blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O triunfo do mau-humor

Uma minissérie excitante e formalmente instrutiva, para maratonar na Netflix.


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Paranoid não perde tempo em segurar firme o espectador que adora um mistério: na cena de abertura uma mãe é esfaqueada em um parquinho cheio de crianças. Isso, porém, é a pontinha do iceberg em oito capítulos.

Logo no capítulo inicial, a história já se ramifica para Dusseldorf e pouco depois um grande thriller de conspiração é montado, envolvendo megacorporação farmacêutica, profissionais de saúde corruptos, mãe mitomaníaca e até uma Quaker, numa trama envolvente, ainda que deliciosamente inverossímil. Embora sombrio, Paranoid não é construído do mesmo material niilista de conterrâneos como Happy Valley, Hinterland ou Broadchurch, basta comparar os finais. O diferencial da série é a construção do par central de detetives e o preço pago por se desviarem da convenção do policial atormentado, também presente em Paranoid.

O roteirista Bill Gallagher colocou uma trinca de policiais para resolver o caso e não o costumeiro par. Nina Suresh e Alec Wayfield são a atraente dupla de tiras sarados a frente do mistério. Competentes profissionalmente, são bastante infantis e falíveis no privado. Ele é filhinho da mamãe; garotão ainda na mamadeira. Nina beira o bullying com os companheiros, para, minutos depois, aparecer toda compreensão para com o pai de uma vítima. Sua insegurança e comentários infantis, contrastados com sua destreza ao lidar com seu ofício, sem dúvida, tornam-na mais multidimensionalmente humana. Mas, será que é isso que queremos de um par de policiais que precisa consertar o mundo, restaurar a ordem para que vivamos em paz? Na maior parte do tempo, Nina irrita e Alec não importa.

O terceiro é o arquétipo do investigador desiludido, atormentado e doente. Bobby Day é o cinquentão calvo com ataques cada vez mais agudos de pânico. Ele também tem sua vida particular destroçada, mas é em quem, em última análise, podemos confiar, porque não é um adolescente com um distintivo; é o cara que segue ao pé da letra o beabá da cartilha dos policiais, desde o cine noir. É o que, mesmo fragilizado, coloca um par de dedos nas têmporas e diz que não descansará até pegar o criminoso, enquanto suas mãos tremem segurando o frasco de antidepressivos. Bobby Day é aquele que sacrifica sua própria sanidade e saúde para nos proteger. Dá impressão que Nina e Alec estão ali mais porque são mais comercialmente atraentes do que o maduro Bobby Day. Mas, Robert Glenister rouba todas as cenas e engole Indira Varma e Dino Fetscher, cujas personagens se dariam melhor numa comédia romântica. Note de quem é a última cena e como Bobby Day cresce ao longo dos capítulos para perceber como a fuga da convenção do policial atormentado não deu certo. É ele quem segura a parte realmente policial de Paranoid.

Ponto discutível é a representação dos detetives alemães. Percebe-se a mesma tentativa de construí-los como “gente como a gente”, o que os faz parecer idiotas boa parte da história. Linda Felber é inacreditavelmente tola, quando conversando com seus colegas britânicos. E o que dizer de quando apresenta o parceiro a Bobby Day?: “este é o fulano; ele é gay”. Quem diz isso?

Considerando-se que o show é predominantemente anglófilo, dá sensação de paternalismo. Até parece que os eficientes germânicos são tão despachados e bobinhos assim. Mas, quando o passado dá um soco no estômago de Linda, daí ela engata na convenção e se torna policial eficaz. E quem alerta o espectador para que confie nela? Bobby Day, claro.

Esse abalo sísmico formal não destrói Paranoid. Pelo contrário. Porque a trama é bem urdida, ver o feroz embate entre diferentes convenções de personagens é experiência fascinante.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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