blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Vozes que merecem ser (mais) ouvidas

Três cantoras negras, que lançam ótimos álbuns, estão nas plataformas musicais mais populares, mas carecem de público mais amplo


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Quando não se tem estrutura promocional sequer de gravadora pequena, o artista tem que fazer bastante show e sua fama ir crescendo pelo boca-a-boca. Conya Doss e sua multiplicidade de influências encaixa-se na categoria. Sua sedosa competência vocal pode não ter fama global, mas longevidade e alta qualidade já lhe garantiram a alcunha The Queen Of Indie Soul. Natural de Cleveland e fã de Bonnie Raitt, The Doobie Brothers, Stevie Wonder, Prince, Nina Simone e símiles, Conya lançou seu primeiro álbum, em 2002, quando lecionava para crianças com necessidades específicas.

Merecidamente querida de sites especializados em música negra, Conya Doss lançou seu oitavo álbum em outubro. Clear tem treze faixas que agradarão muito a fãs de soul music de fim dos 70’s/primeira metade dos 80’s.

A maioria das faixas navega em variações de urban soul e quiet storm, muito elegantes, deslizáveis. Homogeneidade é bom, mas quando algo apresenta elemento diferenciador, imediatamente se destaca. É o caso do adorável chuvisco de piano em Until; o jazz mais proeminente de Don’t Rain ou a balada mais incisiva de Unbreakable. O único número agitado é a midtempo disco Get Off Of Your Ass e é só no final que aprecem as duas faixas com dado contemporâneo, trap. Em Hurricane, há que se prestar atenção para detectar o moderado nervosismo que acompanha o doce vocal e o pianinho. Misconception é onde a modernidade se faz mais audível e se Clear fosse inteiro nessa toada, não se destacaria do pedestre da produção atual.

Lynne Fiddmont está na indústria há um bom tempo e experiência é o que não lhe falta. Natural de St. Louis, já fez backing para Stevie Wonder, Natalie Cole, Phil Collins, Barbara Streisand e Seal.

Em carreira-solo também lhe sobra prática: ano passado, saiu seu quarto álbum, Power Of Love. Dúzia de covers e originais muito bem produzidos e difíceis de desagradar corações sequiosos por slow jams de soul e afins, em chave old school setentista/oitentista.

Navegando pelo soul jazz, como em Daylight, Go e Memory Lane, Lynne oferece produto elegante e extremamente bem cantado. Quando se distancia do urban soul predominante, ela também brilha. Power of Love, a faixa-título, é jazzy na tradição sexy chique, de Sade, com saxofone e tudo. Walkin’ On Rainbows é disco funk, momento mais saltitante de Power Of Love. Groovy People tem sabor Motown e quem amava Djavan nos 80’s, adorará o arranjo. E por falar em Brasil, é no sambinha que pretende virar sambão, de Good Time Party, que o álbum leva seu maior escorregão. Tentando contextualizar a diversão de festa do título, a canção tem incessante ruído de fundo de gente rindo e conversando alto, como se se divertindo. Pode acabar irritando.

Fiddmont faz duas escolhas corajosas de cover. Imagine troca o predomínio de piano de Lennon, pela supremacia das cordas e transforma o clássico em soul. Para os fãs deste estilo, porém, o grande desafio é Lovin’ You, da falecida Minnie Riperton. Trata-se de uma das canções mais idiossincráticas da soul music e não poucos consideram definitivos o arranjo destemidamente doce de Steve Wonder e o alcance vocal de Minnie. Lynne Fiddmont se sai bem ao não tentar imitá-la, num arranjo mais jazz mainstream esfumaçado, cujo vocal intensifica-se e sofistica-se aos poucos. Ficou outra coisa, ficou boa.

Lori Williams é filha da rigorosos pais batistas, cresceu ouvindo gospel, na capital norte-americana, mas expandiu seus gostos para Prince, Michael Jackson e vocalistas de jazz, à Anita Baker, aos quais, aliás, os álbuns de Lori servem como luvas. Influenciada pela mãe professora, Williams se formou docente e hoje divide seu tempo entre festivais de jazz ao redor do mundo, lecionar, ensaiar corais, fazer backing vocals para gente como Maysa Leak e Phil Perry e lançar álbuns.

O mais recente é Out Of the Box (2018), cujo título refere-se a sutil guinada estética. Em 2017, Lori Williams já soltara single “fora de seu quadrado”: Déjà vu foi popularizada mundo afora, em 1979, por Dione Warwick, mas não é jazz, com o qual Lori sempre esteve associada. Trata-se de elegante soul. Esse é o pensar fora da caixa da norte-americana: ela abraçou um estilo mais neo-soul ou soul jazz, que não pode escapar do radar de quem ama Quiet Storm, Acid Jazz e adjacências. O álbum é deleite do começo ao fim. Desde a elegância dos nuançados arranjos de confeitos dândis, como Sailing On a Dream, que farão a glória de fãs de FM sofisticada de fins dos ‘70’s até hoje. A voz sedosa de Lori merece que retornemos para ela um dos versos de I Like The Way You Talk (To Me): I love the sound of your sweet, sexy voice.

Quem aprecia Anita Baker, Maysa Leak, não pode deixar de ouvir Out Of The Box, aliás, Maysa participa de Where’s That Smile. O álbum tem algumas faixas com vozes masculinas duetando ou participando, tem uma que até começa com dialogo meio sexy à Barry White: Let’s Walk, cuja percussão orgulharia Sade. Our Love is Real parece lenta de Rose Royce, começando. O único momento jazz mais denso e só com piano é a clássica ‘Round Midnight, da lavra quarentista de Thelonious Monk. Lori Williams tem voz treinada o suficiente para dominar o complexo fraseado jazz, mas em um álbum de arranjos tão polidos de neo-soul, a canção fica meio fora de lugar. Mas, longe dizer que compromete.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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