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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

Desejos e decepções de Renato Russo

Renato Russo, fundador da banda brasileira de rock dos anos 80 "Legião Urbana", eternizou alguns pensamentos até hoje interpretados por inúmeros famosos, e que fazem parte do repertorio de milhares de bares e luais, junto a clássicos memoráveis da MPB e da Bossa Nova. O objetivo desse artigo é avaliar alguns trechos de suas obras, identificando o que possuem em comum e subsidiando os leitores para análise do artista.


renato.jpg http://brunocomotti.blogspot.com.br/2010/03/renato-russo-legiao-urbana-2010.html?m=1

"Quem inventou o amor? Me explica, por favor!” (Antes das seis)

Esse apelo meio que desesperado de Renato Russo é parte da constante busca de sentido para essa palavra. Por outro lado o fim da mesma música explica que há mais interesse em obter um verdadeiro encontro, que nos torne singularmente especial, do que procurar este entendimento do conceito: “Enquanto a vida vai e vem /Você procura achar alguém /Que um dia possa lhe dizer: ‘Quero ficar só com você". Essa é uma visão do amor que necessita ser exclusivo e único, que acaba misturando o desejo de ser suficiente com o medo da perda.

Renato dedicou a musica “Monte Castelo” à contradição do bem e do mal que o amor nos causa, parafraseando o soneto que o poeta português Luís Vaz de Camões escreveu há quase 500 anos inspirado na Biblia (1 Corintíos - capítulo 13). As frases que mais me chamam a atenção nesse som são: “O amor é o fogo que arde sem se ver;” e “É um estar-se preso por vontade;” porque além de ressaltar o sofrimento implícito e a dor que um amor gera, ressalta um aprisionamento necessário e fundamental, ainda que por uma suposta escolha. Essa canção, embora seja muito bela reforça uma mensagem perigosa de que o amor é sinônimo de sacrifício e anulação, já que não é egoísta, tudo sofre e tudo suporta, o que não encontraremos nunca num mundo tão impaciente e intolerante.

O cantor fomentou constante confusão e melancolia pelas perdas e rompimento dos relacionamentos, que o perturbaram bastante, como revelou em algumas entrevistas. Parte dessas dúvidas ele expressou numa única musica: Meninos e meninas : "Quero me encontrar, mas não sei onde estou /Vem comigo procurar algum lugar mais calmo / Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita /Tenho quase certeza que eu não sou daqui”. E também analisou a ingratidão ou falta de reciprocidade que pode ocorrer entre duas pessoas: “Te fiz comida, velei teu sono, /Fui teu amigo, te levei comigo /E me diz: pra mim o que é que ficou?”, e ainda a falta do próprio amor no mundo: “Há tempos o encanto está ausente, e há ferrugem nos sorrisos” (Há tempos). Ele também reconhece as dificuldades de diálogo e compreensão nas diversificadas relações numa musica que considerou uma das mais tristes já escritas, por falar de um suposto suicídio de uma jovem que “se jogou da janela do quinto andar” sem deixar explicações claras. Renato atenta que “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanha” (Pais e filhos). O seu pessimismo expõe-se em “Indios”: “Quem me dera, ao menos uma vez /Acreditar por um instante em tudo que existe/ E acreditar que o mundo é perfeito/E que todas as pessoas são felizes”, e ainda em “Via láctea”, uma de suas ultimas músicas: “Queria ser como os outros /E rir das desgraças da vida /Ou fingir estar sempre bem /Ver a leveza das coisas com humor”, em que desabafa em tom fúnebre: “Não me dê atenção, mas obrigado por pensar em mim”. Ele deixa claro que precisa de ajuda em “Sagrado Coração”: “Falam de um lugar /Mas onde é que está? /Onde há virtude e inteligência /E as pessoas são boas e sensíveis /E que a luz no coração /É o que pode me salvar /Mas não acredito nisso!”, e o abandono dos sonhos em “Quando o sol bater na janela do seu quarto”: “Até bem pouco tempo atrás /Poderíamos mudar o mundo /Quem roubou nossa coragem?” e que antes haviam sido incentivados na popularíssima “Geração coca-cola”, que afirma que “depois de 20 anos na escola” já somos capazes de provocar uma revolução, reforçando a tese da juventude como “o futuro da nação”. Só que Renato se põe em descredito e posicionamento vulnerável em “tempestade”: “Será que eu sou capaz de enfrentar o teu amor, que me traz insegurança e verdade demais?!” e na famosa “Será” “que vamos conseguir vencer?”.

