blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Veteranos com a corda toda

Álbuns recentes de grandes nomes de nossa música demonstram vitalidade.


x71963455_SCAngela-Ro-Ro.jpg.pagespeed.ic.AnxhtwhAeX.jpg Ao escutar o arrebatador galope épico de Tatanagüê, ouvintes mais experientes poderão cismar que ecoa o clima das canções de protesto, dominantes nos festivais de MPB nos meados sessentistas. Estarão cobertos de razão: o compositor de Tatanagüê é Theo de Barros, autor da antológica Disparada, covencedora do II Festival da Música Popular Brasileira, com A Banda, de Chico Buarque.

Já na metade da septuagenaridade, Theo tem biografia tão extensa e importante, que daria livro. Compositor, arranjador, instrumentista, produtor, empresário, Teófilo Augusto de Barros Neto fez trilha para teatro engajado, com Guarnieri e Boal; formou quarteto com o albino Hermeto e até fundou gravadora, a Eldorado.

Sem lançar muito e bem longe da grande mídia, Theo ressurgiu em maio de 2017, com o álbum independente Tatanagüê. Para as dezesseis canções, dezenas de músicos para executar os arranjos exuberantes e o paulista Renato Braz para cantar com excelência, a maioria delas.

As letras abundam em valorização dos elementos da brasilidade, como capoeira (Cavalo de Oxóssi) e mestiçagem, como em Mestiço, que idealiza, com melodia faceira, que a miscigenação tenha sido feita pelo amor, à luz de candeeiros. Em Fruta Nativa, o corpo da mulher é composto por frutas brasileiras e Três Vertentes versa sobre choupanas iluminadas por candeia. Quem hoje ainda canta sobre cambucás, em melodias tão lindas e sensíveis?

Tatanagüê traz convidados vocais: Monica Salmaso, na lenta seresta de Alguém Sozinho; Alice Passos, no irresistível samba de roda de Camaradinho. Dá vontade de aprender capoeira e fazer o corpo virar cata-vento. Mas, o holofote é de Renato Braz, que resplandece quando precisa ir às alturas conclamatórias da faixa título ou quando carece ser delicado, como em Cantiga de Beira-Mar.

Sofisticado como a melhor estirpe da MPB, musicalmente, Tatanagüê vai do pan-americanismo andino de Barco Sul à Renascença, em trecho de Três Violas. Mas, nunca é tão simples; a maioria das canções opera em mais de um sub-subgênero, vide a catirada no meio de Desafio, que abre soando meio como fado.

E como não quer fugir do espírito contestatório, quando você pensa que Tatanagüê chegou ao fim com a despedida de Desafio, o próprio Theo vem alfinetar a pouca-vergonha política atual com o sambinha violonado As Sombras. Depois do espetáculo orquestral-vocálico da quinzena de faixas irretocáveis, soa meio anticlimático, mas não estraga uma obra-prima.

Em 1978, Maurício Maestro (contrabaixo e vocal), Zé Renato (violão e vocal), Cláudio Nucci (violão e vocal) e David Tygel (viola 10 cordas e vocal) formaram o Boca Livre, que já naquele ano participou do disco "Camaleão", de Edu Lobo. Sem atrair as grandes gravadoras, o grupo lançou de forma independente, no ano seguinte, o LP Boca Livre, que ultrapassou a vendagem de cem mil cópias, marco inédito na música independente da época, com destaque para as canções Toada e Quem Tem a Viola.

Em junho de 1980, Claudio Nucci anunciou carreira-solo e ano seguinte saiu seu álbum de estreia. Ele fez sucesso nas rádios na primeira metade da década com canções como Quero-Quero, Acontecência, Pelo Sim Pelo Não e A Hora e a Vez. O pop brasileiro varreu das FMs comerciais praticamente toda a geração da virada dos 70’s para os 80’s, a não ser os que se adaptaram meio bregamente, como Zizi Possi e Fafá de Belém. Isso não significa que tenham deixado de gravar, mas longe dos grandes holofotes da mídia mais popular e com intervalos às vezes grande entre um trabalho e outro.

