blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

UM POUQUINHO DE CINEMA LATINO-AMERICANO - PARTE II

Algumas produções constantes do catálogo da Netflix brasileira


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Clique aqui para acessar a parte I.

Madre (2017) é a contribuição chilena para as narrativas exploitation, que colocam o estrangeiro/imigrante como ameaça à tradicional família. A América Latina sempre exotizada em filmes euronorteamericanos se vinga, colocando as Filipinas nessa posição.

Diana está grávida e não dá conta de tantos afazeres, além de cuidar do agressivo filho autista, nada parecido com os de séries inclusivas norte-americanas, como Parenthood e Atypical. Martin bate e cospe sopa quente na mãe.

Num casual encontro no supermercado, a dona-de-casa desesperada conhece Luz, que acalma a fúria de Martin. Contratada como babá e faz-tudo o mais, bem ao estilo latino-americano de relacionamento patroa-empregada, logo Diana começa a suspeitar que está sendo caçada pela friamente submissa filipina, que insiste em conversar com Martin no idioma de sua terra natal.

Madre não é nenhuma obra-prima original, mas tem cheiro de trama de pactos demoníacos da virada dos 60’s até meados dos 70’s. Faltaram grana e roteiro mais azeitado, mas do jeito que está, dá para se divertir bastante, e o final é bem do tipo que geraria e-mails de advertência, como os que contavam que alguém acordara numa banheira cheia de gelo, mas sem os rins ou fígado.

Também do Chile, mas em chave totalmente oposta, a Netflix oferece La Memoria del Agua (2015), onde Javier e Amanda separadamente lidam com o luto pela morte do filho, até que se encontram após uma nevada, evento favorito do finado Pedro.

O filme consiste das (inter)ações cotidianas das duas personagens e provavelmente só agradará aos acostumados a roteiros que não se baseiam no efeito dominó do drama. Mas, sabemos que tudo é informado pelo desespero agônico de haver perdido um rebento; segundo muitos, a dor mais devastadora pela qual pode passar um ser humano. Por isso, quando Javier dança numa discoteca, a música que ouvimos é triste e não o bate-estaca que motiva seus movimentos. La Memoria del Agua nos convida a entender o casal e pode ser lancinante, quando a pobre Amanda inadvertidamente tem que começar a fazer tradução simultânea de uma conferência, onde uma seção descreve como o corpo reage durante um afogamento.

Elena Anaya e Benjamin Vicuña estão impecáveis, num filme quieto e brutal, no diálogo final entre o ex-casal. O argumento de Amanda é deuma dor descomunal, mas faz todo o sentido.

A classe média é frequentemente objeto de sátiras e críticas por estar a meio caminho entre a destituição e a riqueza. Desfrutando do lado outlet do capitalismo; como os “pobres”, tem só sua força de trabalho para vender, então não pode virar classe alta, mas desconjura ficar baixa. Esse caminhar na corda bamba informa Showroom (2014), estreia na ficção do documentarista argentino Fernando Molnar.

O ótimo Diego Peretti é Diego, que perde seu emprego por ser maduro e desanimado e se vê obrigado a deixar sua vida classe-média portenha para viver no meio do mato, numa ilhota na vizinha El Tigre. Seu tio é construtor bem-sucedido e lhe concede emprego de doze horas diárias no showroom do Palermo Boulevard, torre de apartamentos chique, que Diego vende, mas não pode adquirir, embora não perceba isso. A pressão para vender, a necessidade de sustentar a família, a longa jornada de labor acrescida do duro e tedioso traslado d’El Tigre a Baires literalmente alienam Diego da família e de si mesmo.

O cine argentino já provou diversas vezes a competência para essas histórias mínimas, insistentes em flashes do cotidiano, que parecem dizer nada, mas contam parcela do mundo. Showroom pode não ser o melhor exemplo disso, mas é muito competente e interessante ao mostrar sem alarde – porque é assim mesmo que ocorre – a robotização de Diego e sua submissão inconteste a uma situação que elimina sua humanidade.

O problema de Showroom é que, como contraponto mal delineado da vida urbana capitalista selvagem, escolhe noção rousseauniana bom-selvagista bastante discutível. A ilha fluvial é apresentada como alternativa verde, onde a vida comunitária existe idilicamente, conquistando a filha e a esposa, no início resistentes em abandonar a cinzenta Buenos Aires. Mas o dinheiro que permite a subsistência das duas nesse paraíso livre de estresse é o do sucateamento de Diego. Isso jamais é problematizado e é um dos grandes dilemas capitalistas.

Como showroom para a reificação de Diego, Showroom funciona bem, mas sua oferta de solução do problema ainda está no século XVIII.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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