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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

É possível obter transformação social “caminhando e cantando”?

Essa análise crítica certamente é diferente de todas que você já leu ou ouviu falar, pois tenta compreender a música “caminhando”/ “pra não dizer que não falei das flores” para além da realidade da ditadura militar, no contexto da produção artística do cantor e compositor Geraldo Vandré.


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“Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” é uma música de Geraldo Vandré, de 1968, segundo lugar no 3º Festival Internacional da Canção, e símbolo da militância juvenil contra a ditadura. O autor relatou em entrevista para “Globo News”, aos 75 anos, que buscava apenas retratar a realidade do Brasil, e que não tinha objetivo de tanta efervescência política (e que crê ter sido manipulada para este “sucesso”), entretanto é unânime no entendimento de jornalistas, professores e pesquisadores em geral de que é nítido o teor revolucionário contido na proposta de ação e luta do refrão “Vem vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora e não espera acontecer!”. Além disso Vandré teria participado do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), que reforça a tese de seu engajamento político em movimentos sociais, que havia negado nesta mesma conversa com Geneton Moraes Neto em 2010. Então, vale mesmo a pena falar de flores? Será que compensa falar de esperança, crescimento, sentimentos, e de amor ao próximo? Será que é valido valorizar a luta diária e apreciar essas lembranças, além de respeitar as perdas de pessoas que doaram suas vidas muitas vezes pelas ordens de quem estava tão distante do progresso? Será que as flores realmente representam algum conforto na perda dos nossos entes, ou é mais válido ir contra o armamento, com o protesto, o manifesto e o confronto de corpos por proteção e devoção e estes? Qual o poder de um discurso que vai contra o domínio de mentes da mídia vigente? Que tipo de artista pode ter reconhecimento e desenvolvimento no Brasil?

“Caminhando e cantando e seguindo a canção” pode até se referir às passeatas da época “nas escolas, nas ruas, campos, construções” por questões sociais como “a fome nas plantações” (causada pela apropriação capitalista do que era produzido), mas a harmonia da melodia também remete à calmaria e faz imaginar pessoas conformadas e confusas, que seguem seus percursos com o otimismo de que vão chegar em algum lugar. Talvez essa ironia seja proposital, mas ainda assim torna essa crônica bem mais sutil do que num punk rock de revolta explicita desde o arranjo do som, ou nem tão longe, na letra da famosa e agitada música “Geração Coca-cola” da banda de rock Legião Urbana, duas décadas depois. Outro elemento importante para análise é que Vandré descreve “indecisos cordões” e a ideia de “soldados perdidos” e “sem razão”. Ou seja, não se sobressalta o povo em relação aos militares, pois “somos todos iguais, braços dados ou não” e talvez outros críticos desta música nunca tenham se atentado a isso, pois além dos setores segmentados nos próprios manifestos (estudantes, mulheres, partidos etc), há representantes do Estado que necessitam de atenção, advindos do próprio povo e com missões que não são deles mesmos, já que alguns nem sequer são amados antes de serem armados, e isso pareceu ser uma preocupação de Vandré nesta letra que confirma seu relato de nunca ter sido “antimilitarista”.

Geraldo Vandré é um ícone do caldo conflituoso da década de 60 no Brasil e no mundo. Ele já citava seu incômodo com a pobreza e desigualdade social desde o seu primeiro LP, em "Menino das Laranjas" e reconheceu o mal da exploração do trabalho e da escravidão humana em “Aruanda” e “Arueira”.

