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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

"Por que que a gente é assim?"

Barão vermelho de Cazuza e Frejat nos deixa dúvidas e lições que até hoje não completamente equacionadas, e que na tentativa de compreensão podemos refletir diversos aspectos relacionados ao uso e abuso de álcool e outras drogas, a imersão em situações conturbadas e a aposta em relacionamentos confusos, porém profundos e duradouros para a completude de um ser.


download.jpg http://fikdik.net/melhores-drinks-para-tomar-na-balada/ Cazuza e Frejat a partir da banda “Barão Vermelho” fundada na década de 80 compuseram uma famosa música que se intitula com esta sábia pergunta. Apesar da letra ter cerca de 30 anos, ela aborda questões bastante atuais, tanto que até hoje não saberíamos responder, pois a gente não age nem se comporta com a coerência do que desejamos ser ou receber. Assim, por exemplo, ao mesmo tempo que queremos paz, amor e saúde, costumamos importunar, odiar e nos desgastar física e emocionalmente nas relações interpessoais.

“Mais uma dose?/ É claro que eu estou a fim/ A noite nunca tem fim/ Por que que a gente é assim?”

Por que sempre aceitamos “mais uma dose”? Tentamos compensar o nosso vazio existencial com o uso e abuso de álcool e outras drogas, portanto, é de se esperar que iremos aumentar o número de “doses” de álcool por exemplo, quanto maior o sofrimento que pretendemos amenizar, além disso, constantemente nos sentimos preparados para receber cada vez mais doses de alegria e de satisfação. Assim como ocorre com os psicotrópicos, isso funciona com alguns elementos do nosso comportamento, pois quando experimentamos algo por diversas vezes acabamos nos tornando viciados naquela determinada emoção, não sendo mais possível controlar, reforçando quimicamente aquele hábito em nosso Sistema Nervoso Central e a resposta neurológica correspondente, e isso muitas vezes vai pro nosso inconsciente nos fazendo agir constantemente de uma mesma maneira, de forma mecânica e pouco racional ou razoável, portanto o mesmo ato como de beber vai ter distintas interpretações de acordo com a sua percepção de cada um sobre si e sobre o mundo, e das análises e associações que se relacionam com a sua bagagem teórica e experiência de vida. Então, determinados fatos ou atos podem gerar sentimentos de frustação, rejeição e angustia para alguns e euforia ou excitação para outros.

Por que “a noite nunca tem fim”? A pretensão de noites infinitas de curtição vem da busca infindável de fontes de prazer, só que por trás desta falsa liberdade de viver (ainda que bebendo do seu próprio sustento ou mantendo a disposição necessária para o trabalho nos dias seguintes) encontra-se armadilhas, de uma profunda carência humana e de uma severa dependência afetiva que este sentimento de isolamento, abandono e solidão gera, inclusive contribuindo para posteriores noites longas de insônia, lamúrias e de pensamentos de tristeza ou baixa autoestima, já que após repetitivas situações de rejeição e abandono o ser humano se torna frio, ou acaba se sujeitando a permanecer em relações abusivas, manipuladoras, irrisórias e até constrangedoras. A condição de fraqueza e desespero que muitos vivem ao deitar em seus travesseiros após dias cheios de culpa, acusação, remorso, mágoa, medo, insegurança, instabilidade etc. deixa as noites quase que inconsoláveis, de tanta preocupação e ansiedade, que acabam por criar a urgência de uma companhia noturna, seja pela rua nos bares ou na cama de um lar, com um companheiro e parceiro que se possa confiar e relaxar, por outro lado esses são os momentos mais reflexivos segundo a revelação de importantes poetas e escritores, que contam fazer uso desses momentos mais trágicos na elaboração de seus textos.

“Agora fica comigo/ e vê se não desgruda de mim/ Vê se ao menos me engole/ Mas não me mastiga assim”

Por que os compositores solicitam a partir do eu lírico que ao menos pudéssemos “engolir” ao invés de mastiga-los? Por que será que a gente é tão individualista se a gente precisa de amor? Cazuza e Frejat pareciam adivinhar que estaria por vir toda essa intolerância contemporânea da nossa excludente cultura conservadora, inclusive sobre a figura do Cazuza, personalidade já tão mal digerida, massacrada e castigada pelos falsos moralistas da nossa época. Infelizmente está escassa a sensibilidade humana de exercitar a compreensão das necessidades do outro e o reconhecimento das qualidades incomparáveis de cada indivíduo, uma vez que as pessoas utilizam os valores próprios no julgamento alheio. Assim, quanto menos exercitamos a empatia, a solidariedade, a compaixão e nosso senso de justiça, menos também teremos disso na nossa própria vida.

"Canibais de nós mesmos/ Antes que a terra nos coma/ Cem gramas, sem dramas/ Por que que a gente é assim?"

Por que mesmo com tão pouco tempo de vida no mundo somos “canibais de nós mesmos”? Tendemos a nos segregar em pequenos grupos, e buscamos algum grau de pertencimento e aceitação, mas quando não há adesão de um membro optamos pela marginalização mais do que pela ótica da inclusão, e numa contradição ainda maior desejamos com todo nosso instinto a intensidade do prazer imediato, mas entregamos e apostamos toda felicidade de uma vida inteira e a salvação das nossas dores através de alguém que possa nos amar, beijar e devorar exatamente da maneira que somos, com todo nosso conteúdo, cada “cem gramas”, e de preferência “sem dramas”. Nisso se revela a importância de sermos descobertos, conquistados, valorizados e “devorados”, um apelo comum da sociedade de que precisamos nos tornar especiais e nos sentir completamente amados até a morte.

"Você tem exatamente/ Três mil horas pra parar de me beijar/ Hum, meu bem, você tem tudo/ Pra me conquistar/ Você tem exatamente/ Um segundo pra aprender a me amar/ Você tem a vida inteira/ Pra me devorar/ Pra me devorar!"

Toda história e trajetória da banda “Barão Vermelho” pode ser encontrada num livro com o nome dessa música, lançado em 2007 pela Editora Globo. Muitos grandes cantores regravaram as músicas de Cazuza, mas a opinião pública não é unânime quanto ao seu reconhecimento, sobretudo a partir do preconceito e discriminação com seu estilo de vida. Não se sabe o porquê, mas muita gente é assim.


Vanessa Trincheira

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