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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

À LUZ DE BOB MARLEY

A história do Rei do Reggae é marcada por muita resiliência, resistência, amor e persistência. Os ideais defendidos pelo cantor, guitarrista e compositor jamaicano são vivenciados por ele em sua trajetória, e mesmo uma exaustiva pesquisa sobre sua vida não contempla todas as suas nuances. Esse artigo busca uma breve contribuição no sentido do reconhecimento e valorização de Bob Marley para que a luz multicolorida desse artista nunca deixe de brilhar na mente e no coração da humanidade para preservação da natureza e superação da pobreza, da exclusão, e de todas as formas de opressão, com senso de justiça, bondade e igualdade.


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Bob Marley (1945 – 1981) era filho de militar branco e adolescente negra. O último contato com o genitor foi aos 5 anos de idade, e ainda jovem foi morar com a mãe e padrasto numa favela de Kingston, na Jamaica, onde era constantemente zombado pelos negros por ser mulato e baixinho. Bob e seu meio irmão Bunny improvisavam instrumentos e captavam sinal de rádio com precariedade para o acesso a músicas nacionais e americanas. Logo receberam apoio com aulas de canto gratuitas do nativo Joe Higgs, e conheceram Peter. Em 1962 houve a produção da primeira música de Bob “Judge not” (Não Julgue), por Leslie Kong. Em 1963 Bob, Bunny e Peter, promovidos pelo percussionista Alvin Patterson gravam com o produtor Coxsone Dodd o primeiro som "Simmer Down" (acalme-se) direcionado aos “rude boys”, grupos negros marginalizados do gueto em que viviam, como forma de solicitar paz e paciência. Assim, a banda "Wailing Wailers" (inicialmente como espaço para letras com lamentações), posteriormente denominada apenas "The Wailers" teve excelente aceitação do público do país. Bob então passou a compor outras canções que também entraram para o primeiro álbum “The Wailing Wailers” de 1965. As letras de sua autoria abordavam lamúrias resumidas na melancólica “Hurts to Be Alone” (a dor de estar sozinho), mas certamente se destacavam outras músicas do disco como a adaptada “Ska Jerk”, enquanto o verdadeiro “empurrão” do estilo Ska que a banda adotava, dançante e com referências do R & B (Rhythm and Blues). Em 1966 Bob se casou com Rita, uma jovem mãe solteira que ele conheceu num estúdio de gravação (e que realizou uma linda biografia de sua história em 2004: “No Woman no cry’). Bob, no entanto, passou 8 meses nos Estados Unidos, a pedido de sua mãe, onde trabalhou como soldador e feriu os olhos. No mesmo período se difundiu ainda mais a cultura rastafári na Jamaica devido a visita de Haile Selassie, imperador da Etiopia, que havia sido profetizado pelo falecido e heroico jamaicano Marcus Garvey, como líder responsável pela redenção dos negros em todo mundo, e que foi reconhecido como o verdadeiro Messias (representando Deus na Terra). Bob em seu retorno passou a adotar a religião fazendo uso da maconha, e do dread, que Coxlone não se identificou, e que com isso o fez abrir a própria gravadora com a banda em 1967, que não prosperou.

O segundo álbum de Bob Marley veio somente em 1970: Soul Rebels (rebeldes da alma), utilizando a nomenclatura “soul”, mas sem adotar este estilo de música negra americana. Apesar do título provocante, Bob escreve com otimismo optando pela calmaria e o culto à felicidade como estado de espírito eterno (It´s all right – Está tudo bem). Bob contou com produtor Lee Perry, o baixista Aston "Family Man" Barret e o irmão baterista Carlton. Bob transmitiu mensagens que usava a carência de água para a interpretação da necessidade de cuidado e desejo de afeto, que teria influência direta na simpatia humana, sua forma de lidar, dirigir a vida e de reagir, o que funciona dinamicamente e sempre em movimento.

No ano seguinte o novo álbum “Soul Revolution” (também regravado apenas na versão instrumental) já se encontra um discurso mais politizado, embora ainda pacífico, pedindo o fim de brigas e confusões e citando a nova terra e a África, além de buscar o empoderamento dos sujeitos e autoestima para independência e libertação da ‘Babilônia”, termo emprestado pela cultura rasta para a suposta civilização da cidade, que baseada em traços de dominação não poderia oferecer a paz almejada.

O quarto álbum “The Best of The Wailers” (que apesar do título como o melhor, traz músicas inéditas) foi lançado por Leslie Kong uma semana antes de falecer com ataque cardíaco. Bob escreve sobre festa, vibração e alma, ainda bastante otimista e entusiástico, e revela em suas letras que está fazendo o seu melhor, e ainda que o processo seja lento. Bob também traz elementos de apreciação da natureza como sol, dia, montanha, colina, além do otimismo simplista pela observação das crianças e liberdade de ir e vir (e viajar).

