bodega bay

Amenidades & Surrealidades… ah, e pássaros.

Anna Claudia Fernandes

Anna Claudia gosta de poesia, filmes iranianos e o bom e velho Rock N'Roll. Tem o GPS quebrado e o pensamento abstrato. Ainda assim, uma boa pessoa.

Samba

Tenho para mim que contar sobre um filme ou livro é como dar um presente já revelando o que tem dentro do embrulho, ou seja, acabar com o prazer que é a surpresa. Por conta disto minhas descrições cinematográficas são breves. Prefiro demorar-me nos olhares, nos sorrisos, nas entrelinhas. Meu desejo (e também presente) à todos leitores de meus bestiários é que assistam, ou caso já o tenham feito, que vejam uma vez mais esta dádiva francesa. Para entendermos que todos os cidadãos do mundo possuem uma história e uma identidade. Que todos possuem medos, desejos, esperanças. Que todos merecem uma chance. Samba, é que desejo a todos.


O ano de 2015 não poderia terminar para mim sem um bom filme francês para encerrá-lo. Samba, dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano, aqueles mesmos de “Os intocáveis”, trazem como protagonista o simpático Omar Sy, que como no filme comparativo repete o carisma em priorizar o humor sobre um tema pesado capaz de causar lágrimas suficientes para inundar todo o cinema se assim o quisesse. Ao contrário, Samba rende boas gargalhadas flertando com o humor e com o romance sem esquecer entretanto, seu teor central, conseguindo assim distribuir pitadas dramáticas aqui e ali, fazendo disto um filme perfeito que nos leva a reflexão sem perder a leveza a que se propõe, ao que parece, um pouco diferente da obra original de Delphine Coulin.

Samba - Omar Sy e Tahar Rahim.jpg

Samba Cissé, imigrante senegalês vive há uma década na França, sobrevivendo em subempregos enquanto luta nas horas vagas por seu visto que acredita, lhe trará além da liberdade, a oportunidade de uma existência mais digna. Alice (Charlotte Gainsbourg) é uma executiva que, afastada do trabalho após um surto, busca no serviço de voluntariado em uma associação de apoio a imigrantes ilegais, a coragem necessária para retomar sua própria vida. Wilson ( Tahar Rahim) africano que viu na possibilidade de assumir uma identidade totalmente nova, um “jeitinho” para enfrentar as dificuldades. Estes são os personagens principais deste enredo engraçado e ao mesmo tempo realisticamente triste.

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A imigração ilegal tema tão atual hoje na Europa e que respinga também para outros países no mundo, a exploração do trabalho, a invisibilidade e a diversidade são assuntos recorrentes em toda a película. Samba é um retrato do mundo atual. Por diversas vezes enquanto o via solitário lavando pratos em uma cozinha, pegando restos de comida em uma marmita para levar para casa (certamente um direito concedido por patrões benevolentes) ou ainda sujeitando-se a ofertas de trabalho aquém de seu potencial não pude deixar de solidarizar-me com seu sofrimento. Nosso país também tem muito Samba e infelizmente não só no gênero musical. Tem samba nos haitianos, argentinos, estrangeiros de todas as partes que vem tentar um lugar ao sol em nossas terras. Muito Samba no povo que madruga, que apinha-se em ônibus e metrôs para chegar ao trabalho. Muito Samba nas indústrias, nas ruas, no grito das feiras. Muito Samba nas sinaleiras, nos comércios de ruas, na lavoura. Em suma, samba sobretudo representado pela desigualdade social. E como nosso Samba Cissé, totalmente invisíveis apesar de suas grandiosidades e seus sorrisos que iluminam o mundo. Contra todas as adversidades trazem contudo, algo que somente os muito fortes possuem, a incrível façanha de nunca esmorecer e apesar dos pesares, sempre levantar a cabeça e afirmar que está tudo “beim”.


Anna Claudia Fernandes

Anna Claudia gosta de poesia, filmes iranianos e o bom e velho Rock N'Roll. Tem o GPS quebrado e o pensamento abstrato. Ainda assim, uma boa pessoa..
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