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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Pequenos clássicos perdidos

Dois álbuns semiesquecidos dos anos 1980, que merecem ser (re)descobertos


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A psicodelia pop de Robert Smith

No começo dos anos 1980, The Cure e Siouxsie & The Banshees eram importantes locomotivas underground, misturando psicodelia minimalista com pós-punk e ajudaram a definir – junto com o Bauhaus – a estética e temário do Gothic Rock.

Em 1982, Smith juntou-se ao grupo de Siouxsie Sioux para preencher lacuna deixada pela saída de John McGeoch. Na efervescência pós-77, projetos paralelos eram por demais comuns e o líder do Cure uniu-se a Steven Severin, baixista de Siouxsie, na banda The Glove, que jamais se apresentou ao vivo e legou pequena gema pop-psicodélica, chamada Blue Sunshine (1983).

Para o vocal, recrutaram a dançarina Jeanette Landray, que não sabia cantar, mas quem se importava com esse detalhe, após Johnny Rotten? Blue Sunshine é nome de obscuro filme de horror setentista, no qual consumidores de uma variante de LSD chamada Blue Sunshine tornam-se assassinos psicopatas.

A psicodelia está nas dez faixas. Parte da molecada pós-punk não teve vergonha de juntar Kraftwerk, synthpop, rock, krautrock para compor lindas e acessíveis melodias pop. Exemplo modelar disso é This Green City. Blue Sunshine é psicodélico como era o Floyd na era Syd Barrett e não fez feio perante seu predecessor. Mas, é popificado.

A Luva do nome do grupo é referência à gigantesca luva que aparece no Yellow Submarine, dos Beatles. Moçada não conseguia simplesmente destruir tudo do establishment como mandavam os punks. E tem Beatles na sonoridade, especialmente no music hall amalucado de Mr. Alphabet Says, cantada por Robert Smith e parente de The Lovecats, de seu Cure.

Além da profícua instrumentação, um dos prazeres de Blue Sunshine é pré-datar algumas escolhas sonoras do Cure. Basta ouvir como a guitarra circular de Like an Animal reaparecerá em Inbetween Days ou os teclados de Looking Glass Girl soam como os do futuro Disintegration. O orientalismo de The Top ou de faixas posteriores, como Kyoto Song, já está dado em Perfect Murder ou na derradeira Relax, que de relaxada só tem o título, porque é uma daquelas estruturas repetitivas comuns em lados B do Cure. Robert Smith estava em seu período imperial na primeira metade dos 80’s e Blue Sunshine é (d)ele, mesmo quando não canta, como em Punish Me With Kisses.

Considerando que as doze semanas alugadas no estúdio foram de alucinógenos e filmes de terror, a instrumental Blues In Drag surpreende com seu clima quase ambiente, à Brian Eno. Smith e Severin têm almas gentis, after all.

Devido ao aumento da popularidade dos Banshees e o estouro mundial do The Cure, The Glove foi guardada num armário e tornou-se “clássico perdido”, que de vez em quando, um blog ou outro desenterra.

Um precursor do pop como o conhecemos hoje

Em 1987, uma canção mudou o rumo da música pop. Parece exagero de saudosista 80’s, mas não é. Pump Up the Volume, constituída basicamente por samples de inúmeras canções e falação sobre base hip hop, cravou primeiro lugar na parada britânica e quase conseguiu entrar no Top Ten ianque. Isso por si só seria um feito, dada à impenetrabilidade norte-americana para o alternativo.

Pump Up the Volume era música feita por e pra DJs, para clubes hipsters e desafiava o conceito de autoria. Hoje é segunda natureza surrupiar trechos de qualquer coisa para compor qualquer coisa, mas há três décadas, as gravadoras ainda tinham poder sacrossanto sobre direitos autorais. Além disso, o single marcou a chegada do independente selo 4AD ao cume do Top Ten. A gravadora dos etéreos Cocteau Twins batendo majors como Rick Astley e até Wacko Jacko. Até nos rincões do conservador Brasil, dançava-se ao som de M/A/R/R/S, nome dos anônimos compositores da canção, até nisso precursores. Hoje é tão comum nomes de artistas que nem sabemos quem são, com grafias ingrafáveis.

O fundamental M/A/R/R/S foi evento único constituído por duas bandas da 4AD, que provavelmente não constarão nem no rodapé dos futuros volumes de história da música pop: AR Kane e Colourbox.

O Colourbox foi formado em 1982, pelos irmãos Steve e Martyn Young, e sua cantora “clássica” é Lorita Grahame, que entrou em 83 e é a voz das gravações mais conhecidas. Até 87, lançaram esparsos singles, EPs e um par de álbuns, nunca obtendo sucesso de massa. O trio é cult desde a época em que atuou, mas agora o acesso é facilitado devido à popularização de serviços de streaming e Youtube.

O álbum homônimo de 1985, chegou ao topo da parada indie na Grã-Bretanha e é outro `clássico perdido”.

O underground tem servido de farto pasto para o mainstream, que o digam Bowie e Madonna, sempre antenados para transformar o alternativo em mais palatável para consumo maior. A batida alucinada de Punch e Manic, que viraria estouro de sucesso até nas paradas da Billboard, já estava dada pelo Colourbox, em 85. Compare as locomotivas do álbum de estreia de Taylor Dayne, que entrariam até para trilha de novela global, com essas duas canções dos britânicos: as estruturas rítmicas de percussão e linhas de teclado são similares, parte de uma estrutura de sentido muito comum mais para o final da década.

O Colourbox não se popularizou, ou por problema de divulgação da 4AD ou porque a produção não é tão bombástica, quanto à do mainstream da época; o som parece meio distanciado, tem hora que parece vir d’outra dimensão. Novamente, evoco a comparação com Dayne, digamos Tell It To My Heart e/ou Prove Your Love, para notar como a sonoridade é diferente. O Coloubox soaria algo interplanetário para o ouvinte apenas do Top Ten.

Repertório não deve ter sido empecilho para a popularidade, porque é acessível e eclético (alguns dirão que até demais). Tem reggae/dub (Say You e Hipnition), balada à anos 50 (The Moon Is Blue), balada pop à anos 80 (Arena e Arena II), eletrosoul (Inside Informer), puro pop (Suspicion) e até Motown, na cover de You Keep Me Hanging On, das Supremes. Kim Wilde também regravaria o clássico, em 1986. Ouça as duas em seguida e veja como a do Colourbox é mais esparsa.

E como boa parte do M/A/R/R/S estava no Coloubor, claro, haver precursora de Pump Up the Volume. Just Give’m Whisky é uma espécie de cavalgada spaghetti punk, cheia de samples de filmes de velho oeste e séries obscuras, como The Prisoner (you are number six!) e até solo de guitarra. O repertório é tão diversificado, que abre com instrumental em piano elétrico, que parece anunciar um álbum de algum de seus companheiros mais etéreos de 4AD.

Colourbox para sempre permanecerá para poucos, mas os leitores podem fazer parte dessa seleta minoria.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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