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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Uma trilogia negligenciada

De uns anos para cá é comum o formato das trilogias, seja nas artes visuais, seja na literatura. A década de 1950 guarda uma trinca de filmes de ficção-científica, hoje praticamente esquecidos, mas que pode ser a primeira do sub-gênero.


Gog-marquee.gif O produtor independente Ivan Tors fez trinca de baixos-orçamentos estrelados pelo Office of Scientific Investigation (OSI), grupo de cientistas que usava geringonças, conceitos e ideias altamente tecnológicos para salvar o planeta. Talvez nem à época o público percebeu elo entre The Magnetic Monster (1953), Riders To The Stars e Gog (ambos de 54). Mesmo Richard Carlson tendo estrelado os dois primeiros, seus respectivos cientistas tinham nomes distintos. Não foram três filmes com aventuras em sequência, porque o conceito Star Wars ou Desejo de Matar ainda estava um quartel de século distante. Aventuras visuais seriadas restringiam-se aos agonizantes seriados de cinema ou à engatinhante TV.

The Magnetic Monster otimiza seus ínfimos dólares de produção, de maneira espetacular, porque o Monstro Magnético, conforme título no Brasil, não precisa aparecer e uns quinze minutos dos setenta e seis de duração são imagens de arquivo ou reutilizadas de produção sci fi alemã dos anos 1930. Demonizar personagem alemã era comum no cinema do imediato Pós-Segunda Guerra, mas usar coisas de lá sem que o público soubesse, tudo bem.

Os doutores do Escritório de Investigações Científicas recebem chamado de uma loja de ferragens, onde mercadorias estavam misteriosamente magnetizadas. Investigações concluem que isso foi obra de um cientista que brincou demais com radiação, por isso, além de morrer, criara monstrengo radioativo, que transformava energia em matéria ao comer a primeira e crescia em progressão geométrica, mas ainda cabia num container qualquer. Mas, se não fosse detido, destruiria o planeta. O único local onde havia esperança de detê-lo era num laboratório sob o mar, na Nova Escócia.

The Magnetic Monster é repleto de diálogos pseudocientíficos e boa parte de sua exibição é gasta em mostrar em operação, máquinas complexas para a época, além de muita imagem de espectrômetro. Também abundam os barulhinhos tecnológicos, já aludidos pelo narrador como “música da nova era tecnológica”. A então molecada do Kraftwerk e os nem nascidos synthpopers inspirar-se-iam nesses sons. E olhe que The Magnetic Monster nem tem musiquinha ainda, são apenas bips e blips de vários tons.

Hoje curiosidade de arqueologia cibernética, mas nem por isso menos fascinante para fãs de ficção-científica e vida vintage.

E como não aplaudir a criatividade do roteiro, que cria monstro sem precisar gastar dinheiro confeccionando-o, porque é energia ainda bebê, então dá para mostrá-lo como luminosidade em visor de algum aparelho? Malgrado o estratagema malandro para fazer filme sem verba, The Magnetic Monster acaba demonstrando a relação quase de fetichização erótica para com o maquinário high tech da década, que inundou os lares afluentes da classe-média ianque com aparelhos domésticos fabricados a partir de avanços do esforço de guerra quarentista. A molecada nerd e geek da época deve ter amado tanto botão e papo cabeça de ciência de botequim.

Em Riders to the Stars, o Office of Scientific Investigation sequer é mencionado, apenas aparece numa placa. Anos 50 definitivamente ainda não era tempo de franquias.

Riders é bem menos fascinante hoje do que The Magnetic Monster, porque seu roteiro pede mais orçamento. Talvez se ficasse na casa dos setenta minutos e não nos oitenta e um, ajudasse também.

Para poder estabelecer uma base orbital, era necessário compreender como os metais se comportavam, quando extraídos diretamente do espaço, sem a interferência da fricção causada pela brutal entrada na atmosfera terrestre dos meteoros, até então única maneira de coleta de minerais submetidos às condições espaciais. Monta-se então programa supersecreto, que mandará três foguetes ao espaço, numa rápida missão para colher asteroides. Mandar mais de um é bom para o roteiro, porque dá para explodir um e dramatizar algo com outro.

Mais de dois terços são gastos na seleção dos candidatos e em treinamento de astronautas, tornando Riders bem lento, mas também avô dos atuais docudramas. Como no monstro magnético, engenhocas de treinamento são mostradas, além de telescópios e afins. Apesar de na equipe selecionadora dos candidatos a pegar asteroides haver uma cientista, apenas homens são escolhidos. Isso porque na convenção dos filmes sci fi dos 50’s, a participação feminina na ciência era quase ilusão de ótica. O que o roteiro necessitava mesmo era de uma mulher para parear romanticamente com o galã-protagonista. Ser cientista apenas facilitava encaixá-la na trama.

Com imagens de arquivo dos famosos ratinhos desesperados pela falta de gravidade e enorme pressão a que foram submetidos, e sem mostrar o momento em que a espaçonave abocanha o asteroide, Riders to the Stars só vale se você quiser constatar algumas técnicas de treinamento usadas no programa espacial nos 50’s.

O que melhor equilibra exposição de maquinário tecnológico com ação é Gog, que deve ter saído por uns 250 mil dólares, então, foi possível caprichar um pouco mais.

Mortes misteriosas pela tecnologia sofisticada começam a ceifar cientistas e funcionários de uma base militar subterrânea ultrassecreta, onde estação espacial está sendo construída para vigiar o planeta, mediante satélite com câmera. A conclusão do porquê as mortes ocorrem, não apenas justifica o big-brotherismo do projeto, mas faz de Gog vovô simplificado de Black Mirror.

Em cores, hoje é risível quando o temido robô ataca, porque a rigor ele fica parado apenas mexendo os braços, mas na época deve ter sido absolutamente divertido ver mortes tão “científicas”, sem contar os experimentos e cientificices da exposição da trama, que ocupa boa parte do filme. Para a molecada que devorava quadrinho sci fi e o público que se cria cientista lendo revistas como Popular Science, Gog deve ter sido o máximo.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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