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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

A raiz da banda Raimundos até a saída do vocalista e compositor Rodolfo

Algumas observações sobre as composições da banda Raimundos na década de 1990 nos apontam o talento do conteúdo e da construção criativa de caráter tão revolucionário na busca de legitimação desta no cenário do rock brasileiro.


rodolfo.jpg http://sobretudoealgomais.blogspot.com.br/2009/08/historia-da-semana-raimundos.html

No fim dos anos 80 um rock sujo e rebelde já se consagrava no Brasil por algumas bandas expressivas, mas uma delas se iniciava em Brasília de uma forma completamente diferenciada: os imundos “Raimundos”.

Aos 20 e poucos anos Rodolfo Abrantes, principal integrante, realizava suas primeiras composições, já totalmente autênticas, com referências do punk e do hardcore, mas com toques de ritmos nordestinos. Sem dúvida a melhor letra dele da década de 90 foi também a primeira a ser gravada em clipe: “Nega Jurema”, que faz uma metáfora da planta popular “Jurema”, que é uma espécie de acácia usada para fins religiosos, bem comparando a marijuana (palavra inglesa que significa “maconha”, representada pela música pela expressão “Maria Tonteira”) fazendo alusão ao uso da droga desde o início do vídeo pela filmagem dos integrantes dispensando fumaça e ainda ironizando a dura realidade da fome de crianças sempre insuficientemente alimentadas e satisfeitas, com a recorrente figura da exploração de trabalho da mulher /mãe, especialmente negra, carregando suas sacolas e cestas de nutrientes colhidos pela agricultura. Assim aquela “planta” também poderia ser vista como uma possibilidade para o alívio do sofrimento, pois o “cumê” e o “fumar” “são as regras naturais que ninguém vai poder mudar”, segundo os trechos da própria música, além de citar a fé por oração a santos e a repressão ao tráfico quando expõe que “soldados se dizendo avisados começaram a atirar”.

Outras músicas que fizeram parte da demo da banda em sua formação como “marujo” e “palhas no coqueiro” fizeram parte do primeiro CD de 1994 junto a outros sucessos como “minha cunhada”, “puteiro em João Pessoa”, e “selim” que praticamente virou uma febre mundial, além das excelentes “bê a bá” e “cintura fina” e mais duas canções que eram de domínio público e foram adaptadas para banda como "Carro Forte" e "Cajueiro". O álbum “Lavô Tá Novo”, segundo da carreira da banda, se superou na qualidade sonora dobrando o número de cópias vendidas do anterior e conquistando o disco de platina com as eternizadas “Tora Tora”, “Eu quero ver o oco”, “Opa! Peraí, Caceta”, “O Pão da Minha Prima”, “Esporrei na Manivela”, “I Saw You Saying” e a perfeita “Sereia da Pedreira”.

No ano seguinte a banda lançou uma coletânea - “Cesta básica”- trazendo, contudo, uma categórica demonstração de insatisfação com a injustiça social pela inédita “Infeliz natal”: “na sua casa tem ceia, na casa dele não tem”. Em 1997 o quarto álbum - “Lapadas do Povo” – surge com um caminhão /carreta de inflamável em sua capa e literalmente rasgando o verbo na crítica política com o peso de "Baile Funky", por exemplo, que dispensa explicações e analises exageras por ter frases de muito simples entendimento: “Tome cuidado na briga que esse rei na barriga tá ficando velho”; “Eu tô cansado da Tv e do bombardeio da moda”; “A lei não sabe a diferença o que é ser e ficar louco. O remédio é tão forte que mata cada dia um pouco”; “Eu te falei que o ladrão que rouba mesmo É bem vestido e eu vi de monte”; É o pensamento antiquado, te apaga queimando a erva”; “É na igreja que o povo esvazia as bolsa”; “Chegou a hora de mudar, de por sangue novo E deixar essa porta sempre aberta pro povo”; e toda última estrofe ” A justiça não me olha porque é cega, mas o seu dinheiro na carteira ela enxerga. A lei do cão não é nada mais que a própria lei do homem. E quanto mais eu olhava aumentava a crença, de que o guarda do seu lado não é nada que você pensa. Pro povo do cerrado, Do alto do Colorado, Tem outro nome. Povo de Zé ofensa”.

As outras músicas mais interessantes deste CD são "Andar na Pedra", “Bonita" e “Nariz de Doze”, mas a vendagem deste foi a mais baixa da carreira da banda, ainda assim garantindo o Disco de Ouro. O último álbum de Raimundos com Rodolfo: o polêmico “Só no forevis”, lançado em 1999, que tem na capa uma sátira ao pagode, popularizou a banda com as famosas "A Mais Pedida", “Aquela”, "Me Lambe" e "Mulher de Fases" e rendeu discos de Platina ao fenômeno, que vendeu mais de 1 milhão e meio de cópias. Destaco a música "Deixa Eu Falar" com participação de Alexandre Carlo (da Natiruts) e o rapper Black Alien que discursa sobre a “liberdade de expressão”. Infelizmente por motivos religiosos Rodolfo decidiu sair da banda, e os álbuns após a virada do milênio jamais alcançaram a imensa repercussão da expressiva década de 90. Por fim, apesar das críticas ao estilo adolescente da banda percebemos letras bem mais ingênuas do que machistas, e também com um potencial muito maduro e singular, que certamente confirma, conforme uma das primeiras músicas da banda (marujo) “que Raimundos nunca vai se acabar!”.


Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias! Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante.
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