blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Um talento em busca de identidade

Kendace Springs já lançou dois álbuns muito agradáveis e bem executados, mas ainda parece tentear à procura de uma voz própria.


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Kandace Springs é da geração despontada no rastro de pólvora da internet. Filha de produtor musical da não apenas sertaneja Nashville, a jovem subiu vídeos na rede, chamou atenção, e foi convidada para talk shows importantes, jam session na casa de Daryl Hall, gravou EP com produtor badalado e acabou na mansão-estúdio do finado Prince, para tocar na comemoração dos trinta anos de Purple Rain. Foi aí que o gênio baixinho de Minneapolis deu-lhe o conselho faltante: seja você mesma. Parece óbvio, mas era o que Kandace necessitava ouvir. Para seu álbum de estreia, Soul Eyes (2016), a ex-guardadora de carros deixou a electronica do hip hop e concentrou-se em suas raízes soul, R’n’B e jazz. Ser filha dum músico que fez backing vocals para gigantes como Aretha Franklin e Chaka Khan ajudou no networking, mas se a cantora-pianista não tivesse talento, não seria fisgada pelo selo Blue Note, casa sagrada da música negra.

Soul Eyes traz quase tudo popificado para tocar em FMs de coroas e muitas faixas fazem pensar que já ouvimos aquilo. Tente delícias easy listening como Talk To Me, Place to Hide e Thought It Would Be Easier; não importa se a matriz é jazz ou soul, mas existe aquele reconforto de se sentir em território familiar. Isso funciona em outro nível: diversas canções são regravações, mas isso fica para descoberta do leitor-detetive.

Soul Eyes, a canção, é jazz esfumaçado com vozeirão Nina Simone e fica ainda mais chique quando entra o trompete de Terence Blanchard, que volta na igualmente classuda Too Good To Last. Leavin’ é balada gospel com coro e tudo. Neither Old Nor Young é perfeita para dimensionar o potencial da voz de Kandace, porque o arranjo é discreto. Também é ótima para mencionar que o ouvinte deve prestar bastante atenção no criativo piano ao longo de Soul Eyes, tocado pela própria Kandace. Novocaine Heart é fofa melodia mid-tempo com percussão de sambinha-canção.

Kandace Springs buscava seu nicho, mas Soul Eyes estreou bastante bem e pode agradar desde fãs de Burt Bacharach, passando pelos da New Bossa oitentista do Style Council e Everything But The Girl até a geração Norah Jones.

Seu segundo trabalho, Indigo, saiu pela mesma Blue Note, dia 7 de setembro, do ano passado e soa como se Springs não queira escolher uma etiqueta: entre originais e covers, a trezena de canções e vinhetas remete de Nina Simone a Portishead, com arranjos sofisticados, que unem o tradicional ao contemporâneo.

A sinuosidade da faixa de abertura, Don’t Need the Real Thing, com sua percussão africanizada prenuncia álbum caprichado. Totalmente deliciosa. Outra faixa com percussão bem marcada e interessante é o jazz esfumaçado de 6 8; seria muito legal se houvesse mix sem ela, para ver se a languidez dos teclados, a flauta fantasmagórica e os vocais totalmente relax dariam conta de segurar a canção.

Breakdown é balada de diva sofredora; Fix Me referencia o padrinho Prince na letra e tem piano à Chopin; Unsophisticated é sofisticado jazz defumado, à Chet Baker; People Make the World Go ‘Round é funk hipercomportado, que você só percebe ser funk pela estilização do pianinho e da percussão. Indigo tem para quase tudo que é gosto: até cover jazzificado muito bonito de The First Time Ever I Saw Your Face, que pouca gente conseguiria achar superior à perfeição de Robert Flack.

E aí está um dos pontos que Kandace tem que considerar para futuros trabalhos. É tudo muito bem feito/cantado, mas não se distingue ainda um selo Springs. Quando ouvimos Piece Of Me, a Sade de Soldier Of Love vem à cabeça na hora. Quando Springs canta “sometimes love is war”, difícil não imaginar como a Deusa anglo-nigeriana faria. Em Love Sucks, o peso da comparação ainda é mais esmagador: numa melodia com arranjo super 60’s/70’s, Kandace soa perigosamente como clone de Amy Winehouse, até com alguns maneirismos. Ficou bom, mas ela não é Amy (poucas são).

O problema nem é soar como cicrana ou beltrana, a questão posta fica sendo: se a cantora não achar sua própria voz e nicho, como futuras resenhas de artistas iniciantes poderão apontar que tal faixa soa como Kandace Springs?

Que isso não seja desestímulo para a audição de seus álbuns. São uma belezura.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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