blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Reinventando os anos 1980 – parte II

O St. Lucia possui três álbuns excelentes, que misturam sonoridades típicas dos anos 80, criando uma década que jamais existiu.


st-lucia-variance-magazine-jonathan-robles-18493.jpg

Clique aqui para acessar a primeira parte desta matéria.

Jean-Philip Grobler nasceu e criou-se na África do Sul, estudou música na Liverpool dos Beatles e se mudou para Nova York, onde vive até hoje.

Influenciado por Phil Collins, Sting, Radiohead, Fleetwood Mac, Boys II Men, Michael Jackson e boa parte boa da cambada oitentista, Grobler grava sob o nome St. Lucia. Ele até tem banda, mas St. Lucia é ele mesmo.

When the Night, o primeiro álbum, saiu em 8 de agosto, de 2013, pela Columbia, selo onde permanece. Quem vibrou com o segundo álbum-solo de Brandon Flowers ou o supergrupo indie Dreamcar, ou, para simplificar, quem ama o pop sintetizado da década de 1980, não tem motivo para desgostar de St. Lucia. O melhor da produção está nas onze faixas, sem o excesso das baterias eletrônicas.

A versão do Spotify tem uma dúzia de faixas, porque traz acústico dispensável de Closer Than This, que em sua deliciosa aparição original, lembra o easy listening oitentista do Fleetwood Mac. Dá até para imaginar Stevie Nicks entrando nos vocais. The Way You Remember Me é daqueles new waves para dirigir em freeway; tem até sax, instrumento-símbolo da saxodécada. Phil Collins realmente impactava nesse primeiro álbum: The Night Comes Again não tem como não lembrar seu No Jacket Required, mas sem soar cópia. E quer mais Phil do que o naipe de metais fake de Elevate? Wait For Love tem clima de aldeia africana recriada em estúdio nortista frio, tão Nick Kershaw, Howard Johnson ou símiles. Too Close é uma das delícias dançáveis com seus barulhinhos eletrofuturistas e bateria bem cadenciada. Ouça When The Night e diga qual grupo synthpop oitentista não usou esse riff de teclado. Mas, o álbum não é cópia descarada: September evoca Giorgio Moroder, mas sua estrutura repetitiva lembra mais o estouro techno já dos anos 90 ou um daqueles remixes que vinham nas edições de luxo dos álbuns do Pet Shop Boys.

No ocaso de janeiro de 2016, saiu Matter, que alcançou a altíssima posição 97 na Billboard, mas deverá ser obrigatoriamente conferido por todo amante da sonoridade da década de 1980, especialmente a da primeira metade, talvez mais especificamente entre 83-6. As onze canções têm arranjos mais encorpados que as da estreia e a fluência do St. Lucia nos idiomas musicais oitentistas deslumbra.

São tiques e retoques que se sucedem/reptem/sobrepõem, criando a sensação de uma década de oitenta inventada para o álbum. Home, por exemplo, não tem como negar o parentesco com alguma coisa de Michael Jackson imediatamente pré-Thriller, mas a chave é synthpop. Os seis minutos e meio de Rescue Me são locomotivas possantes, repletas de toda sorte de barulhinhos 80’s, mas sem deixar de piscar bem forte para 1999, de Prince. A caça por referências pode ir tão longe a ponto de identificar quais canções de Matter tiveram homônimos no decênio: aqui dou duas dicas, Do You Remember e Physical, esta última, quase inacreditável paulada eletrodançante, nível New Order.

Help Me Run Away é o tipo de power pop, que deixou Rick Springfield famoso e o arranjo de Stay é para ser estudado, de tão criativo e bem-feito. Abre com apitinhos de Carnaval e durante boa parte parece nem ter percussão, que, quando surge, enfim, não é bombástica, como a esperada num revival 80’s. Estudo de caso para arranjos que se metamorfoseiam aos poucos. Não quer ouvir álbum para estudar, apenas para se divertir? Então, não faltarão riffs adoráveis de teclado, como em Dancing On Glass e fofuchices, tipo The Winds Of Change.

Dia 21 de setembro, de 2018, saiu Hyperion, novamente com texturas luxuosas, mesclando elementos que não necessariamente caminhavam juntos nos anos 80. Em Walking Away, teclado grave e algo lúgubre coexiste com a aguda guitarra funkeada à Nile Rodgers. Em Gun, o St. Lucia faz quase um synth-AOR: é um clima bem powerpop, daqueles roqueiros, quase, cujo refrão soaria ótimo para uma trilha de comercial dos cigarros Hollywood, nos 80’s. Na calma Next To You, a batida é de bossa-nova.

Nesse álbum, percebe-se a procura por caminhos além-anos 80. Na catártica Paradise Is Waiting, o sul-africano lança mão da mesma batida e coro gospel que George Michael usou em Freedom, levando a um clima início dos anos 90. A deliciosamente pulante China Shop sintetiza elementos de música chinesa, com vocal que remete ao de Morten Harket e, mais para o fim, encaixar-se-ia tranquilamente num dos álbuns do Pet Shop Boys, da primeira metade dos 90’s. Nos seis minutos da derradeira You Should Know Better, o pop não se torna inacessível, mas há menos preocupação em melodia instantaneamente fácil.

Fica-se curioso pela trilha escolhida para o próximo álbum.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/musica// @obvious, @obvioushp //Roberto Bíscaro