Há muitos anos sem lançar álbum autoral, em 2018, Claudio Nucci apresentou dezena de composições novas no álbum Integridade: parcerias com Felipe Cerquize, produção independente, lançada em março. Cerquize é poeta e compositor carioca; responsável pelas letras que agradarão em cheio aos amantes da MPB dos trocadilhos, aliterações e jogos de palavras. A letra de Rio de Março, samba ipanêmico duetado com Zelia Duncan, é um dos exemplos mais requintados da proficiência do letrista, demonstrando a relação de amor/ódio pelo/para com o Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Rio degenerou, Rio regenera).

Integridade é predominantemente sambado: nove faixas exploram elementos do ritmo nacional, podendo ir desde o samba com toques antilhanos dados pelo piano de Antônio Adolfo, em Certeza, ao samba-fossa, de Sempre Só, dueto com Lenine, com direito à sax tenor e tudo. Olhos D’Água une a ruralidade do Boca Livre ao sorriso e à flor bossa-novista, até porque Roberto Menescal participa.

Fluente na linguagem sambista, Nucci reserva o único momento longe do subgênero para um encantador dueto com seu filho Vicente. Sentimentos é tapeçaria de cordas e gaita, de folk MPB. Acaba se destacando da dezena de novidades, não apenas pela beleza intrínseca, mas pela própria diferença em relação às demais.

Integridade não é apenas o nome de seu mais recente álbum: descreve sua carreira como um todo, por manter-se fiel ao que considera música boa e bem-feita. Que Claudio Nucci não passe outros vinte anos sem soltar material próprio.

Ângela Ro Ro foi apresentada ao grande público, em 1979, através de seu álbum homônimo de estreia. O fim dos 70’s trouxe copiosa safra de vozes femininas, como Zizi Possi, Fátima Guedes, Fafá de Belém, Marina, antes de ser Lima.

Mais ou menos até 1983/4, Ro Ro frequentou assiduamente paradas de sucesso e noticiosos policiais, por seus escândalos. O BRock e as subsequentes ondas comerciais de lambada, axé, sertanejo, arrocha e sabe-se lá o que mais, varreram das rádios comerciais a turma da MPB, mas Ângela continuou compondo, sendo regravada, embora tenha diminuído bastante o ritmo de lançamentos. Pouco após a virada do milênio, a carioca dexintoxicou/emagreceu; apresentou talk show; foi merecidamente homenageada por cantores da nova geração.

Há oito anos sem lançar material de estúdio inédito, a cantautora retornou no fim de 2017, com as onze faixas de Selvagem, lançado pela Biscoito Fino.

Angela Ro Ro é uma espécie de Maysa Matarazzo pós-moderna nível hard e a (re-)afirmação dessa persona é muito importante, seja reiterando mundos que vivem caindo, seja personalidade forte. Ro Ro reafirma sua independência e gênio indômito na faixa título, com sua guitarra roquinho e no xaxado Parte Com o Capeta. Sua conversão para o vegetarianismo e para valorizar o lado cheio do copo (sem ironia pretendida) é relatada na popice oitentista de Caminho do Bem. Em Maria da Penha, a zonasulista Ro Ro ataca de samba do morro para denunciar a violência doméstica, enquanto Todas As Cores volta aos calçadões da bossa ipanêmica, exaltando o amor, o sorriso e a flor. Portal do Amor é bilíngue com inglês e clima bluesy e como todo álbum típico de emepebista de sua geração, o resto é balada competente e gostosa, tipo Meu Retiro, Nenhuma Nuvem e É Simples Assim. Com boas letras e vocal ainda potente, o calcanhar de Aquiles é a produção. Por contingência estética ou orçamentária, todos os instrumentos são executados digitalmente, então, Selvagem perde um bocado de sua potencial força, porque o som sintetizado carece de profundidade. Até soa como coisa produzida nos 80’s, mas isso não é necessariamente ponto positivo. Assim, Selvagem fica mais na palavra que na ação.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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