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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

prostituição à brasileira

Livro reúne relatos de profissionais do sexo brasileiros, trabalhando na Europa.


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O professor aposentado da USP José Carlos Sebe Bom Meihy é um dos principais estudiosos do fenômeno da emigração brasileira. Seu livro Brasil Fora de Si (2004), que trata dos imigrantes brasileiros em Nova York, foi uma das fontes de inspiração para Glória Perez desenvolver a ideia de sua bem-sucedida novela América, exibida pela Rede Globo, em 2005.

A globalização, que intensificou o tráfico de pessoas para a prostituição, fez com que o olhar do pesquisador naturalmente se voltasse para as histórias de brasileiros que trabalham como profissionais do sexo, na Europa. Um dos resultados desse estudo é o absorvente Prostituição à Brasileira, lançado pela Editora Contexto, em 2015. O livro consiste em histórias de emigrados que se viram nas malhas do tráfico internacional de pessoas ou que, mesmo sem cair nele, habitam o mundo da prostituição, principalmente de Espanha e Portugal.

Utilizando a História Oral, onde entrevistados contam suas histórias de vida, Sebe tornou fascinante e acessível um fato muito importante do mundo globalizado. Com a relativa facilitação dos deslocamentos, a clichê “profissão mais antiga do mundo” também se transnacionalizou e pacatos campesinos potiguares ou pedagogas cariocas desiludidas podem, de um dia para o outro, encontrar-se em saunas gays ou fazendo o tapetão (prostituindo-se na rua) em alguma cidade do hemisfério norte. Como o capital não perde chance de levar vantagem em tudo, ele se organizou de modo a criar complexa e violenta rede repleta de vasos intercomunicantes, que têm na prostituição e no comércio da carne humana para sexo um negócio que movimenta milhões e envolve um sem-número de atividades periféricas, no mais das vezes, invisíveis a nós incautos.

As histórias sempre têm um misto fascinante e aterrador de miséria, sofrimento, ternura, tentativa de manter a dignidade (a maioria topa tudo na cama, mas guarda o beijo como dádiva para seletos eleitos), abuso, vontade de melhorar de vida e pró-atividade. Uma das virtudes de Prostituição à Brasileira é não vitimizar esses profissionais do sexo. Não que Meihy trate os pesados dramas com pouco caso. Pelo contrário, é sensível para perceber que sair do Brasil para tentar vida mais digna, fugir de um cativeiro e ir trabalhar como prostituta autônoma, ou mesmo resguardar o beijo, são expressões de agentes que se querem ativos, mesmo que o protagonismo seja modesto.

Cada história é precedida e sucedida por comentários e análises do autor. Desafiando pré-conceitos, esses trechos não são tediosos ou incompreensíveis para não acadêmicos. Levantando questões para debates, tirando conclusões das histórias, apresentando dados estatísticos e apontando necessidades de pesquisa e ação do poder público, o texto recheado de metáforas jamais cai na aridez aferida por tantos a livros escritos por historiadores.

Mas, o naco mais gostoso são as histórias. Na História Oral, as entrevistas são transformadas em narrativas, muito como num monólogo teatral. Para tornar a leitura agradável e fluida, as repetições e vais-e-vens da linguagem oral são eliminados e a sequência temporal é linear. Então, o leitor pode se emocionar, chocar, aterrorizar e até (sor)rir com experiências vitais tão ricas. Há horas que parece estarmos lendo ficção, de tão loucos os lances.

Prostituição à Brasileira suscitará debates entre os defensores das variadas e conflitantes linhas teóricas que acham guarida na academia. Por exemplo, no capítulo derradeiro, Elas, Eles...e Nós?, Bom Meihy alude a essa possibilidade de permanência de gente das ex-colônias na Europa e nos EUA como uma espécie de vingança colonial. Será? Essa posição não é um pouco cômoda demais? O fato de gringos nem mais precisarem tanto vir fazer turismo sexual nos países pobres (mas, vem, e como!) não parece mais entrega em domicílio? É certo que alguns emigrados conseguem se livrar da prostituição e fazer a vida por lá, mas, nos mesmos padrões de um europeu nato? Alguém já viu uma garota sueca trabalhando como empacotadora num mercadinho da Baixada Fluminense?

Poucas coisas na academia são mais salutares do que discussões, então Prostituição à Brasileira cumprirá várias funções: provocar, informar, entreter, emocionar.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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