Vandré é contraditório, omisso e instigante, mas apenas dois jornalistas se dispuseram a investigar mais a fundo sua história de vida e mesmo assim não obtiveram suas biografias autorizadas, tampouco contribuíram efetivamente para esclarecer os mistérios da desistência do poder de resistência deste mito da MPB, que ainda se considerava exilado em seu próprio país quase quarenta anos depois de sua expressiva aparição midiática. Ele ainda critica a mesma cultura de massa que crê que o consagrou, uma vez que vê muito mais potencial musical em “Disparada”, uma das vencedoras do Festival da Canção da TV Record em 1966 - àquela que chama atenção com uma forte jogada de marketing (proposital ou não) quando se inicia com a frase “Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar!” Essa canção, dois anos antes da inesquecível reacionária urbana, apesar do alinhamento harmônico com um hostil ambiente rural, já apontava algumas sugestões sobre o pensamento de Vandré que se imprimiu em seu destino: “Então não pude seguir /Valente em lugar tenente /E dono de gado e gente /Porque gado a gente marca /Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente” Portanto, de acordo com essa mensagem, não daria mesmo para Vandré permanecer construindo um ideário para o povo (gado) usando apenas a coragem como poder, porque as pessoas são “marcadas” e alienadas por ideologias massificadas, e é disso que se alimentam e são assassinadas dia após dia, ao perderem seus sonhos e a esperança por dias melhores através de mudanças. E continua “Se você não concordar /Não posso me desculpar /Não canto pra enganar /Vou pegar minha viola /Vou deixar você de lado /Vou cantar noutro lugar”, que explica com clareza a razão do discurso de Vandré não coincidir com as propostas de suas músicas, e a motivação de seu investimento em músicas eruditas e em outros países da América do Sul onde ele pode ser mais verdadeiro e continuar escrevendo sobre amor e paz (inclusive nunca foi por outra coisa, já que o combate político também almejava um mundo melhor).

Em música de 1968, do LP “Canto Geral” denominada “Cantiga Brava” também tem um tom futurista no trecho “O que sou nunca escondi, Vantagem nunca contei, Muita luta já perdi, Muita esperança gastei. Até medo já senti, E não foi pouquinho não. Mas, fugir, nunca fugi, Nunca abandonei meu chão”. E no mesmo álbum se explica que ele podia até estar caminhando sem direção específica, mas sempre estava “Cantando por justo anseio geral”.

Em outra letra de álbum anterior (“5 anos de canção” de 1966) chamada “Porta Estandarte canta: “Eu vou levando a minha vida enfim /Cantando e canto sim /E não cantava se não fosse assim /Levando pra quem me ouvir /Certezas e esperanças pra trocar /Por dores e tristezas que bem sei /Um dia ainda vão findar /Um dia que vem vindo /E que eu vivo pra cantar”

No álbum “Hora de Lutar” de 1965 Vandré fazia outra previsão histórica que traduz sua premissa que leva até o fim da vida na canção “Ladainha”: “já fui homem, fui menino /mas é sempre a mesma dor. /Fui sozinho, até agora /Nenhum bem, nenhum valor. /Perdoe, Nossa Senhora, /Não vivo mais nessa dor /Já juntei a minha gente, /gente boa pra plantar. /Gente de paz, mas valente /Se tem luta, vai lutar (...)Já fui homem, fui menino /E hoje o que tiver de ser.”

Por fim, em “pátria amada idolatrada salve salve”, vencedora do Festival Internacional da Canção de Agua Dulce no Peru em 1972, usa o diálogo de um casal para justificar a desistência por seu país: “Se é pra dizer adeus /Pra não te ver jamais /Eu, que dos filhos teus /Fui te querer demais /No verso que hoje chora /Pra te fazer capaz /Da dor que me devora /Quero dizer-te mais /Que além de adeus agora /Eu te prometo em paz /Levar comigo afora /O amor demais”. Assim, apesar da má fama da palavra positividade, por ser associada à “passividade”, Vandré encontrou no otimismo tolo, na drogadição estupida, na loucura pouco produtiva e criativa, na religiosidade incrédula e na repugnada música erudita e principalmente “na paz e no amor” os seus motivos para compor, que como naquela música já sugeria: Caminhando e cantando /E seguindo a canção /Aprendendo e ensinando /Uma nova lição”, que neste caso é focada no princípio de que só o amor importa, e este necessita de paz para florescer.


Vanessa Trincheira

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