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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

INDEPENDÊNCIA OU CARÊNCIA – UMA LIÇÃO ESPECIAL NO SEGUNDO ÁLBUM DA BANDA CAPITAL INICIAL

Até que ponto uma intensa proximidade contribui para a saúde de uma relação? A partir de questões como essa que Capital Inicial, banda de rock brasileira da década de 80, produziu uma música que visa analisar como podemos fortalecer nossa identidade, autonomia e até autoconfiança através da “Independência” e da confiança na “distância entre nós”.


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Capital Inicial é uma banda de rock brasileira da década de 80, composta pelo vocalista Dinho Ouro Preto, o baixista Flávio Lemos, seu irmão e baterista Fê Lemos, o guitarrista Yves Passarell e pelos músicos de apoio Robledo Silva (teclado e violões) e Fabiano Carelli (guitarra e violão). Seu surgimento provém da antiga “Aborto Elétrico”, que o cantor Renato Russo (da posterior banda Legião Urbana) fazia parte. O grupo revelou que as letras do segundo álbum, lançado em 1987, foram quase todas escritas por eles em somente um mês, e o destaque foi aquela que nomeou o álbum: independência. Até a capa do disco foi feita de forma independente por Ico Ouro Preto, irmão do vocalista Dinho Ouro Preto. Embora a musica seja bastante simples e repetitiva, vale a pena nossa reflexão quanto ao seu objetivo. Assim, devemos perceber até que ponto a dependência afetiva e a persistência numa proximidade contínua dilui as possibilidades de valorização da nossa própria identidade. “Toda essa curiosidade Que você tem pelo que eu faço Eu não gosto de me explicar Eu não gosto de me explicar Toda essa intensidade Buscamos identidade Mas não sabemos explicar Mas não sabemos explicar” Nesses parágrafos os componentes da banda demonstram um pouco da confusão que ocorre quando num processo de conquista o interesse por alguém, em tudo que faz, se confunde com uma pura “curiosidade”, e que com isso a necessidade de explicações (e justificativas) são desnecessárias. Além disso, a intensidade do envolvimento e da participação na vida de uma pessoa, buscando afinidades, pode parecer amedrontador e invasivo, e se “não sabemos explicar” é porque também não entendemos os motivos que nos levam a agir assim quando a conhecemos. Então o desejo de ser especial frequentemente nos põe numa posição de observador e questionador de todos. ”Se paro e me pergunto Será que existe alguma razão Pra viver assim Se não estamos De verdade juntos” Neste trecho não fica claro se o casal supracitado não estava “de verdade junto” porque ainda não havia iniciado um relacionamento, ou se mesmo distante havia uma busca de informações e controle em tudo que o outro fazia ou deixava de fazer. De qualquer forma a pergunta principal do eu-lirico seria da “razão” ou motivo de tanta “curiosidade” e “intensidade” sobre a vida alheia, e no refrão da música se aponta uma saída desta situação: ”Procuramos independência Acreditamos na distância entre nós Procuramos independência Acreditamos na distância entre nós” No clipe oficial da canção o cenário da região sul-fluminense do estado do Rio de Janeiro, conhecida como Costa Verde, engrandece o sentido de liberdade proposto. Os elementos escolhidos como o percurso da banda na estrada Rio-Santos e numa lancha, as arvores, as montanhas, o mar, as pedras, o vento na cara, os gritos, os braços que se abrem, e até as roupas claras e leves parecem cuidadosamente pensados para se visualizar e sentir a independência que a letra proclama. A natureza demonstra-se acolhedora e a paisagem principal relacionada ao tema abordado é da Ilha Botinas, um belo cartão postal da cidade de Angra dos Reis, que se trata de ilhotas similares separadas por aproximadamente 20 metros. Contudo se pode perceber certo contraponto neste mesmo espaço, e o mesmo lugar poderia ser trabalhado com conceitos inversos a independência, como isolamento, carência, e tristeza, se assim o produtor desejasse. ” "Toda essa meia verdade A qual temos nos conformado Só conseguimos nos afastar Nós aprendemos a aceitar Tantas coisas pela metade Como essa imensa vontade Que não sabemos explicar Que não sabemos saciar” Neste ponto os compositores reconhecem alguns riscos da procura por independência, como a “meia verdade” que nos conforma sobre o outro, quando sabemos e/ou expomos pouco. A falta dessa comunicação, importante em toda relação afetiva, também causaria afastamento e uma aceitação das “coisas pela metade”, porque com o dialogo escasso não há doação ou entrega por inteiro, e com isso não há satisfação plena dos imensos desejos. ”Se paro e me pergunto Será que existe alguma razão Pra viver assim Se não estamos De verdade juntos Procuramos independência Acreditamos na distância entre nós Procuramos independência Acreditamos na distância entre nós Toda essa curiosidade Toda essa intensidade Toda essa meia verdade Tantas coisas pela metade” Por fim, o resumo dos principais itens da música num som tranquilo nos faz retomar todo aprendizado de muitas vezes a distância de um casal é necessária e importante tanto quanto sua profunda aproximação, e a mensagem especial que ela nos deixa é de que devemos evitar uma aproximação excessiva e optar sempre entre viver experiências positivas independentes ou constantemente sofrer, se isolar e se lamentar por carência afetiva. OBS: quem desejar pesquisar sobre a história da banda verificará que ela já teve várias formações durante sua trajetória e sempre valorizou a independência de seus membros.


Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias! Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante.
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