blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

um pouquinho de cinema latino-americano - parte I

Algumas produções constantes do catálogo da Netflix brasileira


the-lost-brother.jpg Numa pequena cidade colombiana - presumivelmente na década de 1970, devido à intromissão dos militares um par de vezes - o padre pensa que manda e desmanda. Substituto de um pároco mais leniente, o grisalho se recusa a rezar missa para o suicida Aimer, apesar desse pertencer à tradicional família católica. Intransigente, o reverendo ordena que o corpo de Aimer seja retirado do cemitério religioso. Se a família Zapata não o fizer em 24 horas, o vigário suspenderá a realização de todos os sacramentos (batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio). Essa é a premissa de O Suborno do Céu, (2016), do roteirista/diretor Lisandro Duque Naranjo.

Diante do autoritarismo do prelado, o ateu Allfer Zapata o desafia e não remove o corpo do irmão. Quando os sacramentos são cancelados – às vésperas da lucrativa Semana Santa – a cidade se divide e o roteiro explora diversos desdobramentos da rixa, como o desenvolvimento de um comércio paralelo e até mesmo a abertura do terreno para os evangélicos, que se aproveitam da inflexibilidade católica de se adequar a novos tempos.

Com simpatia claramente pendendo para o lado contestador, O Suborno do Céu também é a luta pelo poder entre um homem velho e um novo, ambos bastante inflexíveis em suas posições, a ponto de em nenhum momento questionarem porque diabos há tantos suicídios naquele lugar, que permite que longa lista seja elaborada.

O filme tem algumas cenas desnecessárias à trama central, cujo tempo poderia ter sido utilizado para aprofundar questões que deveriam importar mais ao roteiro. Mesmo assim, O Suborno do Céu tem o mérito de desencadear discussões, fazer refletir sobre hipocrisias e miopias dogmáticas, além de apresentar aos brasileiros, exemplar da filmografia colombiana, tão alienígena à maioria do público.

E já que o assunto é denúncia de abuso religioso em filmografias não tão populares entre nós, a Netflix também tem o poderoso El Bosque de Karadima, produção chilena, de 2015.

O filme mais recente do uruguaio Israel Adrián Caetano tem tudo para ser listado como cult. Radicado na Argentina, o diretor do ótimo Um Oso Rojo (2002) andava meio caído, mas El Otro Hermano (2017) deve ter sido suficiente para reconduzi-lo ao panteão alternativo.

Insistentemente pessimista, o filme foi inspirado pelo romance Bajo Este Sol Tremendo, de Carlos Busqued. Desconheço porque Caetano descartou título tão sugestivo em favor do genérico O Outro Irmão, conforme traduzido no catálogo da Netflix. A quentura do sol seria cortante contraponto irônico para a frieza emocional dessas personagens meio à irmãos Coen.

Javier Cetarti vem de Buenos Aires para o escaldante, semiárido e miserável norte argentino a fim de reconhecer os corpos mutilados e já apodrecidos de sua mãe e meio-irmão. Há anos sem contato com a família, Javier não se importa, só lhe interessa coletar o dinheiro do seguro e se mandar para o Brasil. Quem o auxiliará nisso é o falante resolve-tudo Duarte, que quando não está fraudando pensões e seguros dedica-se à honesta profissão de sequestrador, auxiliado por um meio irmão fajuto de Duarte. Fajuto, porque nem esse laço é real em O Outro Irmão: o moleque maconheiro é filho da primeira mulher do padrasto, ou seja, não tem nada a ver com Certati.

Falta ou falha de conexão emocional é o fulcro desta história onde ninguém se importa, restos mortais acabam na privada, o filho sequer consegue tocar a mãe em coma e não há herói com o qual se identificar. O Outro Irmão não serve para quem procura diversão escapista para esses tempos abundantes em ruindades globais. Não há redenção; é a lei da selva repercutida nos animais peçonhentos esmagados, no moleque viciado em documentários sobre vida selvagem e na avidez por grana, num ambiente no qual é escassa e parece não ter lei, a não ser a do acaso, caos ou sina.

Suspense, gore, western urbano e mais subgêneros se entrecruzam nesse meio de nada argentino, onde as roupas são sujas, as personagens suam o tempo todo, a trilha sonora é tão sinestésica como a de Paris, Texas (1984) e o elenco dá show, especialmente Leonardo Sbaraglia, como Duarte.

A Guerra Civil da Guatemala ocorreu de 1960 a 1996, entre o governo e vários grupos de guerrilha que a ele se opunham. Estima-se que cerca de 150.000 pessoas pereceram e 40.000 desapareceram.

Nesse contexto, atentados terroristas eram rotineiros. Em 5 de setembro, de 1980, uma bomba explodiu num terminal de ônibus na capital guatemalteca ensurdecendo o bebê Fausto Müller para o resto da vida e matando sua mãe. Trinta e sete anos depois, o irmão de Fausto, o músico e cineasta Kenneth Müller roteirizaria e dirigiria Septiembre, Un Llanto en Silencio, provavelmente o único filme guatemalteco da grade da Netflix.

Só por isso já deveria despertar curiosidade por uma checada, afinal, quantos filmes centro-americanos você já viu? Sintomático que os atores centrais sejam mexicanos; não deve haver mesmo indústria cinematográfica pujante no pequeno e pobre país. Isso deve ser lembrado para os devidos descontos para um roteiro que se desenrola aos sobressaltos e nada aprofunda.

Malgrado suas diversas falhas, Septiembre, Un Llanto en Silencio tem o mérito de apresentar uma personagem surda, mais humanizada, fazendo birra, se envolvendo com o cara errado, sendo sexy, desafiando o pai. Enfim, não se trata do deficiente como ser “especial” ou cuja defasagem é o centro de sua existência.

Müller transformou sua inspiração em personagem feminina e mostra um pai que ficou só e teve que enfrentar a barra de criar a filha surda. Ressente-se que a estória não tenha sido lapidada, mas espectadores formalmente menos exigentes poderão focar no aspecto humano da superação e apreciar Septiembre, Un Llanto en Silencio, que por si só já é história de superação, afinal, em cenário tão ofuscado quanto o da Guatemala, o diretor vendeu seu produto que custou 200,00 dólares à gigante do streaming.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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