bodega bay

Amenidades & Surrealidades… ah, e pássaros.

Anna Claudia Fernandes

Anna Claudia gosta de poesia, filmes iranianos e o bom e velho Rock N'Roll. Tem o GPS quebrado e o pensamento abstrato. Ainda assim, uma boa pessoa.

A Juventude

A vida não é nenhum filme de Paolo Sorrentino mas bem que poderia. Não que ela fosse economizar nas frustrações, nas trapalhadas, nas rasteiras, nas lágrimas, nas loucuras, nas atribulações. Nada disso. Ela traria no entanto, um cadinho mais de beleza, de boa música, de graça, de euforia. Ela traria leveza aos nossos dias e com isso nos sentiríamos sempre jovens. Poeticamente.


O belo e o grotesco. O velho e o novo. A nobreza e a sordidez. Todos estes elementos entram em cena uma vez mais no longa " A Juventude" (Youth), que traz um verdadeiro espetáculo às telas do cinema. O encontro de dois jovens amigos próximos aos oitenta anos em um luxuoso hotel spa nos Alpes Suíços, suas vidas com todas as alegrias e angústias pertinentes, relembradas em meio a uma fotografia de perder o fôlego e música que preenche a alma. Só isto já valeria o valor do ingresso não fosse ainda a sessão de terapia gratuita a que somos conduzidos. Em um mundo cada vez mais rejuvenescido, onde ostentar fios brancos ou revelar a verdadeira idade equivale a passar um atestado de insanidade deliberado, nesta obra de arte são apenas ingredientes a mais para uma óbvia constatação: todos iremos envelhecer. Independente de todos os cuidados estéticos a que nos submetamos ou a toda gama de pensamentos edificantes que nos faça sentir vivos, a verdade é que chegará o dia em que nosso corpos já não acompanharão a todas nossas vontades e seremos ainda reféns das peças pregadas por nossa mentes, memórias e sentidos. Muitos buscarão rotas de fugas, caminhos alternativos, pontos de equilíbrios ou qualquer coisa que venha a reverter a sensação de tempo fugidio. Pura tolice. Ele é tão inexorável quanto complacente. Na mesma medida comparativa: duro, ainda que suave. O segredo está na sensibilidade com que é concebido. Voltando ao filme, a primeira vista poderá parecer um pouco deprimente observar um atleta antes aclamado pelo mundo, em uma patética tentativa de superação de limites a um corpo com muitas camadas de anos e gordura chutar uma bolinha de tênis em uma triste reconstituição de feitos anteriores. Uma acompanhante que passeia de mãos dadas com seus clientes. A senhora, escrava do Alzheimer, que passa o dia a olhar debilmente para além da vidraça. O casal, cujas palavras não mais proferidas às refeições, as deixam fluir de forma visceral , no meio do mato, junto a uma árvore. São estes personagens que circundam este mundo surreal e encantador e são estas cenas que dão um toque a parte revelando traços tão característicos da direção de Paolo Sorrentino.

E como não poderia deixar de ser, a exemplo de " A Grande Beleza", saímos do cinema com aquela inquietaçãozinha ainda que pouca incômoda mas que fica dias ali, cutucando, espetando: não, não é só a sensação de estarmos envelhecendo, a bem da verdade isto não tem tanta importância. É a sensação de não estarmos sendo jovens realmente, de não estarmos vivendo a vida em toda sua plenitude, assim como Sorrentino nos apresenta.

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Título original: La Giovinezza ( Itália)

Data de lançamento 31 de março de 2016

Direção: Paolo Sorrentino

Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Jane Fonda.


Anna Claudia Fernandes

Anna Claudia gosta de poesia, filmes iranianos e o bom e velho Rock N'Roll. Tem o GPS quebrado e o pensamento abstrato. Ainda assim, uma boa pessoa..
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