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Um Olhar Sobre O País em 3 Dimensões.

Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas.

Literatura e Economia? Ahn? Como assim?

Este artigo tem como objetivo discorrer sobre a literatura brasileira e o processo histórico em que caminha a economia brasileira. Fazer a ponte entre duas áreas do conhecimento - Literatura e Economia - não é tarefa fácil, de modo que nossa proposta encerra-se nas linhas gerais em que essas áreas tocam-se no decorrer do desenvolvimento social brasileiro, observado a partir de 1930.


Literatura e Economia, por incrível que pareça, possuem pontos de encontro em que as marcas de uma podem ser observadas no desenvolvimento da outra. Apesar do vício que os economistas têm em tentar explicar tudo (sim, tudo: literatura, música, poesia, cultura etc.) pelas modificações da economia, tenho a consciência de que seria uma pretenção muito grande dessa "ciência" querer explicar por completo algo como a Literatura. Logo, não sou tão pretencioso como alguns de meus colegas economistas, que não perdem uma única oportunidade de inserirem certo economicismo em quaisquer nuâncias do dia-a-dia. Mas acredito que há algumas transformações econômicas pelas quais o Brasil passou que podem ser observadas na Literatura. Por exemplo: num seria no mínimo curioso alguns livros, como Capitães da Areia ou Vidas Secas, surgirem após 1930, coincidentemente o ano em que a modernização econômica do Brasil dava seus primeiros passos?

Segundo o nosso mestre Celso Furtado, a modernização da economia brasileira data de 1930. Em seu célebre livro, Formação Econômica do Brasil, os antecedentes da formação que se inicia em 1930 (após o colapso econômico de 1929) foram construídos de forma a indicar como a condição subdesenvolvida e periférica do capitalismo brasileiro se consolidou desde o período colonial, mas que, a partir de 1930, haveria certa inflexão nesta condição. Assim, a formação econômica do Brasil é entendida, de certa forma, como a busca pela autonomia das decisões internas e a conquista da liberdade enquanto nação: trata-se da construção do país e da nação. Afastado o caminho socialista, o percurso a ser percorrido no sentido do desenvolvimento socioeconômico de uma sociedade tão desigual como a brasileira seria o capitalista, a partir da industrialização da economia. Desse modo, as mazelas sociais seriam atenuadas, cumprindo as pré-condições de se cultivar o que há de mais iluminador no homem: a criatividade.

Furtado-Celso.jpg Celso Monteiro Furtado é considerado um dos maiores economistas e pensadores do Brasil de sua geração. Até hoje, influencia e inspira muitas pessoas.

Bom, se colocássemos o Brasil de Furtado de um lado e o Brasil do século XXI de outro, não restaria outro sentimento que não o da melancolia: somos um país rico do ponto de vista econômico (estamos entre as 10 maiores economias do mundo), mas ainda convivemos com uma desigualdade social terrível, praticamente incompatível com a condição material que nos cerca. O fato é que por entre o Brasil de 1930 e o do século XXI muita água passou. Iniciada a industrialização, que seria a modernização do ponto de vista estritamente econômico, dá-se início à inserção do capitalismo na sociedade brasileira. E, com ele, vem culturamente uma série de hábitos, benesses e muitos dilemas.

Café.jpg A importância do Grande Capital Cafeeiro no processo de industrialização é consideração quase unânime entre os estudiosos do Desenvolvimento Capitalista Brasileiro.

Ferrovia.jpg A ferrovia é, talvez, o maior símbolo da Revolução Industrial e da formação capitalista dos Estados Nacionais.

É por essas e outras que a denúncia dos problemas que se seguem, como a gigante desigualdade, surgem na música, na poesia e na literatura a partir de 1930. Não se trata evidentemente de negar, esquecer ou diminuir as questões sociais colocadas anteriormente. Basta lembrarmos Os Sertões, de Euclides da Cunha, que é a maior prova de que não é de hoje (e não é de 1930) que o abandono e situação de miséria de muitos brasileros são uma verdade factual. Contudo, se nos atentarmos para o que se segue a partir de 30, a cidade, a questão do trabalho, os hábitos ocidentais (roupas, sociabilidade etc.) aparecem nas obras literárias brasileiras.

