blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Para rir sem culpa

Existe forte vertente “malvada” de humor britânico: irônica, mordaz, autodepreciativa, polimorficamente perversa. Por ser bastante difundida, quando alguém se refere ao “humor inglês”, algo bem fleumático vem à cabeça. Há, porém, fatia bem escatológica e nonsense desse constructo que é o “humor inglês”. A Netflix possui alguns exemplos em seu catálogo brasileiro, do qual destacamos dois.


cucko.jpg Cuckoo já tem cinco curtas temporadas, exibidas pela BBC Three, a partir de 2012. O show preserva certa excentricidade tipicamente inglesa, enquanto a adequa para ser mais palatável, sem cair na padronização globalizante que deixa tudo norte-americanizado. A menção aos EUA não é mera farpa colonial; o país é capital na trama.

Quando o casal Ken e Lorna Thompson vão ao aeroporto buscar sua sem-sal filha Rachel, descobrem-na casada com um estadunidense new age, que não curte muito trabalhar, fala sobre paz e amor o tempo todo, enfim, um hippie em meio ao neoliberal cenário das Middlands. O contraste desse anacronismo ambulante, mais as patetices do filho boca-suja e escroto Dylan e de um casal de amigos, compõem o humor de Cuckoo, nome do marido de Rachel.

Esse título passa ser problemático após o fim da temporada um. O ator Andy Samberg estava ocupado em seu país-natal com Brooklyn Nine-Nine e deixou a produção britânica. Cuckoo desaparece no Himalaia, mas em seu lugar aparece o filho - que vivera isolado num bizarro culto asiático e depois na máfia chinesa - mantendo o nível de nonsense domesticado que seu genitor garantira. Na temporada quinta, nova mudança na invasão norte-americana. No lugar de Dale, filho de Cuckoo, chega a bilionária esnobe e falida Ivy, que no início parece mais uma poison ivy, deixando claro que o nome da personagem não é por acaso. Ou seja, mudam-se os atores, mas Cuckoo é sempre sobre um(a) norte-americano(a) infernizando, mas conquistando os Thompsons.

Há momentos algo doentios de “humor negro inglês”, como quando Ken acha que seu velho chefe se masturbara vendo um vídeo de Rachel transando na despensa da firma de advocacia. A revelação da verdade, numa reunião onde se celebrava a promoção de Ken é de tamanha incorreção política, que só resta rir.

Cuckoo pode ser acusada de aguar certa particularidade hardcore atribuída ao suposto “humor britânico”, mas qual nacionalidade de humor não tem seu quinhão de vulgaridade? O que fica é que quem curte escapar do que “todo mundo está vendo” e gosta de ser excêntrico na medida, deveria descer ao porão da Netflix e ver Cuckoo.

The Inbetweeners jamais será acusado de aguar a rudeza do humor inglês. Os dezoito episódios das três temporadas são para quem não tem pudores de rir do politicamente incorreto, escatológico ou explicitamente estúpido e pueril. O que começou como comédia perdida no mar de importados norte-americanos do acanhado canal E4, em 2008, transformou-se num fenômeno cult de massa, termo que soa anacrônico, mas descreve aqueles produtos não tão massivos quanto Friends, mas não tão minúsculos. The Inbetweeners está no meio até na recepção. Não virou carne de vaca, mas garantiu a maior audiência para o E4 até hoje, com um episódio de 2010, ano de sua derradeira temporada.

Quando a mãe de Will se divorcia, o esnobe adolescente com sotaque de classe média-alta, paletó e gravata e pasta 007 na mão, tem que se transferir para uma escola pública, onde sua nerdice atrai toda sorte de assédio moral e bullying. Ostracizado e humilhado, os únicos amigos que Will consegue são os eternos perdedores ostracizados e humilhados Jay, Simon e Neil. As desventuras desses quatro adolescentes suburbanos – interpretados por atores já adultos, como sempre – são o tema de Inbetweeners, cujo nome em inglês é uma alusão ao fato de teens não serem crianças nem adultos, estão na metade do caminho, então, querem se comportar como maduros, mas ainda possuem tantos traços infantis.

A série não se intimida em fazer piada com deficientes físicos ou professores pedófilos ou pais gays, aludir à morte de animais, botar adolescentes falando da forma mais nojenta possível sobre sexo, usar toda sorte de fluidos e excreções corporais para fazer humor. The Inbetweeners é jorro incessante de palavrões e obscenidades que apelam para nosso sentido de humor mais vulgar. E funciona! O mentiroso compulsivo Jay, as risadas patetas de Neil, a tirania amargurada de Mr. Gilbert (o Ken Thompson, de Cuckoo) são de gargalhar.

A cada episódio, o narrador Will narra uma trapalhada do bando. Ao final, no lugar da edificação pedagógica das sitcoms, os garotos não aprendem nada, ou melhor, até há uma relação do que aprenderam, mas é sempre coisa que não presta. É baixaria, mas não é hipócrita, porque nas sitcoms do “bem” as personagens sempre “aprendem” algo, mas passam temporadas repetindo erros, afinal, a ilusão de que aprendem algo tem que ser mantida. Há quantas temporadas Modern Family – que é uma boa série – insiste que Jay precisa mostrar mais seus sentimentos? Ele “aprende” em um episódio apenas para na temporada seguinte ter que “aprender” de novo. The Inbweteeners é mais honesta/sincera/pessimista (?): eles nada aprendem. E isso nos faz rolar de rir.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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