blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O crime como piada

Duas séries pouco conhecidas, na Netflix, onde casos policiais misturam-se com humor.


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Fallet (2017) é sátira sueca ao Nordic Noir, subgênero de séries policiais, que tem sido um dos campeões de exportação da televisão de países escandinavos, desde que Forbrydelsen virou fenômeno cult legendado na TV britânica.

Os oito episódios de cerca de meia hora são bem inteligentes e funcionam toleravelmente até como caso (fallet, em sueco) policial. Apreciarão melhor os mais acostumados às convenções das séries policiais anglo-escandinavas, mas especialmente dessas últimas. Recomenda-se imersão nas temporadas de BronIBroen (The Bridge), porque Fallet tem até vilão mascarado de porco. Mas, não é condição sine qua non: dá para entender/curtir sem sequer saber quem foi Inspetor Morse ou os Midsomer Murders, mencionados.

Um inspetor-chefe incompetente britânico e uma policial sueca igualmente desastrada e que tende a atirar em inocentes, para matar, são reunidos para resolver o assassinato de um cidadão britânico na pequena Norrbacka, na Suécia. Deflagrada por The Bridge, a cooperação entre policiais de distintos países é cada vez mais criticada por fãs de Scandi Drama, porque perpetra sofríveis interpretações em inglês. Em Fallet, o trabalho conjunto faz todo sentido, porque satiriza essa estratégia oportunista escandi para conquistar mercados.

Fallet tem todos os chavões formo-temáticos dos Nordic Noirs: Suécia escura e sinistra; chefe de polícia prestes a se aposentar; detetive emocionalmente remota (não há dúvida de que Sophie Borg seja a versão negativa da antológica Saga Norén). Mas, como é sátira, quase tudo sai errado ou a cena é feita no sentido de mostrar como a convenção é, na verdade, meio estúpida.

Exemplo: em qualquer série de detetive, existe mural na chefatura, cheio de fotos e setas sobre o caso, para o qual o detetive passa largo tempo olhando, até que epifania ocorre e ele raciocina algo que estava na sua cara, mas passara despercebido. Em Fallet, o policial bocó olha, olha, olha e nada acontece.

Há um caso a ser resolvido, porém, então nem tudo falha, mas, mesmo assim, Fallet mostra o quão improvável é o material satirizado. Depois de absurda reviravolta melodramática na trama, o DCI Tom Brown relembra em minuciosos flashes, uma torrente de detalhes e consegue desvendar o mistério.

Com personagens secundárias interessantes e até Dag Malmberg no elenco, para ficar claro que a sacanagem mor é direcionada a BronIBroen (Dag é o Hans, das primeiras – e melhores – duas temporadas), Fallet garante bons momentos de diversão leve, para contrabalançar a sisudez mórbida do Nordic Noir.

Na vida real, colocar dois policiais com perfis psicológicos muito contrastantes para atuar em parceria pode ser desastroso em termos de gestão de pessoas. O convívio próximo e diário entre gente que pode até se irritar mutuamente, dificilmente contribuiria para ações policiais harmoniosas e eficazes. Em termos dramáticos, porém, o par de policiais cão-e-gato garante conflito, combustível do motor que faz o drama se movimentar.

As duas curtas temporadas de Vexed (2010-2) exploram as diferenças de seu par central de tiras, com o intuito de fazer rir. O Detetive-Inspetor Jack Armstrong epitomiza o macho adulto branco insensível, machista, autocentrado, que sempre tenta levar vantagem em tudo com o menor esforço possível. Brilhantemente interpretado por Toby Stephens (o filho de Dame Maggie Smith), o atraente Jack encarregar-se-á de transformar num inferno a vida diária com suas parceiras mais propensas a resolver tudo dentro das regras.

A série da BBC tem a D.I. Kate Bishop, na temporada primeira, e a D.I. Georgina Dixon, na segunda, como parceiras-contraponto de Jack. Ambas são praticamente a mesma personagem, todavia. Alteraram-se atriz, nomes e características puramente cosméticas, o cerne das moças é igual. Elas querem fazer as investigações com mais método e aderência aos manuais, ao passo que Jack quer acabar tudo rápido para ir beber cerveja.

Vexed apresenta variados casos, como sequestro, desaparecimento, além dos tradicionais casos de assassinato. Os roteiros seguem a fórmula de qualquer show convencional de investigação: algo ocorre, apresentam-se suspeitos incorretos, reviravolta acontece e o caso é resolvido. O diferencial é que o casal investigador vive às turras e dão diversos foras durante os procedimentos. Mas, sempre acabam resolvendo tudo.

Valendo-se do tradicional humor negro inglês, Vexed desagradará fãs intolerantes de correção política, mas também jamais será exemplo de humor caustico e demolidor. Trata-se apenas de competente show de detetive, com inserções cômicas. Diversão sem muito compromisso para quem quer quebra-cabecinha policial, com algum humor.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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