Em Caetés, de Graciliano Ramos, a pacata vida de Valério se dá numa cidade que alude às milhares de pequenas cidades do interior do nordeste brasileiro. O personagem mora em uma pensão, há estrangeiros na casa; quando vai à casa do patrão, Adrião, assiste a jogos de xadrez, ouve as músicas no piano (tocado por uma mulher, evidentemente). Assim, são inúmeros os traços de uma sociedade que vem importanto, como mostra Furtado, os hábitos sociais das sociedades capitalistas modernas. A modernização da economia aparece, de certa forma, nesses traços. Mas, Caetés é só um aperitivo para o que viria.

Graciliano.jpg

Vidas Secas, que se tornou um clássico da literatura brasileira, é uma das maiores denúncias à existência de dois Brasis: sendo um livro de 1938, observa-se o contraste entre aqueles que possuem bens, como a terra, e aqueles que trabalham nela, pois nada têm a não ser o próprio suor para oferecer em troca de um pedaço de pão. Além disso, não podemos nos esquecer que durante a ditatura do Estado Novo de Vargas, Ramos foi preso. Se tomarmos o Soldado Amarelo, personagem que alude ao Estado, e a forma como trata Fabiano identificamos o descaso do Estado com aqueles que mais precisam dele. Ao invés de oferecer a mão e ajudar, o Soldado Amarelo abusa de sua autoridade, irrita o cabra Fabiano e presenteia-o com o cárcere. Quer dizer, nesta obra, já observamos a existência do Estado com o monopólio da violência, traço dos Estados Nacionais modernos no mundo capitalista. Ou seja, temos um Estado moderno, mas que, valendo-se de sua força, esmaga os miseráveis.

Capitães da Areia, um clássico de Jorge Amado, vai também na linha de opressão do Estado. Só precisamos nos lembrar as condições de moradia das crianças e sua luta diária pela sobrevivência na cidade grande. Esse tipo de cenário é característico de economias capitalistas e em cujo desenvolvimento brasileiro aparecem alguns traços de classe, como a exclusão social. A manutenção da desigualdade e do descaso do Estado Nacional com os miseráveis e menos favorecidos é assunto do livro.

Jorge Amado.jpg

Claro que não é preciso de um curso de economia para que algumas dos elementos que pontuei no texto sejam observados. Na verdade, a questão não é nem essa; trata-se apenas de mostrar como seria inconcebível fazer uma crítica social tão real e que transpõe o tempo numa sociedade em constante formação, como a brasileira. É preciso chamar a atenção para isso: diferentemente como querem fazer crer alguns de meus colegas de profissão, estamos longe de sermos uma sociedade e uma economia plenamente formadas. E por que chamar a atenção para isso? Para que não haja espanto quando olhamos para o Brasil e percebamos o quão nossos problemas são velhos porque são constantemente colocados no escanteio da ordem do dia.

A formação econômica do Brasil, se pensarmos como o sentimento de Construção da nação, não incorporou as críticas sociais que foram feitas e escritas nos livros de literatura. A ponte entre a literatura e a economia não foi feita ou, se o foi, não conectou os problemas apresentados com as devidas soluções. Muito pelo contrário: os dois autores que citei aqui foram perseguidos pelo Estado de seu tempo, à medida que colocavam, de certa forma, o dedo na ferida. A luta por um Brasil mais justo passa pela incorporação dos "sinais" que a sociedade emite por meio de sua cultura, da qual destaquei a literatura. Os traços sociais brasileiros foram construídos e consolidaram-se nos períodos nebulosos da nossa história. Desenvolvemos a economia e nos esquecemos do restante. Esquecemo-nos do povo e dos anseios descritos há muito pela riquíssima literatura brasileira. É nesse sentido que Economia e Literatura possuem pontos em que se tocam. Mas, é preciso que as pontes entre essas áreas sejam construídas, para que as perguntas sejam recolocadas e as interdisciplinares respostas sejam construídas junto com o Brasil.


Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas. .
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