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Um Olhar Sobre O País em 3 Dimensões.

Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas.

O "Estorvo" e a Economia Brasileira

A leitura do livro "Estorvo" e a sugestão da crítica de Roberto Schwarz nos tentaram a compreender o primeiro romance de Chico como uma interpretação do Brasil contemporâneo. Sem nos aprofundarmos sobre algumas questões e dentro dos nossos limites, pensamos que o livro é um excelente representante de uma época, a década de 1990, e do sentimento de frustração, que a geração, derrotada pelo Golpe civil-militar de 1964, sentiu com o processo de redemocratização lenta, gradual e segura.


11959_gg.jpg Estorvo, livro vencedor do Jabuti de 1992

Durante o nosso cotidiano, sempre separamos alguns livros para ler quando dispusermos de algum tempo em meio às monótonas rotinas do trabalho. Acordar cedo, ir à academia, tomar banho, o que seja; deslocar-se até o local de trabalho ou mesmo ficar em casa; trabalhar; almoçar; chegar em casa e ainda pensar na janta, no dia seguinte, nos planos do final de semana. Quando vamos ver, está tarde e aquele livro que gostaríamos de começar ficou para depois. E depois. E depois. Minha relação com a literatura de Chico Buarque começou assim mas, motivado pelo lançamento de seu novo livro, comecei pelo primeiro, Estorvo, e para seguir a ordem cronológica de publicação e, finalmente, ir à livraria e comprar o novo, Essa gente. Por motivos de força cotidiana, mal terminei o Estorvo e o livro novo já estava nas livrarias.

Comecei a leitura buscando as minúcias típicas deste gênio da raça, que se utiliza das entrelinhas para mandar os recados. Se alteramos nossa percepção, ampliando nossas perspectivas e nossas sensações, a cada vez que escutamos uma música, por que com os livros seria diferente? Procurava me adiantar à necessidade de uma segunda leitura, numa ansiedade típica da nossa sociedade, das rotinas e do dia-a-dia, do cotidiano. Mas, no meu cotidiano, ler e reler uma obra é rotina, hábito que se confunde com necessidade e que muitas vezes revela a capacidade de compreensão e a profundidade do texto.

Despreocupei-me, deixei a leitura fluir, me contando a divertida - e, no começo, tensa, estranha - história de um sujeito (sem nome) que, mal acorda, já está ansioso, elucubrando quem será que bate a sua porta insistentemente. Logo percebemos que nosso personagem não funciona no mundo do tempo e da razão. Ele acorda de supetão, imagina mil razões para lhe estarem batendo a porta, sem nenhuma reflexão sobre a sua rotina. Sua mente maquina mais sobre o que se passava que se ele teria tempo e razão para elucubrações mundanas. Não sabemos se aquele estranho que o acorda sempre o acorda; se sempre está à espera, aparecendo no ordinário olho mágico. Sem um ritual burocrático que envolva o banho ou a cafeteira, as escovas de dentes ou a espuma de barba, o espelho e a maquiagem, essa liberdade de acordar e ir ver quem bate nos gera um afastamento em relação ao personagem, que se atenua à medida que nossa curiosidade sobre o que está acontecendo se amplia e se apropria do nosso imaginário. Temos e não temos algo em comum com esse sujeito, nunca nominado por Chico.

Ao sair de casa, de sua particularidade, o nosso estranhamento em relação a um sujeito que pode se levantar sem horário e sair de casa quando quiser dá lugar para uma reconciliação. Descortinada a sua vida, descobrimos que o cidadão tem irmã abastada, um sítio; vem de família de posses, mas que ele particularmente não possui nada. Apenas uma mente que cisma com absolutamente tudo, inventando mil possibilidades para um fato, seus desdobramentos futuros, tendo ou não impacto direto sobre o seu presente. Se a irmã gesticula de maneira A ou B, X ou Y, desdobram-se teses sobre porque A e não B; sobre se esse A é o mesmo de 10 ou 15 anos atrás. Uma mente perturbada, que, novamente, nos distancia e nos aproxima do personagem. De qualquer forma, se é verdade que nem todos nasceram em berço esplêndido, é igualmente verdade que conhecemos alguém apoiado na família, dependente de membros que se deram melhor na roda viva. Aproximação e afastamento de nós em relação ao personagem.

Paro por aqui o meu relato sobre a história do inominável. A maneira como Chico conduzirá o seu cotidiano mostrou-se mais interessante que os fatos, embora estes sejam hilários, preocupantes e nervosos. Minha questão é estabelecer um relacionamento entre este livro de Chico e a trajetória errática da economia brasileira. Roberto Schwarz, crítico e professor de literatura, sugeriu ser Estorvo a interpretação de Chico sobre o Brasil contemporâneo. Parece-nos uma ideia razoável, considerando o período em que o livro foi lançado (década de 1990), quando os tortuosos caminhos da redemocratização lenta, gradual e segura se distanciavam novamente do desenvolvimento socioeconômico e nacional. Mas, quem falou que democracia e desenvolvimento caminham juntos ? De qualquer forma, a despeito do que cercava o país, sua história parecia repetir-se, prevalecendo as forças do atraso, o racismo, a pobreza, o subdesenvolvimento, o mimetismo cultural de sempre. Sem caminho próprio, no sentido de conscientemente elaborado e estabelecido, o país alternava seu regime político e ingressava tardiamente na mundialização do capital, comportando-se de maneira reativa às transformações do meio.

