blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Suculentos frutos da nova mpb

Amora e Conrado compartilham não apenas o sobrenome frugal, mas também saboroso talento, que dá gosto variado à nossa música popular.


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Amora Pêra é filha de Gonzaguinha e da Frenética Sandra Pêra. Longe crer que talento seja geneticamente transmitido, mas ser neta do Rei do Baião e sobrinha de uma das atrizes mais respeitadas de sua geração proporcionou ambiente favorável para que tivesse acesso a manifestações culturais e desenvolvesse inclinações artísticas.

Integrante do trio Chicas, desde 1996, ano retrasado plantou carreira-solo com o álbum A Dúpé — Nós Agradecemos em Iorubá. Em entrevista de 2011, Amora disse que seu nome frugal jamais lhe constrangeu. O máximo que acontecia eram chamarem-na de salada de fruta.

No país extremamente segregacionista, mas que adora projetar imagem de democracia cordial, A Dúpé utopicamente metaforiza a salada de frutas que gostaríamos que fosse a nação, onde um sabor completasse o outro e não houvesse um que sobrepujasse os demais. Xangô come Afrodite nesse universo sônico texturalmente rico de psicoodelia ioruba.

São quatorze faixas, onde spoken word é embalada por canto de cigarra (Amandla Is Nie Dood Nie) e poesia cercada por canto ritual indígena (Iláborigenis). Mas, não é só falação, há muita música boa e densa em A Dúpé.

A abertura Peço e Posso sintetiza o todo: abre etérea, mas logo vem batuque afro coexistindo com distorcidas guitarras de ácida psicodelia, que informa também o final de De Quem Vai. Por mais ioruba que essa superplugada geração urbanita se pretenda, a influência do Tio Sam é tentacular, daí o bilinguismo do indie rock Newsome e as letras em inglês na apenas vocálica e meio spiritual When I Die e no blues alternativo de Belong.

Fãs de MPB com letras de perscrutação emocional e interpretação dramática à “Atrás da Porta”, delirarão com a belezura de Quem Encorajaria. Tá Na Cara é meio Marisa Monte anos 90, embalada por atabaques. Vê Lá Nunca Mais dá show de violão flamenco e Canto Cigano de Uma Noite já traz sua marca de nascimento no título. Mas, nada nunca é tão simples em É Dúpé. Esses estilos estão mixados com outros. Playground parece caixinha de música lúdica para criança, mas começa a experimentar, assim como o coro afro do lamento Lágrimas do Sul não é bem-comportado e subserviente. Ouça focando nas vozes ao fundo e veja como se rebelam em relação à principal. Ficou mais orgânica do que a original do algo ligado-no-piloto-automático álbum de Milton Nascimento, de 1985, de onde foi extraída.

Melada com a forte voz de Amora Pêra, que tem hora parece cantar sorrindo, essa salada de frutas é colorida e suculenta.

Ao ouvir o belo álbum de estreia de Conrado Pera, você jurará tratar-se de um nordestino cordelista, conhecedor da tradição psicodélica de estados como Pernambuco, além dos cirandados ritmos locais.

Como local de nascimento pode não passar de acidente geográfico, Pera é, na verdade, paulista, embora radicado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Multi-instrumentista e filho de músico, dedica-se à intensa pesquisa de ritmos e canções populares desse imenso Brasil, desconhecido para tantos de nós.

Um dos resultados desse trabalho de prospecção musical é o intenso Enlaçador de Mundos, lançado independentemente, em 2015. Como bem dita o título, a dezena de canções percorre e une diversos subgêneros e culturas, além de reunir convidados.

Vem Plantar Tudo de Novo enlaça Nordeste com cítara indiana e Jangadeiros é maracatu atômico, ao misturar berimbau com guitarra. Quilombola tem participação de Janaína Pereira nas vocalizações sem letra de uma canção que africaniza, mas guarda parentesco com certa hipnose psicodélica.

Num álbum farto de instrumentos e timbres/harmonias vocais, Corredeira emocionará e sacudirá fãs de som tipo Dorothy e Dércio Marques, Elomar, Shangai, Luli e Lucina e tantos outros que pesquisa(ra)m nossos ritmos; neste caso, Conrado mistura moda de viola com baião. Ele ainda vem com frevo fervido em Fervim e coco, em Quebra-Coco (A Barra Pesa).

Cigana Vida realiza a integração de nossas raízes com as de nossos hermanos latino-americanos, com ritmo andino e letra bilíngue com espanhol. Fãs de MPB não se decepcionarão com faixas como Caminho, que tem o violino do ocupado Ricardo Herz.

Enlaçador de Mundos faz jus ao nome não apenas por reunir culturas, mas por enredar o ouvinte em seu planeta de belezas sonoras.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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