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Música, arte, literatura, caos e coração

Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias!
Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante

O AMOR NÃO É UMA PESSOA: CONSIDERAÇÕES SOBRE AMOR E LIBERDADE EM DUAS CANÇÕES DE RAUL SEIXAS

Esse texto pretende provocar reflexões no sentido do conceito de amor, que apesar de todo esforço revolucionário das ideias de Raul Seixas, sobretudo em duas de suas letras, pouco tem progredido no sentido libertário.


RAUL.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Seixas

O memorável Raulzito é um fenômeno. Considerado pioneiro (e pai) do rock brasileiro, ele elaborou diversas composições inspiradas no baião de Luiz Gonzaga, mas com significativos protestos, questionamentos e considerações. A análise de trechos de duas músicas de Raul Seixas nos leva a perceber que para ele o amor deve ser livre e expansivo, e não vexatório e repressivo, o que o faria a vida muito menos complexa e ampliaria a possibilidade de encontrar o amor em tudo e todos, e não na exclusividade de um corpo.

“Amor só dura em liberdade, O ciúme é só vaidade, Sofro, mas eu vou te libertar! O que é que eu quero Se eu te privo Do que eu mais venero, Que é a beleza de deitar!

“A maça” é quase um hino do poliamor: ideologia que aceita a possibilidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, mas ao contrário do amantismo em que alguém é enganado, acredita-se que isso pode acontecer sem danos ou mágoas, com o consentimento de todos os envolvidos. Assim, quando Raul canta que “além de dois existem mais”, ele expressa a compreensão da não monogamia como uma forma legitima de amor, ao contrário dos modelos societários construidos pelo ideal do romantismo. Quem prefere se relacionar com uma única pessoa, acaba também exigindo isso de seu parceiro, e tende a ver como sacrifício cada vez que não se entrega a outros, reprimindo ainda com muita frequência seus sentimentos e impulsos. Isso é um grande erro! Todos têm direito ao amor, que está na natureza e nas pessoas, independente de quem nota. A anulação de seus desejos e necessidades não é sinônimo de amor e inclusive pode ser vista como falta de amor próprio. Além disso, no modelo convencional recai muito mais a exigência por qualidades no companheiro escolhido, já que ambos não teriam outras possibilidades de relacionamento/afeto.

“ Como as pedras imóveis na praia, Eu fico ao teu lado, sem saber, Dos amores que a vida me trouxe E eu não pude viver!”

“Medo da chuva” no mesmo sentido enfatiza a não permissividade de vivências amorosas e a apatia dos casais que são muitas vezes imobilizados por contratos de casamento. Raul já declamou publicamente que “só há amor, quando não existe nenhuma autoridade”. Isso quer dizer que amor não é posse, nem é egoísta. Ele serve para ser compartilhado, e para ser ofertado! Por outro lado, o amor não depende de reciprocidade nenhuma para se legitimar. Isso quer dizer que ninguém pode obrigar o outro a amar, mas se pode amar genuinamente alguém sem se esperar nada em troca. Um exercício difícil, mas certamente compensador, porque o amor é construído de dentro para fora, e assim como a felicidade, depende muito menos de fatores externos do que da nossa elaboração criativa. O ideal é evitar a co-dependência e desenvolver a habilidade de amar de forma autônoma, mesmo que para isso você tenha que adotar arranjos alternativos. A mesma composição desabafa em tom depressivo:

“Eu não posso entender Tanta gente aceitando a mentira, De que os sonhos desfazem aquilo Que o padre falou, Porque quando eu jurei meu amor Eu traí a mim mesmo, hoje eu sei, Que ninguém nesse mundo É feliz tendo amado uma vez!”

Então Raul Seixas nos ensinou que a sorte de um amor tranquilo é para poucos, e se alguém nunca passou por fases confusas e turbulentas é porque provavelmente essa pessoa nunca tenha vivido um amor de verdade em sua plenitude.


Vanessa Trincheira

Os ideais surgem das ideias! Vanessa Trindade Teixeira - assistente social e escritora iniciante.
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