1268660372collor.jpg Fernando Collor, o caçador de marajás, eleito para inserir o país na "modernidade"

O país sem história confunde-se no personagem levado pelo acaso, passivo ao meio que o cerca. À medida que não sabemos qual a rotina de nosso personagem, não sabemos quão recorrente o homem estranho e, ao mesmo tempo, familiar bate a sua porta, iniciando o dia. A imagem que os demais do enredo têm do inominável sugere que sua vadiagem, sua vida sem um trabalho e sem família há muito compreendem o cotidiano de quem o cerca. Sua irmã está habituada a lhe dar dinheiro de tempos em tempos; sua ex-mulher, a esperar pela mudança definitiva de sua antiga casa, levando suas poucas roupas; os que ocupam o sítio tratam-no com a indiferença com que se relacionam com os estranhos, mas nem tão estranhos, porque eles sabem da passividade com que o nosso personagem recebe um pontapé, uma ordem. Não sabemos de fato se essa é a rotina, mas sabemos que a falta de grana, a relação intermitente com a ex-companheira e as aparições no sítio não lhe são estranhas. Reconhece a feição do cunhado, da irmã, da amiga da irmã, da chefe da ex, quando aparece sem mais nem menos; a forma como o percebem no meio social, como o olham, julgam e observam; as pessoas e as crianças do sítio. Todo esse conjunto aponta para a recorrência de uma condição de total vulnerabilidade ao meio, de dependência em relação aos outros para lhe dar algum sentido à vida que leva. Destituído de uma individualidade, vaga de casa em casa, de pedido em pedido, procurando alguma forma de se ocupar, de se encontrar. Parece se incomodar com a situação, mas não encontra mais forças para subverter essa ordem. Não é de todo acomodado, um estorvo para o seu meio, posto que não o repudiam e sempre o compreendem. Ao mesmo tempo, sua condição assume repercute um caráter de aborrecimento, dificuldade, impedimento e obstrução em relação à conquista de libertação dessa condição.

O sujeito sem rumo e levado pelo meio parece não ter história após o seu nascimento, expressando a particularidade do período de formação nacional. Passada a turbulenta transição democrática, os rumos que o país tomou a partir da década de 1990 condenaram os 60 anos de industrialização à concorrência aberta das grandes estruturas de capital que, diferentemente do caso brasileiro, já haviam avançado para a Terceira Revolução Industrial (1980 - 2000). A organização internacional das economias, isto é, as relações recíprocas entre diferentes espaços nacionais relativamente autônomos na economia e independentes na política, transfiguraram-se numa organização transnacional, em que se acelera o tempo, reduz-se o espaço. Uma organização da produção cujo centro dinâmico está em todo o lugar e, ao mesmo tempo, não está em lugar algum. No bojo dessas transformações, irromperam os imperativos de curto prazo a que a política econômica foi submetida, que, combinados com a reestruturação organizacional da grande empresa, condenaram ao ostracismo as estratégias de longo prazo, as intervenções voltadas para o planejamento e a maior previsão dos indicadores econômicos.

A consolidação da democracia após 21 anos de ditadura civil-militar orquestrava-se concomitantemente ao desmonte da estrutura econômica nacional, sem a qual o país - já vulnerável - se encontraria à deriva, interrompendo a capacidade de controle sobre os meios e fins do desenvolvimento. A formação nacional, como nos alertou Celso Furtado, em 1982, encontrava-se interrompida. Sem resolver os problemas de seu passado e vestindo a roupa de uma sociedade industrial dependente e subdesenvolvida, iniciávamos a marcha para a reversão econômica do país, desmontando linhas de produção, submetendo os recursos do Estado para o ajuste patrimonial dos agentes privados. Sem sabermos se aquela vida industrial era uma cotidiana ou uma exceção à regra de nossa existência, aos poucos ela foi se tornando mais distante, resultando em pobreza, subserviência aos imperativos do dinheiro rápido. Noutras palavras, apesar de mudanças ao nosso redor, continuávamos, na essência, sem nos encontrarmos em nossa própria terra, estranhando as designações com que passaram a nos definir: emergentes, em desenvolvimento. Mas, a realização do sonho, o desenvolvimento não era a promessa há 50 ou 60 anos? Por que esse retorno?

Se as transformações da economia brasileira denunciavam um retorno à condição inicial, mas agora com a sociedade urbanizada, o que temos, na verdade, é uma Nação que não completou o seu processo de formação; uma sociedade nacional que deixou de ser colônia, mas também não é Nação autônoma, auto-suficiente, controladora de seu tempo histórico. Vivemos numa sociedade conduzida, assim como o nosso inominável, pelos acasos dos que a nossa porta batem, ora oferecendo melhores condições de compra de carne, ora de soja, ora de petróleo bruto; ora requisitando nossas terras, nossas riquezas, nossas estatais, nossos serviços públicos, nossa dignidade enquanto povo autônomo. E dependemos desses encontros para nos mexermos, irmos ali, aqui, realizarmos alguma obra ali outra acolá, como educação superior, luz elétrica e cisternas. Nosso país e o nosso inominável precisam se descobrir para caminhar e deixar de se sujeitar ao meio. Do contrário, seguiremos, como nos ensinou o pai de Chico, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em nossa procissão de milagres.


Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas. .
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