abril. Executadas por bambas de palco e estúdio, a dezena de faixas se pretende como oásis para esse mundo conturbado por armas e ódios. Isso não significa que seja coleção de canções de amor e mensagens de otimismo. Lynell também tece críticas e conclama à luta, como na derradeira Sing Out, March On, com sua percussão marcial, coro e vocais poderosos.

Quiana tem voz privilegiada - e muito bem treinada – permitindo-lhe cobrir material já interpretado por gigantas como Chaka Khan, Ella Fitzgerald, Roberta Flack, Sarah Vaugham e Nina Simone. E sempre se sai muito bem. Ela se desloca de um blues mais safadinho (Hot Shakin’ Moma) para o gospel jazzificado de Come Sunday/I Wish I Knew (How It Would Feel To Be Free) com a mesma desenvoltura com que canta a sofisticação swinging, de Gershwin (They All Laughed) ou urban soul (We Are).

O título do álbum fala em um “pouquinho de amor”’. Com essa voz e repertório, Quiana Lynell merece bastante amor; um pouquinho é pouco demais.

Yolanda Quartey nunca teve vida fácil. Nascida em Bristol, amargou pobreza, teve pais ausentes, que lhe proibiam sua grande paixão, a música. Foi moradora de rua, em Londres; teve relacionamento abusivo; casa incendiada. Tragédias e tristezas suficientes pra talhar grande intérprete de blues, R’n‘B e country. Nem tudo são espinhos e a inglesa experimentou sucesso como vocalista do Phantom Limb e fazendo backing pro Massive Attack.

Em 2016, Yola iniciou carreira-solo, que a levou a apresentar-se num bar na sertaneja Nashville. Lá, ninguém menos que Dan Auerbach a descobriu e contratou-a pra sua gravadora, a Easy Eye Sound. Auerbach é o guitarrista-vocalista dos blues-rockers The Black Keys e tem produzido gente como Lana del Rey (Ultraviolence) e o mais recente dos Pretenders, ou melhor, Chrissie Hynde.

Dia 22 de fevereiro, saiu Walk Through Fire, estreia dessa mulher de 35 anos, que teve bastante tempo pra maturar e, por isso, e pela luxuosa produção de Auerbach, cravou trabalho marcante e desafiador de classificações. Co-escrito com Dan, o álbum tem dúzia de faixas, que trazem diversas facetas de country vintage, mescladas com outros estilos. Parece que saiu diretamente dos anos 1970, por isso a melhor alternativa seria classificar o trabalho como alt country, designação dada aos artistas, que não seguem a produção contemporânea.

O alcance da voz de Yola é vasto e ela escolhe demonstrá-lo já na faixa de abertura, Faraway Look. Seu vocal fortalece na mesma proporção que o arranjo se fortifica. A canção parece saída do finalzinho dos anos 1960, quando o pop barroco fortemente orquestral, misturava elementos de country e soul.

A exaltação de um lugar gentil na natureza, de Shady Grove, viaja ainda mais para trás: caberia com folga como trilha de algum western sessentista de um já velhusco John Wayne. O álbum é cheio de violinos e guitarras plangentes de música country, como em Ride Out In The Country, It Ain’t Easier e Deep Blue Dream. Em outros momentos, o subgênero vem imbricado com/em outros, como aconteceu na música de abertura. Em Rock Me Gently, vem mais pop; em Still Gone e Love All Night, com soft rock/easy listening e em Walk Through Fire, com spiritual.

Sem um tropeço sequer, lindas melodias se sucedem, atingindo ápices de esplendor, como em Lonely The Night. Vez mais, Yola e o arranjo começam discretos, para explodirem no refrão em lamentos orquestrais para ouvir sofrendo dores reais, inventadas e/ou inventadas.

Roy Orbinson aprovaria.

Victory Boyd nasceu em Detroit, uma de muitos membros numa família de músicos e cantores, que se apresentam como coral em escadarias de metrô e, mais recentemente, no nova-iorquino Central Park. Foi através de um de seus vídeos acústicos no Youtube, que a moça captou a atenção de Jay Z. Depois de um EP, ano passado saiu o primeiro álbum de Victory, The Broken Instrument.

Com sua jovem voz meio rouca, Victory cravou um trabalho sem erros, rico em influências e otimismo. É mesmo o trabalho de uma jovem entusiasmada com a vida, mas cônscia da existência de barreiras raciais.

The Broken Instrument abre com Against the Wind: começo discreto de violão e percussão, bem folk, para aos poucos se transformar em hino orquestral sobre encarar a vida. É o folk que informa boa parte do álbum, mas sempre com elementos de música negra e certa sensibilidade pop. Weatherman e First Night Together seguem essa linha, com suas inflexões gospel e soul.

Muito embora o influxo folk seja bem sentido, colocando Victory na tradição de Roberta Flack e da oitentista Tracy Chapman, o álbum percorre outras veredas. Jazz Festival é delícia de brisa, que abre discreta para desabrochar em sambinha-jazz. A Happy Song tem título autoexplicativo e clima balançante de Motown, que dá vontade de sorrir sozinho na rua. O mesmo alto-astral ocorre na midtempo Open Your Eyes, com sua batida começo dos anos 90. Who I Am é fluida e com discretos metais funk, com letra que reconhece a necessidade de luta por igualdade racial. Extraordinary é balada folkeada, que valoriza a singularidade individual.

O triunfo de The Broken Instrument termina com a faixa-título, dividida em três seções, a do meio, uma narração. Dramática, orquestral, a canção conta a história de um instrumento musical quebrado, que vai parar num lixão e é resgatado. A estória é metáfora para o poder divino em proporcionar redenção.

Sem preocupação em soar como a última tendência da produção musical, Victory venceu com um álbum orgânico, que demorará muito para soar datado, porque aposta no poder do canto e na acusticidade.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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