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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O lado dourado do rock progressivo italiano

Il Cerchio d'Oro agradará aos fãs do rock sinfônico dos anos 1970.


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Il Cerchio d'Oro tem excelente desculpa para soar como rock progressivo italiano dos anos 70: foi formado em 1974, em Savona, e embora tenha sido popular e constante no circuito de shows, jamais conseguiu gravar álbum enquanto o prog rock desfrutava de apreço crítico e (certa) popularidade. Exceto alguns singles, nada de álbum até este milênio e mesmo assim, nada muito interessante, porque o material resgatado da época tem até coisas meio disco music. O negócio começou a ficar sério e interessante, a partir de 2008, quando um reformado Il Cerchio d'Oro lançou seu primeiro álbum de verdade.

Il Viaggio Di Colombo é conceitual e foca o percurso marítimo do genovês descobridor de nosso continente, mas não homenageado em seu batismo. Como a ênfase é no longo e desolador período que os navegantes passam perdidos no oceano, as letras em italiano refletem seu estado emocional, da empolgação do início, passando pelo desespero dos dias à deriva e o agradecimento pelo descobrimento.

Sonicamente, há equilíbrio entre guitarras e teclados e até espaço para o baixista e baterista, de vez em quando. Embora os arranjos não formem muralha compacta - longe disso, há bastante espaço para respiro - há momentos em que o som fica mais incisivo, mas nunca hard prog ou prog metal. Il Viaggio di Colombo é típico prog italiano dos 70’s, com produção moderna. Tem teclados vintage e atuais e os entremeios das canções são sonorizadas por ruídos de embarcação, assobios e amarras. Tudo bem melódico e com temas bonitos se repetindo, como deve ser num álbum conceitual, onde muitas vezes o instrumental reflete a letra, como a abertura andina da canção final, quando a América já estava no papo dos europeus. Se as canções tivessem menos espaço entre si, a ideia de álbum conceitual reforçar-se-ia ainda mais.

De modo geral, remete a Le Orme, Genesis, Banco del Mutuo Soccorso e Gentle Giant, em um momento muito especial de harmonia vocal. O vocalista dá umas espremidas de vez em quando, mas na maioria do tempo apresenta aquela expressividade que sempre destacou o rock progressivo italiano para as plateias anglo-ianque-germânico-escandinavas.

A versão em CD traz duas faixas-bônus. Embora jamais reclamemos de excesso da canções boas, elas não se encaixam ao conceito e mesmo à sonoridade geral do resto. Mas, como enjeitar duas plangentes composições na linha de Pink Floyd e Moody Blues? Basta lembrar que Il Viaggio di Colombo termina em Conclusione (Il Ritorno)

Em 2013, o quinteto voltou com Dedalo e Icaro, oito excelentes faixas sobre o mito grego do construtor do Labirinto e de seu filho que quis acercar-se demais do sol e espatifou-se contra o solo. Movendo-se da História para a mitologia, os italianos estão mais prog setentista do que nunca, tanto em som, quanto em tema.

Dedalo e Icaro tem arranjos bem mais concentrados do que seu antecessor. Sem ser prog metal ou mesmo metalizado, guitarras e teclados podem ficar apimentados a ponto de agradar fãs de grupos como Osanna e talvez até Deep Purple. Contando com convidados que tocam sax, flauta e bandolim, Dedalo e Icaro praticamente não tem como errar em seduzir fãs de rock progressivo italiano. Que fã de prog clássico consegue resistir a Uma Nuova Realtá, com seu órgão delirante em interplay com guitarra e bateria?

Il Cerchio d’Oro foi fundado pelos irmãos Gino e Giuseppe Terribile, respectivamente baterista e baixista, então, apesar de teclados e guitarras chamarem mais a atenção do ouvinte casual, a força condutora está na cozinha. E que cozinha! Note como em Labirinto, a coesão é dada pela costura do baixo e que em La Promessa, há locomotiva baterística por detrás das aparecidas guitarras plangentes e órgãos vintage.

Il Cerchio d’Oro é caprichoso em tudo, inclusive, nas capas, verdadeiras obrinhas de arte do prog contemporâneo. São miniquadros marcantes e no álbum de 2017, Il Fuoco sotto la Cenere, não foi diferente, com o vermelhão do fogo brilhando na capa.

Embora não possua tema unificador tão óbvio como a viagem colombiana ou o mito cretense, Il Fuoco sotto la Cenere (O Fogo Sob as Cinzas) é sobre várias formas de violência contemporânea, disfarçadas/camufladas/adormecidas/politicamente e corretamente edulcoradas, mas que quando eclodem, espalham brasa pra todo lado.

Bem executadas, as sete canções não se destacam em seus todos, contendo passagens e momentos interessantes, funcionando mais como pop-rock progressivo, com trechos meio pesadinhos à Purple ou psicoprog à Floyd.

A faixa-título tem mais de nove minutos, mas fica sinfonicamente prog apenas depois do oitavo minuto. Aí está o chave: Il Fuoco Sotto La Cenere não é para fãs de prog sinfônico; é mais para admiradores de retro-prog ou prog eclético, talvez para os de hard prog. De volta à faixa-título, está é para os cinquentões que porventura ainda se lembrem da abertura do seriado da Mulher Maravilha: notem como a melodia final se parece com o tema de Diana Prince!

I Due Poli ensaia clima meio sci fi com seus teclados e o teremim sempre dá ar outromundista.

Com composições menos sensacionais, as limitações esganiçantes dos vocais ressaltam, então Il Fuoco fica ainda menos interessante.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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