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Um Olhar Sobre O País em 3 Dimensões.

Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas.

Passado Perfeito: uma história das pessoas e de Cuba

Este texto confronta minhas expectativas com o que encontrei no romance. Não vou, porque não tenho meios por que fazer, dissecar enredos, desfechos e viajar sobre os personagens. Queria compartilhar as excelentes impressões que tive. O que me motivou ir atrás da obra de Padura foi, antes do tipo de livro, seu país de origem, a pequena Cuba, cuja história e revolução ainda hão de inspirar muitas gerações, principalmente na nossa condição periférica e subdesenvolvida na América Latina e Caribe. Assim como os autores russos, esses países "muito loco" têm pessoas que podem nos contar certas coisas triviais mas com outras perspectivas, outras formas de olhar. Vamos ao texto?

OBS: acredito que não tenha dado grandes spoilers, porque há apenas uma contextualização da trama, dos personagens, dos ambientes etc.


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Acabo de ler o primeiro livro da série Estações Havana, do escritor cubano Leonardo Padura, Passado Perfeito. Confesso que fiquei muito surpreso com o que encontrei no livro, em vista, principalmente, seu gênero e a origem do nosso escritor: o que esperar de um romance policial se não um pouco de suspense, uns tiros, umas intrigas e mentiras? Mas o que esperar de um romance policial, escrito por um cubano nos idos dos anos 90, mas que se concentra no fatídico ano de 1989? Por essas e outras, Passado Perfeito, livro que inaugura a série com 4 volumes, foi surpreendente para mim. De cara já sabia que, nos dias de hoje, um escritor de Cuba, ou seja, um contador de histórias criado e formado na particularidade cubana, de saída tem algo a nos dizer sobre o mundo e sobre o país onde vive, isto é, sua perspectiva já é, de saída, um diferencial ao que estamos acostumados. Embora Padura, que já deu entrevistas no programa Diálogos com Mário Sérgio Conti, no GloboNews e no Roda Viva, afirme que não busca induzir o leitor a fazer leituras políticas de sua obra, é interessantíssimo a forma como, além de desfrutar de um bom romance policial, podemos navegar pelas particularidades cubanas, inclusive o regime político. Acho que Padura escreve com uma naturalidade extremamente particular que nos permite abrir um vasto número de canais, de lupas, de caminhos para enxergar e ler o livro...e Cuba! Consequentemente, amplia-se o que tirar dele. Para mim, antes de mais um romance, queria encontrar um relato sobre esse país tão particular que é Cuba. E encontrei!

A história gira em torno do policial Mario Conde que, de forma inesperada, é convocado após a festa de Ano Novo a desvendar o desaparecimento de um funcionário graúdo do governo, Rafael Morín. O negócio fica mais interessante quando se descobre que Conde e Morín eram colegas de escola, um momento que em construímos a imagem de muitas pessoas - e tendemos a ter a confirmação dessa imagem durante a vida. Só quem mantém amizades do colégio sabe o que estou dizendo: você acompanha a formação de um sujeito e, se mantém contato com tal, não importa o que lhe dizem sobre ele: a imagem, as atitudes e o comportamento já são uma construção suficientemente sólida que, como dizem, "nem por decreto", se alterará. E o drama entre os dois personagens está ai: Morín, rapaz de origem humilde mas que conquistou praticamente tudo na vida desde o Colégio, ascendeu social e politicamente, tornando-se o exemplo perfeito, o que, para Conde, é uma falácia. Para o nosso protagonista, que também não nasceu em berço de ouro, Morín não se passa de um aproveitador, um esperto, que soube aliar a fome com a vontade de comer, traçando caminhos calculados. Apesar disso, não diminui as qualidades de Rafael: apenas questiona seu passado perfeito. Padura explora essa contradição na cabeça de Conde de uma forma extremante única: é possível transitar do concreto, da relação entre as pessoas, dos diálogos para a imaginação de Conde, ingressando em sua cabeça, em suas reflexões e seus pensamentos. Tudo isso na mesma linha, no mesmo parágrafo. E é tão natural que ora parece que nós somos Conde, passando a "raiva" dele ao ouvir de absolutamente todos que Morín era um cara exemplar. Para fechar esse contexto, Morín se casa com a "paixão de 15 anos" de Conde, o que nos faz pensar até que ponto ciúmes e inveja são sentimentos independentes ou até onde são distintos. Nesse caso, o livro também é muito interessante: os sentimentos humanos e as introspecções andam lado a lado com a vida real, a vida concreta, a vida das construções de sociabilidade humanas no ambiente da família, da amizade e dos colegas. Talvez esteja exagerando, mas foram coisas que não me vinham à cabeça quando comecei a ler um romance policial: junto com suspense, mentiras e afins, outras coisas vem no pacote. Ou seja, tinha uma expectativa que foi, a cada página, ultrapassada.

A partir disso, Padura nos leva a Cuba. O ambiente institucional, a relação das pessoas com o Partido, as relações de Cuba com o mundo (Morín é funcionário do Ministério, responsável pelas negociações de mercadorias em um contexto de embargo econômico), as relações entre os cubanos, seja aqueles que são os "amigos" do governo, seja os indiferentes, seja entre as pessoas comuns. Dentro desta última, a relação de Conde com seu amigo Magro ou mesmo Manolo, amigo e colega de trabalho, vai além, mostrando as músicas que ouvem, as bebidas que bebem e as comidas que comem*, construindo uma imagem que é indiferente à particularidade cubana. Quero dizer, se a história se passasse no Brasil, não veria muitas diferenças. E é aqui, pra mim, que se encontra outra grande mensagem do livro: Cuba não é um país tão distante do nosso no seguinte sentido: as pessoas bebem whisky e rum, comem batata, azeite, arroz, feijão, têm seus esportes preferidos e o desempenho dos times é capaz de alterar o humor daqueles que acompanham. Mas será que o retrato de Padura é fiel? Será que é possível tal comparação? Para mim, só sabe aquele que já foi a Cuba (e fica aqui o convite para quem quiser ir e depois me escrever um relato).

Por essas e outras, esses países "muito loco" (Cuba, Rússia, Leste Europeu etc.) têm pessoas que podem nos contar "as mesmas coisas", mas só de partirem de outras perspectivas, outras formas de olhar, já valem cada palavra lida. Por exemplo, a forma como Padura introduz a cultura musical ocidental num país cujo estereótipo é o enclausuramento e a aversão a tudo o que for dos EUA e demais países capitalistas e na vida dos personagens quebra todos os preconceitos que temos com relação àquilo que não conhecemos ou àquilo que achamos que conhecemos porque lemos em algum jornal, revista etc. os "especialistas". Só por nos fazer reformular certas impressões acho que a leitura vale e muito!

O livro de Padura é, para mim, além de mais um romance policial, um convite a assistirmos, como meros espectadores, à forma como as nossas introspecções e nossos pensamentos estão sempre ou quase sempre nos acompanhando no dia-a-dia e permeando nossas atitudes consciente ou inconscientemente. É um convite à forma como não nos soltamos de muitos julgamentos que fazemos a respeito das pessoas, dos lugares e de certos acontecimentos. Ao mesmo tempo, é uma sequência de quebra de paradigmas e esteriótipos, um convite à Cuba da virada dos anos 1980 para os anos 1990, nos mostrando um país que não está tão longe quanto nos dizem estar.

*a redundância aqui entre verbo e substantivo é proposital, porque durante é leitura é possível ouvir as músicas, sentir cheiro de comida e até ficar embriagado! rsrsrsrsrs.


Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas. .
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