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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

A VIDA NEM SEMPRE "PARECE UMA FESTA", MAS COM A BANDA TITÃS FICA BEM MELHOR.

Toca-se nas melhores festas e na jornada da vida que nos afeta:
Titãs - Uma banda paulista de 1982 criativa e de muitas influencias, que foi fundamental não só para o cenário oitentista do rock brasileiro (que se eternizou) como para fomentar uma nova visão de mundo.


rosto-titas.png http://www.titas.net/

Um documentário de 2009 sobre a banda Titãs denominado “A vida até parece uma festa”, baseado principalmente nas edições dos vídeos de Branco Melo (vocalista e baixista), demonstra toda leveza e alegria de ousados rapazes que desde o primeiro grande sucesso “sonífera ilha” são destaque na cena do rock nacional.

Além da euforia contagiante de Titãs nos palcos, há significativas letras em suas músicas que contribuíram muito para revolução nos parâmetros culturais e de percepção dos papeis sociais. Sem a pretensão de esgotar e explorar todos os sucessos da banda, podemos ao menos perceber treze letras transformadoras, contra algumas ideias conservadoras. Seguem abaixo as mensagens principais:

1) “Diversão é solução para mim” (Diversão)

Uma palavra que resume a carreira da banda Titãs seria essa: diversão. Nessa canção específica, em que a frase inicial deu nome ao documentário já referenciado (“a vida até parece uma festa”. A noção de diversão reafirma-se pelo uso de drogas para a fuga de situações como angustia e solidão, o que nos faz pensar se realmente não seria uma estratégia temporária para se alcançar algum prazer.

2) “Queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer...” (Epitáfio)

Toda música parece uma poesia. O clipe foi premiado, e este produtor posteriormente convidado a participar do documentário citado. Cenas de pessoas felizes em ambientes de descontração e simulação de tantos momentos especiais em família fazem a gente repensar nossas atitudes enquanto estamos vivos, de forma que não fosse tão duro se pudéssemos fazer um inventário final da nossa existência.

3) “Família, família, janta junto todo dia, nunca perde essa mania” (Família)

Clipe de situações similares em diversos lares. O relato na letra é de hábitos saudáveis como jantar junto (e outros nem tanto como uso de “inseticida” por “medo de barata” e “cadeado no portão” por “medo de ladrão”), mas estas similaridades de fatos é o que nos aproxima enquanto humanidade, embora o “cachorro, gato, galinha”, também sejam nossos irmãos, sem os traços consanguíneos, mas com muitos laços afetivos.

4) “Bichos escrotos venham enfeitar meu lar, meu jantar...” (Bichos escrotos)

Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis repudiam a estética da “oncinha pintada” entre outros animais fofinhos com uma letra suja e repugnante de exaltação de pragas como “baratas”. O “enfeitar” com tais bichos ao invés de coelhos de pelúcia por exemplo representa uma verdadeira inversão de valores e negação de uma juventude infantilizada e que cultua o consumo do que imagina ser bom e belo. O sair de “lixos” e os “ratos” em “sapatos do cidadão civilizado” também são no intuito de revelar a intenção do incomodo à ordem burguesa estabelecida, mas a música foi censurada no regime militar apenas por causa da frase de palavrão “vão se fuder!”, liderando o ranking das rádios posteriormente.

5) “Quem quer manter a ordem?” (Desordem)

Demonstra-se um cenário caótico e as alternativas dos atores envolvidos. A reflexão que se propõe é do objetivo das instâncias do Estado e do povo.

6) “Por que você não usa essa farda Pra servir e pra proteger? (Fardado)

A música faz uma breve análise da falta de empatia dos militares que não se percebem como também explorados e ainda do mesmo lado que a própria população que reprime, solicitando que saibam do seu lugar e do lugar do outro.

7) “Polícia para quem precisa de polícia.” (Policia)

A banda, que fazia uso indiscriminado de drogas, sobretudo de heroína, e que chegou a ter inclusive um de seus integrantes presos por tráfico faz um protesto através desse som sobre o discurso repressivo e até repetitivo das ordens policiais.

8) “Só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder”. (Go back)

A composição de Sérgio Brito, inspirada em poema de Torquato Neto, apresenta estas frases cruciais para reverência do otimismo, mas é uma confronta ao ideal romântico, pois há uma reflexão implícita de que isso nos faz investir tempo em pessoas solicitas de atenção, mas indecisas quanto às suas programações, como ida ao cinema, ponderando as reclamações do que já passou “daqui pra melhor” (possíveis desentendimentos de um casal).

9) “É cedo ou tarde demais Pra dizer adeus, pra dizer jamais” (Pra dizer adeus)

Essa reflexão sobre o acaso, o destino e o tempo é sempre necessária e prudente.

10) “me aceita assim como eu sou, e deixa ser o que for” (Amanha não se sabe)

Uma música calma que apela pela contemplação do momento, com sossego sobre o outro, sem esperar mudar seu relacionamento para projetar-se no futuro

11) “É preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer” (É preciso saber viver)

A proposta realista da canção transborda o coração de esperança e aposta na autodisciplina para controle de emoções que possam nos levar a decepções e desilusões em virtude de nossas escolhas.

12) “Nenhuma ideia vale uma vida” (Enquanto houver sol)

Um recado aos depressivos para que não ponham fim à vida e busquem saídas todos os dias seguindo o caminho e buscando novos desejos.

13) “Nenhuma pátria me pariu” (Lugar nenhum)

O questionamento quanto a referências nacionalistas (que mais segregam do que unem os povos) e a valorização da independência da população em função de seus representantes políticos se vê nessa despojada música. O desleixo quanto a essa questão certamente não altera a identidade de um ser, uma vez que somos parte de uma construção social, mas também somos indivíduos com nossas próprias convicções e modos de pensar.


Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias! Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante.
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