A queixa da carência afetiva e a sensação de vazio ainda se evidenciam em frases como: “O mal do século é a solidão /Cada um de nós imerso em sua própria arrogância /Esperando por um pouco de afeição” (Esperando por mim) e também em “Teatro dos vampiros”: “‘Quando me vi tendo de viver /Comigo apenas e com o mundo /Você me veio como um sonho bom /E me assustei /Não sou perfeito /Eu não esqueço”.

Como a afirmativa de outra letra: “Quem irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?” (Eduardo e Mônica). Renato enfatiza a falta de obrigação de determinada racionalidade em relação aos sentimentos, ao contar sobre um casal completamente oposto que se apaixonou e construiu família, mas ele também expressa sua desconfiança,desesperança e insegurança em “Andrea Doria”: “Eu sei, é tudo sem sentido /Quero ter alguém com quem conversar /Alguém que depois não use o que eu disse contra mim”, e em “Angra dos Reis”: “Se fosse só sentir saudade /Mas tem sempre algo mais /Seja como for /É uma dor que dói no peito /Pode rir agora /Que estou sozinho /Mas não venha me roubar.”

Por outro lado, o otimismo da musica Giz que era sua preferida se evidencia no trecho calmo e suave em que o compositor repete as palavras “tudo bem”, e na parte que lembra sua infância: “Eu rabisco o sol que a chuva apagou”, ou seja, tenta de novo e não desiste diante das dificuldades. Ele considerava a música perfeita e tinha orgulho de tê-la escrito. Esse pensamento positivo também se encontra em “Se fiquei esperando meu amor passar”: “Quando se aprende a amar /O mundo passa a ser seu”. E no refrão de “tempo perdido”: “Temos nosso próprio tempo!”

Renato demonstrou só ter se acostumado com esse turbilhão de sentimentos oscilantes, quando passou a desconsiderar a opinião alheia: “Tenho andado distraído /Impaciente e indeciso /E ainda estou confuso /Só que agora é diferente /Estou tão tranquilo e tão contente /Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria /Era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém.” E também demonstra a habilidade de amar com leveza em “O mundo anda tão complicado”: “Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver /O mundo anda tão complicado /Que hoje eu quero fazer tudo por você” e essa capacidade se repete ansiosamente em “Sete cidades”: “Vem depressa pra mim /Que eu não sei esperar /Já fizemos promessas demais /E já me acostumei com a tua voz /Quando estou contigo estou em paz.” além de “Eu sei”: “Mas não, não vá agora, quero honras e promessas /Lembranças e histórias /Somos pássaro novo longe do ninho.”

Renato compôs a musica “ainda é cedo” para uma amiga, e que discute certa culpa pela falta de apoio nos momentos em que ela estava perdida: “Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém”. Ele reconhece o quanto ela o ensinou e que com isso não desejava o afastamento que ela julgava necessário. Sobre o fim de um namoro significativo, escreveu “Vento no litoral” em que deixava claro essa mesma necessidade de manter os amores próximos: “Vai ser difícil sem você /Porque você está comigo o tempo todo”, entretanto, com a premissa da adaptação e conformismo que ele adotou em algumas canções, concluiu que “a vida continua e se entregar é uma bobagem.” Uma máxima das mais tristes encontra-se na famosa “Por enquanto”: “o pra sempre, sempre acaba!” e essa passividade ociosa do “nem desistir, nem tentar”, ou na melódica e romântica “Hoje a noite não tem luar” que descreve um amor breve e passageiro: “Já não sei onde procurar / Não sei onde ela está”. Uma rejeição às paixões se identifica num trecho de "Longe do meu lado": "A paixão quer sangue e corações arruinados /E saudade é só mágoa por ter sido /Feito tanto estrago /E essa escravidão e essa dor /Não quero mais (..) Eu também sei que dizem /Que não existe amor errado /Mas entenda /Não quero estar apaixonado".

Renato discorre sobre cumplicidade, bondade, sonhos, entre outras questões que pairam para tantos jovens, a qualquer tempo, no âmbito pessoal e social, como em "O livro dos dias" que canta: "Todos se afastam quando o mundo está errado /Quando o que temos é um catálogo de erros /Quando precisamos de carinho, força e cuidado", e mesmo em suas frase mais clichês, traz imensas possibilidades de reflexão e aprendizado, afinal "quais são as palavras que nunca são ditas?" (Quase sem querer).

OBS: Muitas musicas da banda Legião Urbana aqui citadas foram escritas em coautoria com os demais integrantes


Vanessa Trincheira

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