Posteriormente a banda foi a Europa atender convites que não deram certo, mas Bob com sua persistência utópica procurou o estúdio de Chris Blackwell em Londres, que era um produtor jamaicano influente que buscou promover a banda pelo diferencial de serem negros no cenário do rock (estudiosos já admitem que a raça negra seja criadora do ritmo, mas isso nunca foi reconhecido comprovadamente, sendo creditado o início do rock pelo registro de um branco que surpreendeu o mundo nos anos 20: o famoso Elvis Presley). Bob assim recebeu investimento para o álbum que conforme acordo foi produzido na Jamaica e entregue meses depois. Assim "Catch a Fire" (“pegando fogo”, que era uma gíria jamaicana), que teve apoio de muitos músicos, recebeu pesado investimento de Blackwell, que projetou Bob Marley ao sucesso mundial já em 1973, com letras sobre desigualdade social e luta. Depois de turnê na Europa e Estados Unidos Bob Marley foi presenteado com a própria gravadora de Blackwell (Island House), na Jamaica, que transformou a mansão em núcleo de criação de acesso livre para toda comunidade e demais interessados, onde também desenvolveu ações filantrópicas como doações de alimentos.

Com a alegria da missão lançaram o sexto álbum “Burnin” (incêndios) no mesmo ano, que foi admirado por Paul McCartney, Mick Jagger, e teve uma das canções regravadas por Eric Clapton. O sétimo álbum "Natty Dread" (1974) estourou com a música “ no woman no cry”, com a letra creditada à Vincent Ford, embora teóricos creiam que seja do próprio Bob que doou autorias para esposa e amigos. O oitavo álbum "Rastaman Vibration" (1976) aumenta a fama de Bob nos Estados Unidos focando no reggae, mas já não havia mais os antigos componentes da banda e a ideia de um show gratuito apartidário quase tirou a vida do cantor por uma tentativa de assassinato, que, contudo, não o fez desistir e ainda consagrou sua humilde frase: "As pessoas que estão a tentar destruir o mundo não tiram um dia de folga. Como posso eu tirar, se estou a fazer o bem?" (história inclusive contada por Will Smith em cena do filme “Eu sou a lenda”). Esse álbum também teve a música War (guerra) que transcreveu o discurso que o imperador da Etiopia teria feito 40 anos antes, sobre racismo e escravatura.

A partir daí Bob passou a produzir um álbum por ano: Exodus (1977) com sucesso em músicas como One Love (um amor) e Jamming (curtindo); Kaya (1978) que seria o álbum da música mais famosa de Bob: Is this love? (isso é amor?”), Survival (1979) com a previsão da independência de Zimbabwe, com canção em nome do país, que em 1980 passou a adotar bandeira com as cores do movimento rastafári: verde (enquanto esperança e vegetação), amarelo ou ouro (pela paz e riqueza da terra) e vermelho (enquanto sangue, luta e poder), assim como na Etiopia, contudo tendo o preto enquanto representação das etnias africanas e o símbolo de uma ave à esquerda. O décimo-segundo álbum Uprising (1980) consagrou internacionalmente o som de “Could You Be Loved” (Você poderia ser amado) e a música mais poética e dolorosa de sua trajetória: Redemption Song (canção de redenção). Bob desenvolveu um tumor no dedão do pé que os médicos sugeriram amputação, mas ele negou em virtude de sua religião que o impedia de retirar qualquer parte do seu corpo, buscando tratamento naturalista na Alemanha por 8 meses, contudo desenvolveu um câncer que se alastrou a órgãos vitais levando-o ao falecimento antes de seu retorno à família na Jamaica. Assim como se diz que uma estrela brilha mais forte antes de se apagar, Bob estava em auge de carreira quando partiu.

Além dos 12 álbuns produzidos em vida, e mais 4 álbuns ao vivo, foi lançado um último dois anos após sua morte em 1983 com alguns trabalhos inéditos e diversas regravações. Bob Marley também foi regravado com novas capas de álbuns e por muitos artistas famosos, e ainda teve inúmeros prêmios e homenagens, tanto em vida quanto pós-morte e uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood em 2001. Vale ressaltar que Bob nunca teve incentivo para área musical por parte de sua mãe, que cobrou sua colocação profissional desde os seus 14 anos de idade receando que ele se tornasse um “rude boy”. Bob ainda relevou as zombarias de sua comunidade respondendo com amor ao invés de vingança ou rancor, e percebemos que sua ideologia revolucionária era passiva e pacífica. Com tanto talento, perseverança e positividade em seus intentos, Bob Marley virou o jogo da pobreza e exclusão em que vivia e deixou seu rastro de luz para as novas gerações de todo o mundo.


Vanessa Trincheira

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